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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Participação no Seminário Internação Compulsória: rediscutindo o SIM e o NÃO




O SindSaúde-SP realizou no dia 26/08, no auditório Franco Montoro da ALESP o Seminário Internação Compulsória: rediscutindo o SIM e o NÃO.

No dia 11 de janeiro de 2013, o governo do estado de São Paulo anunciou medidas para tirar das manchetes da imprensa a cracolândia paulistana. Passados seis meses, muita polêmica entre especialistas de diversas áreas e na sociedade em geral, o SindSaúde-SP retoma a discussão para avaliar os resultados e as consequências das medidas do governo estadual.

O presidente Gervásio Foganholi e a secretária de Saúde do Trabalhador Roseli Ilídio do SindSaúde-SP coordenaram o seminário. 

O presidente abriu o debate destacando que, antes de ser um tema jurídico ou médico, a dependência química de crack e outras drogas similares é uma questão social. A internação pode ser uma das etapas de um tratamento médico, porém sem políticas públicas sociais que ofereçam condições de vida aos dependentes e seus familiares a internação compulsória é mais uma medida vazia.

A secretária de Saúde do Trabalhador foi objetiva. A internação compulsória é uma política de higienização. Não foi pautado no controle social, não foi debatido com a sociedade. Não foram criados leitos para esses casos, retirando leitos dos SUS. Não foram contratados profissionais especializados, sobrecarregando os profissionais existentes, sem condições de trabalho e segurança.

O único hospital que está preparado para a internação compulsória é o PINEL, porém não possui infraestrutura para receber mais pacientes. Em todo o estado, por determinação do governo, foram reservados 25% dos leitos existentes do SUS para os encaminhamentos do CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas). Como não houve aumento de leitos no estado, as internações locais e regiões ficaram prejudicadas.

O promotor Eduardo Ferreira Valério, do Ministério Público do Estado de São Paulo, abordou os aspectos jurídicos e legais que envolvem a dependência química e a internação compulsória. Destacou que de janeiro até agora houve somente um caso de internação compulsória. O plantão no Cratod, com juízes, promotores, advogados e assistentes, é uma medida desnecessária, custosa e atrapalha o trabalho da equipe de especialistas da saúde da unidade.

Quanto ao outro programa do governo do estado, lançado em maio, no valor de R$ 1.350,00 por dependente químico, o promotor destacou três problemas. O dinheiro é repassado aos municípios que por sua vez repassa a comunidades terapêuticas que correm o risco de se tornar uma instituição asilar. Citou o relatório do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo com sérias denúncias. Além disso, não há informações sobre o número de comunidades existentes, a localização dessas unidades, o processo de repasse da verba e o controle social sobre o uso da verba.

A professora Ana Cecília Marques, psiquiatra e pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia e Ciência para Políticas sobre Álcool e Drogas, falou da necessidade de se garantir uma política de drogas moderna, levando-se em conta as experiências de outros países. Ela destacou que participou de diversos fóruns em todo o país para elaboração de um relatório sobre drogas e uma política nacional anti-drogas não saiu da gaveta até o momento.

O desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, relatou experiências pessoais na militância para recuperar jovens dependentes. É contrário a internação como meta. Vê a medida como uma exceção, pois é “o abandono do estado e o vazio na alma que levam às drogas”. O tratamento é somente um P. S. Faltam políticas mais amplas. Se faltam políticas públicas de educação e saúde, por exemplo, qualquer P. S. não resolve. 

O deputado estadual Adriano Diogo (PT) também participou do seminário falando sobre o livro Holocausto Brasileiro da jornalista Daniela Arbex que relata os horrores praticados no hospital psiquiátrico de Barbacena em Juiz de Fora (MG). 

No debate, trabalhadores de diversos hospitais e unidades diretamente afetados pela internação compulsória apontaram os problemas decorrentes dessa internação compulsória, como as dificuldades para a “desinternação”, o choque entre diagnóstico médico e decisão judicial, a falta de leitos para outros casos de internação psiquiátrica, entre outros. 

Após o debate e com o aval dos presentes, o presidente do SindSaúde-SP resumiu os encaminhamentos da atividade: formação de uma comissão de trabalhadores que atuam na internação compulsória para elaboração de um relatório e o aprofundamento do debate em outro seminário, envolvendo mais entidades do controle social e incluindo o tema maioridade penal, que tem relação direta com a internação compulsória

sexta-feira, 17 de maio de 2013

SP pagará tratamento a usuários de crack: dependentes receberão R$ 1,3 mil para gastar com reabilitação


O governo de São Paulo lançará oficialmente hoje um programa pelo qual usuários de crack vão receber uma bolsa de R$ 1.350 por mês para custear despesas com unidades de reabilitação e acolhimento social, e evitar recaídas. O programa, que é visto com algumas ressalvas por especialistas, é anunciado ao mesmo tempo em que o atendimento a dependentes de drogas no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas, do governo estadual, ainda esbarra em dificuldades, segundo juízes. Pelo programa Recomeço, cada dependente químico maior de 18 anos receberá um cartão que só poderá ser usado para pagar tratamento em comunidades terapêuticas, onde poderão morar e se tratar por até seis meses.

Inicialmente, o projeto vai beneficiar três mil dependentes químicos que já tenham passado por atendimento psiquiátrico anterior. Caberá às prefeituras indicar os nomes dos dependentes que receberão o cartão, pois são os municípios que gerenciam os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, onde os viciados recebem atendimento ambulatorial. O projeto chegará primeiro a 11 cidades do interior. — Não tem médico, tem assistente social e pessoas que ministram oficinas para ajudar a inserir a pessoa na sociedade e no mercado de trabalho. Médico, ele verá na rede de saúde pública e no Caps.

O cartão agilizará o avanço do atendimento para o interior — explica o secretário de Desenvolvimento Social, Rodrigo Garcia. A iniciativa é inspirada num projeto similar feito pelo governo de Minas Gerais, onde a bolsa é de cerca de R$ 900. A professora de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecília Marques disse que, numa situação em que pouco se faz para resolver o problema do crack no país, a iniciativa é positiva. Mas ela acredita que o governo deveria exigir que houvesse um médico dentro das comunidades terapêuticas credenciadas. — Precisa de médico para fazer avaliação da síndrome de abstinência, que é um quadro grave e tem que ser tratado por um médico — afirma Cecília.


Governo de SP lança bolsa para usuários de crack


Cartão será entregue às famílias dos dependentes somente para pagar clínicas credenciadas

Cracolândia em São Paulo Eliaria Andrade / Arquivo O Globo

SÃO PAULO — O governo de São Paulo lançará oficialmente nesta quinta-feira um programa pelo qual usuários de crack receberão uma bolsa de R$ 1.350 por mês para custear despesas com unidades de reabilitação e acolhimento social e evitar recaídas. O programa, que é visto com algumas ressalvas por especialistas, é anunciado ao mesmo tempo em que o atendimento a dependentes de drogas no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), do governo estadual, ainda esbarra em dificuldades, segundo juízes.

Pelo programa Recomeço, cada dependente químico maior de 18 anos receberá um cartão que só poderá ser usado para pagar tratamento em comunidades terapêuticas, onde poderão morar e se tratar por até seis meses. Inicialmente, o projeto vai beneficiar 3 mil dependentes químicos que já tenham passado por atendimento psiquiátrico anterior. Caberá às prefeituras indicar os nomes dos dependentes que receberão o cartão, pois são os municípios que gerenciam os Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), onde os viciados recebem atendimento ambulatorial. O projeto chegará primeiro a 11 cidades do interior do estado onde há Caps AD.

— Na comunidade terapêutica, o dependente tem qualificação profissional, de fortalecimento de vínculos com a família. Não tem médico, tem assistente social e pessoas que ministram oficinas para ajudar ele a se inserir na sociedade e no mercado de trabalho. Médico ele verá na rede de saúde pública e no Caps. O cartão agilizará o avanço do atendimento para o interior — explica o secretário de Desenvolvimento Social, Rodrigo Garcia.

Segundo o secretário, na capital, o atendimento já é feito por comunidades terapêuticas conveniadas. Ele estima que em 60 dias já haverá pessoas começando a serem atendidas. As comunidades terapêuticas serão escolhidas pelo governo após passar por vistorias e terão que apresentar plano de atividades para os usuários, dentre outros requisitos. A iniciativa é inspirada num projeto similar feito pelo governo de Minas Gerais, onde a bolsa é de cerca de R$ 900.

A professora de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas Ana Cecília Marques disse que numa situação em que pouco se faz para resolver o problema do crack no país, a iniciativa é positiva e pode ajudar pacientes que não teriam alternativa de tratamento caso não recebessem a bolsa. Mas ela acredita que o governo deveria exigir que houvesse um médico dentro das comunidades terapêuticas credenciadas.

— Precisa de médico para fazer avaliação da síndrome de abstinência, que é um quadro grave e tem que ser tratado por um médico — afirma.

Thiago Fidalgo, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp , diz que o governo não deveria privilegiar a internação como solução para o problema das drogas, e sim investir em prevenção e tratamento ambulatorial, pois a internação é necessária em apenas alguns casos. Segundo ele, muitas comunidades terapêuticas não trabalham de forma adequada atualmente e precisariam se adequar.
— Em muitas comunidades terapêuticas, pelo menos no período inicial, o dependente não pode deixar a unidade. Cerca de 70% dos usuários de drogas têm doenças psiquiátricas que precisam ser tratadas e a maior parte das comunidades terapêuticas não tem psiquiatra. O ideal é que a comunidade estimule a inserção social. E como ela vai fazer isso se afasta a pessoa da comunidade? — questiona Fidalgo.

Mais de três meses depois de um plantão judiciário ter sido instalado no Cratod, unidade de referência ao atendimento de dependentes no estado, a burocracia ainda emperra a ajuda a viciados. Segundo o juiz Iasin Issa Ahmedas, ainda há casos de dependentes em crack que esperam 30 dias para serem internados por falta de vagas, mesmo quando possuem laudo médico recomendando internação e decisão judicial determinando que o estado tome providências.
           
— Na última sexta-feira houve um caso de um rapaz que estava há 30 dias esperando vaga, em casa. Ele estava estável, mas isso é um absurdo. Tem que ter vaga logo. A gente liga, cobra, e a vaga não sai. A novela desse rapaz acabou, ele conseguiu a vaga. Mas há uma burocracia enorme na área da saúde, as pessoas não se comunicam — disse Ahmedas.

Segundo a secretaria estadual de Saúde, desde que o plantão judiciário começou a atender no Cratod, em 21 de janeiro, até anteontem, o centro recebeu 25 mil telefonemas pedindo informações e foram realizadas 770 internações (sendo 712 voluntárias e 58 involuntárias, mas nenhuma compulsória). De acordo com a pasta, em 92% dos casos atendidos pela unidade, com necessidade constatada de internação, os pacientes permanecem por no máximo dois dias no Cratod, em leitos de observação, enquanto há a liberação de transferência para uma unidade hospitalar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Uma fortaleza contra o crack



Num casarão em forma de castelo, uma ONG ajuda moradores de rua e dependentes químicos a aprender um ofício e a reencontrar o rumo

Maria Eulina é uma das assistidas pelo Clube de Mães. A ONG oferece alimentação e oficinas técnicas a moradores de rua 

Boaventura tinha fome. Aos 17 anos, o rapaz saíra da casa dos pais, em Mato Grosso, e fora para são Paulo morar com uma tia. O plano inicial, completar o ensino médio e trabalhar, logo foi abandonado. "Minha família achava que eu estava estudando, mas passava o dia usando droga e me prostituindo", diz. Viciou-se em crack e morou nas ruas por três anos. Um dia, descobriu que serviam comida num casarão em formato de castelo, na Rua Apa, no centro de são Paulo. O Clube de mães chega a reunir 100 pessoas nos almoços de sábado. São moradores de rua, a maioria vinda da área próxima apelidada de Cracolândia. Sua fundadora, Maria Eulina Hilsenbeck, recebe quem vem em busca de comida e tenta oferecer algo mais. Conversa com vários dos visitantes e encaminha os interessados a albergues. Alguns passam a participar das oficinas promovidas pela ONG durante a semana.
Faz cinco anos que Boaventura entrou no almoço que, provavelmente, salvou sua vida. "Viciado em crack não quer nada com nada, mas a Maria Eulina me deixou entrar mesmo assim", diz. Eulina não se imagina agindo de outra forma. Ela criou o Clube em 1993, com a proposta de orientar as mães de áreas pobres e violentas. Logo passou a oferecer refeições grátis e cursos baratos aos interessados. Em 2009, a ONG foi obrigada a se reinventar, diante do avanço devastador do crack.
Eulina percebeu o poder destrutivo da nova droga desde o final dos anos 1990. Em 2005, a secretaria Nacional de Políticas Contra Drogas calculava que 1,29 milhão de pessoas já a experimentaram. "Vi crianças acendendo um cachimbo de crack na minha esquina", afirma Eulina. "Não podia deixar de me envolver, nem que fosse para salvar um ou dois."
O índice de sucesso na recuperação desses dependentes é baixo. O tratamento pede recursos, equipes multidisciplinares e atuação em rede de vários tipos de instituições, diz a psiquiatra Ana Cecilia Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). A síndrome de abstinência, se mal diagnosticada, pode causar demência. Entre os desafios antigos e graves com que já lidava - alcoolismo, abandono, falta de expectativas - e o novo, Eulina escolheu enfrentar o mais difícil. "O dependente de álcool, em alguns momentos, recobra a razão. O crack não dá trégua", diz.
Há três anos, o Clube passou a se dedicar apenas a moradores de rua. Fechou os demais cursos, pagos, e manteve apenas oficinas gratuitas para esse grupo, como as de costura. Elas resultam em sacolas, bolsas e brindes, feitos com material reciclado e vendido a empresas. McDonald’s e Pão de Açúcar estão entre os parceiros eventuais. A ONG conta com dois funcionários e dois voluntários, além de Eulina. Não tem condições de lidar com casos mais graves. Os que pedem são encaminhados para tratamento. Eulina calcula que, desde 2002, o Clube tenha ajudado 2 mil pessoas a deixar drogas variadas.
Deixar de ministrar cursos pagos teve consequências. O Clube deve R$ 48 mil. Eulina não se arrepende da decisão e considera o trabalho na ONG uma extensão de sua própria história. Ela nasceu no maranhão e foi para são Paulo aos 20 anos. Viveu dois anos nas ruas. Às vezes, escondia-se no Castelinho. O lugar estava abandonado desde 1937. Um dia, uma desconhecida ofereceu abrigo e emprego de assistente. No trabalho, Eulina conheceu o futuro marido, que a ajudou a reorganizar a vida. Ela decidiu ajudar quem precisava. O governo estadual admitiu a ONG no Castelinho em 1996.
Inquieta, Eulina se prepara para um novo desafio. Desde 1o de agosto, 20 pessoas que participaram das oficinas do Clube assumiram a coleta seletiva do mercado municipal Paulistano, o mercadão. A renda com as vendas será dividida entre os trabalhadores. A administração do mercado se encantou com o projeto. "Nos sete anos em que trabalho aqui, o Clube foi a única ONG que não me pediu mais nada - só trabalho", diz o supervisor de abastecimento José Roberto Graziani.
Boaventura, que chegou ao Clube em 2007 atrás de comida, participou das oficinas por sete meses. Foi encaminhado para tratamento. Tornou-se atendente na clínica de reabilitação e se matriculou num curso superior. Ele se mantém em tratamento até hoje. Eulina se lembra dele com orgulho: "Fico muito feliz de ver a vida deles decolando".

terça-feira, 29 de maio de 2012

Marcha: tratamento e reinserção social é destaque em um dos painéis do Seminário sobre crack


Para a especialista da Unidade de Pesquisa Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecilia, cada Município deve instituir uma rede de tratamento de acordo com suas necessidades.  Durante o segundo painel do Seminário Nacional: Os Municípios com Protagonistas no Enfrentamento ao Crack, a especialista destacou a importância do tratamento e reinserção social.

Para ela como não é possível ter um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em todos os Municípios brasileiros os prefeitos devem apostar em uma boa Atenção Básica para ajudar na questão do tratamento. “A dependência é uma doença totalmente tratável e políticas integrais na luta contra o problema devem ser prioridades em qualquer governo”, afirma a especialista.

Durante a apresentação que aconteceu no primeiro dia da XV Marcha, Ana Cecilia ainda destacou a importância de diferenciar o tratamento dos dependentes químicos adolescentes e adultos. “O tratamento do adolescente é diferente e mais que isso, se ele não for tratado a tempo, vai se tornar um caso grave”, alerta.

Parelhas

O painel ainda contou com o depoimento do prefeito do Município de Parelhas (RN), Francisco Medeiros. Ele trouxe boas práticas na área de reinserção social destacando o trabalho do CAPS municipal. “Nosso CAPS atende mais de 148 usuários por mês, a maioria com problemas com crack. Nossa equipe multidisciplinar tenta atender os 21 mil habitantes, pois na região do Seridó com 54 Municípios, só existe um CAPS 3 no Município de Caicó  que não consegue atender a demanda”, conta o prefeito.

O gestor municipal destaca ainda que os projetos de reinserção social trabalham com a capacitação dos usuários, com oficinas de trabalhos manuais, teatro e cursos técnicos. “O perfil do usuário é de 25 a 30 anos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, por isso precisam de apoio para se capacitar e se reinserir”, observa o gestor.