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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Como deve ser o tratamento de saúde para dependentes do crack?

"O ideal seria que o tratamento começasse no ambulatório. O paciente chega à atenção primária, na Unidade Básica de Saúde, e o médico generalista detecta que ele está tendo problemas com álcool, tabaco e outras drogas, e então encaminha para o ambulatório especializado; mas isso não acontece", afirma a psiquiatra Ana Cecília Petta Marques.

Confira a matéria completa:

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estadão Notícias: Programa ouve especialistas sobre ações na Cracolândia

Edição desta segunda-feira, 29, se debruça sobre o grave problema da Cracolândia em SP. Os governos estadual e municipal promoveram ações policiais ostensivas para acabar com a feira de drogas na região central da cidade. A questão que se impõe a partir de agora é tão urgente quanto tentar prender os traficantes: o que fazer com os mais de mil usuários que vagam por ali? Nós conversamos com defensor público Rodrigo Lessa, a psiquiatra Ana Cecilia Marques e  autor da reportagem especial sobre o tema publicada ontem no Estado, Alexandre Hisayasu.

Ouça a entrevista completa

Justiça de São Paulo autoriza busca e apreensão de dependentes químicos.

 Internação compulsória terá que ser autorizada por um juiz caso a caso. Após ação da polícia na Cracolância, usuários foram para praça.
A Justiça autorizou a busca e apreensão de dependentes químicos na região da Cracolândia, em São Paulo, mas neste sábado (27) só foi atendido quem procurou ajuda por vontade própria.
Os técnicos passaram o dia refazendo a fiação elétrica e religando o sistema de telefones que não funcionavam na antiga Cracolândia. Já em torno do novo endereço do crack, a maioria das lojas não abriu.
Quem trabalha ou mora ao redor da Praça Princesa Isabel ficou com medo da situação. Em cinco dias de ocupação, os usuários montaram barracas de lona. E, no meio de muito lixo, eles passam o dia consumindo drogas.
A abordagem dos assistentes sociais e das equipes médicas aos dependentes químicos ainda não mudou. Durante o dia eles foram ao meio da praça e só voltavam com alguém quando a pessoa queria atendimento por vontade própria. 
Na quarta-feira (24), a prefeitura pediu a autorização para fazer internações compulsórias, ou seja, contra a vontade do dependente químico. 
Na quinta (25), a Justiça autorizou que equipes médicas, com a ajuda da Guarda Civil Metropolitana, façam a busca e apreensão de pessoas, maiores de 18 anos.
Depois de exames médicos e psiquiátricos, a internação compulsória ainda terá que ser autorizada por um juiz caso a caso. A medida vale a partir deste sábado (27) e tem duração de 30 dias.
“O paciente que estiver fora de si, ou com uma crise grave de agressividade contra ele próprio ou ao redor, esse vai ser motivo de uma abordagem”, explicou o secretário municipal de Saúde, Wilson Pollara.
O Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana teme que haja abusos.
“O que nós tememos é uma verdadeira caçada humana. Não há como se fazer buscas e apreensões por parte de agentes de saúde e sociais em conjunto com a polícia ou com a Guarda Civil Metropolitana”, disse o conselheiro Ariel de Castro Alves.
A psiquiatra Ana Cecília Marques da Universidade Federal de São Paulo defende a internação compulsória.
“Eu acho que ela serve para poucos indivíduos, mas ela pode ajudar esse indivíduo em particular, são indivíduos que têm muita vulnerabilidade, então, onde o estado perdeu a mão, o indivíduo não adere ao tratamento”, afirmou a psiquiatra Ana Cecília.
Sem o crack tão perto, a vida muda. Quem mora nas ruas onde funcionava a Cracolândia agora se senta na porta de casa.
“Mudou muita coisa, o dia a dia, as crianças agora podem brincar sossegadas e a gente fica mais tranquila”, diz Jaqueline Rodrigues, moradora da região.
Ver crianças brincando, voltando da escolinha pela calçada eram coisas simples que por anos não se via por aqui.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Como lidar com a busca constante por aceitação e aprovação na adolescência

Se a família percebe que o jovem mudou de atitude, está irritado, isolado, indo mal na escola, tem alguma coisa errada, que pode ser um comportamento de risco que está alterando sua qualidade de vida. Os pais têm que estar atualizados, de olho, trabalhando a proximidade com muito diálogo — aconselha a psiquiatra Ana Cecilia Marques, coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, acrescentando que faltam políticas de prevenção para pais e jovens.

terça-feira, 3 de maio de 2016

WORKSHOP

WORKSHOP
O Impacto da Dependência Química na Família
21 de maio de 2016
Download do programa completo

sexta-feira, 11 de março de 2016

Dependência química ainda é desafio: História de casal de usuários de crack, em Santos, aponta uma das lacunas deste problema: eles não conseguem atendimento integral

O polegar e o indicador da mão esquerda amarelados revelam a dependência de Roberto, nome fictício que será usado nesta reportagem para preservar a identidade do usuário de crack. Ele tem 36 anos e vive há mais de dez nas ruas de Santos. Ele e sua companheira, que também é moradora de rua e usa a mesma droga, saíam da Seção Núcleo de Atenção ao Toxicodependente (Senat), na Encruzilhada, quando relataram sua rotina a A Tribuna: há alguns meses o casal vai à unidade para se tratar contra o vício. Apesar do aparente esforço, Roberto diz que os dois não conseguem se manter limpos aos fins de semana, quando o Senat está fechado. “Sábado e domingo a gente guarda carro e usa o dinheiro (que ganha) para comprar crack”. O Senat também não funciona à noite, quando Roberto e a companheira voltam para a marquise na esquina das ruas Silva Jardim com a Xavier Pinheiro. A presidente do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas (Comad), Maria Tereza Spagna Louzano, reconhece que o atendimento ao dependente químico em Santos precisa melhorar. Diz que a entidade tem trabalhado em conjunto com a Prefeitura. Ela acredita que casos como o de Roberto serão mais assistidos com a inauguração do Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps AD) na Zona Noroeste. “Ele (Caps AD) já está pronto, mas a Prefeitura informou que por problema de Recursos Humanos ainda não inaugurou. A expectativa é que isso aconteça até julho”.

AVANÇAR
A psiquiatra e professora da Unifesp, Ana Cecília Marques, afirma que os modelos de tratamento aos dependentes químicos em todo o País precisam avançar. De acordo com ela, há a necessidade de uma ação conjunta, que comece na Atenção Básica de Saúde. “Temos que evitar que esses dependentes de álcool e drogas cheguem na rua, porque quem está na rua, está no fim da linha”, diz ela, que também é coordenadora do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).

ATENÇÃO BÁSICA
Para ela, o primeiro passo é identificar a dependência química ainda na Atenção Básica
de Saúde. “Na hora que o paciente entra na unidade de Saúde, do mesmo jeito que ele mede a pressão, é só perguntar se ele fuma, bebe, ou usa droga”. Segundo Ana, esse é um procedimento ignorado em todo o Brasil, até pelos agentes comunitários de Saúde, em cuja ficha de trabalho há um espaço para preencher essa informação. Detectar a dependência precocemente, significa impedir que ela evolua. Para saber os resultados dessas medidas, Ana integra um grupo de pesquisa da Unifesp, que há dez anos adotou a prática em Tarumã, cidade com 12 mil habitantes no Centro Oeste do Estado. Agora o projeto entra na etapa de avaliar resultados.

IMEDIATO
Ana Cecília acredita que esse cuidado na Atenção Básica produza resultados
a longo prazo. De imediato defende uma coalizão que envolva toda a comunidade e não deixe apenas nas mãos da escola o assunto. “A prevenção na família deve ser urgente. Tem que ser uma prevenção universal, cuidando do adolescente e da criança, dando o exemplo, mudando o comportamento”, finaliza.



quinta-feira, 6 de março de 2014

Secretaria da Justiça de SP emprega usuários da crack em tratamento: Se interromper o tratamento, perde a vaga. (Salário pago é de R$ 395)

O governo do estado decidiu que também vai pagar um salário para para dependentes químicos da cracolândia, no centro de São Paulo. Há cerca de um mês, a prefeitura de São Paulo lançou um programa assistencial, chamado Braços Abertos, com jornada diária de 4 horas e salário de R$ 330. No programa estadual, Recomeço, são 6 horas de trabalho a R$ 395 mensais. Das 40 vagas do governo paulista, 13 já foram preenchidas. Mas no programa estadual, os participantes devem, obrigatoriamente, receber tratamento médico.

Os primeiros participantes estão tirando cópias e organizando arquivos na Secretaria de Justiça. No Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) eles vão ajudar no acolhimento de quem procura tratamento. Eles trabalham de segunda-feira a quinta-feira. Na sexta, vão fazer cursos de qualificação profissional. O curso, no entanto, ainda não foi definido.
Eles ficarão no projeto durante nove meses. Segundo o secretário estadual do emprego, Tadeu Morais, “todo bolsista precisa receber uma ’alta’ médica, mas não pode interromper o tratamento. O trabalho faz parte do processo de recuperação”.

A iniciativa de conciliar a reabilitação das drogas com a jornada de trabalho é elogiada pela presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Petta Roselli Marques. Na avaliação dela, o exercício profissional, sem a oferta de tratamento, não ajuda na reabilitação do dependente químico. Segundo ela, apenas com o quadro de saúde estabilizado, o dependente químico terá condições de se dedicar a uma atividade profissional.

— O trabalho sem o tratamento não funciona. Eu atuo na área há 30 anos e observo que a dependência química tira a capacidade do individuo de trabalhar, de ter controle sobre sua própria vida. Ele, primeiro, precisa se tratar e, estabilizado, tem de trabalhar. O tratamento com trabalho faz diferença — afirmou. 

De 21 de janeiro de 2013 até 21 de janeiro deste ano, 3230 dependentes procuraram tratamento no Cratod. Desses, pelo menos 2,8 mil foram espontaneamente. Os outros foram levados pela família ou por medida compulsória.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

No INSS, pedidos de auxílio-doença para usuários de drogas triplicam em oito anos


Por anos, o eletricista Cléber Wilson do Prado Franchi, de 35 anos, conciliou a rotina de trabalho com o vício do álcool e da cocaína. Em 2011, um aumento no consumo das duas drogas levou o profissional a apresentar sintomas como perda de raciocínio e coordenação, e fez com que ele fosse demitido da multinacional onde trabalhava. Nessa época, ele ingeria três litros de álcool por dia e chegou a ter duas overdoses. 

Em busca de ajuda, internou-se em uma clínica de reabilitação e, desde 2012, recebe um auxílio-doença mensal no valor de R$ 1.500. Isso fez com que ele entrasse em uma estatística preocupante que vêm crescendo nos últimos anos. O consumo de drogas no Brasil não só cresce, como também afasta cada vez mais brasileiros do mercado de trabalho.

Nos últimos oito anos, o total de auxílios-doença relacionados à dependência química simultânea de múltiplas drogas teve um aumento de 256%, pulando de 7.296 para 26.040. No mesmo período, o benefício concedido a viciados em cocaína e seus derivados, como crack e merla, também mais do que triplicou. Passou de 2.434, em 2006, para 8.638, em 2013, num crescimento de 254%. O uso de maconha e haxixe resultou, por sua vez, em auxílio para 337 pessoas, em 2013, contra 275, há oito anos.

Os dados inéditos foram obtidos pelo GLOBO com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ao todo, nos últimos oito anos, a soma de auxílios-doença concedidos a usuários de drogas em geral, como maconha, cocaína, crack, álcool, fumo, alucinógenos e anfetaminas, passou de um milhão. Só em 2013, essa soma alcançou 143.451 usuários.

Segundo o INSS, o total gasto em 2013 com auxílios-doença relacionados a cocaína, crack e merla foi de R$ 9,1 milhões. Os benefícios pagos a usuários de mais de uma droga somaram R$ 26,2 milhões. E a cifra total, relativa a todas as drogas (incluindo álcool e fumo), chegou a R$ 162,5 milhões.

O auxílio-doença varia de R$ 724 a R$ 4.390,24, de acordo com o salário de contribuição do segurado. O valor mensal médio pago a um dependente químico de cocaína e seus derivados é de R$ 1.058, e a duração média de recebimento é de 76 dias. Para ter direito, o segurado precisa de autorização de uma perícia médica e de atestados e exames que comprovem tanto a dependência química quanto a incapacidade para o trabalho. O tempo de recebimento do benefício é determinado pelo perito.

Uso de cocaína cresce no Brasil

A presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Petta Roselli Marques, observou que, por conta do aumento do consumo de cocaína e crack, era esperado que houvesse um impacto também no mercado de trabalho brasileiro. A última edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), promovido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou que, entre 2006 e 2012, duplicou o consumo de cocaína e seus derivados no Brasil. A pesquisa mostrou ainda que um em cada cem adultos consumiu crack em 2012, o que faz do país o maior mercado mundial do entorpecente. Na avaliação da psiquiatra, o consumo da droga já se tornou epidemia.

— Era esperado que tivesse um impacto no mercado de trabalho do país, com repercussões, por exemplo, em auxílios-doença para cuidar da saúde. Por conta do uso, o trabalhador adoece cada vez mais cedo, principalmente do sistema cardiovascular. E há também a questão da mortalidade precoce. É uma epidemia, o que é visto pelo número de casos novos na população ao longo dos anos —explicou Ana Cecília.

No ano passado, apenas os estados de Alagoas, Roraima e Sergipe não tiveram aumento do número de auxílios-doença relacionados ao uso de drogas em relação a 2012. Em São Paulo, estado que historicamente concentra o maior número de beneficiados, o total de auxílios-doença passou de 41 mil para 42.649. Na sequência, estão Minas Gerais (de 18.527 para 20.411), Rio Grande do Sul (de 16.395 para 16.632), Santa Catarina (de 13.561 para 14.176) e Paraná (de 9.407 para 10.369).

O diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (Inpad), o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, observa que o Brasil é um dos poucos países em que o consumo de crack e cocaína têm aumentado nos últimos anos.

— As pesquisas mostram que há, nos domicílios brasileiros, um milhão de usuários de crack e 2,6 milhões de usuários de cocaína. E uma parcela dessas pessoas trabalha. Então, não há dúvida de que tem um impacto no mercado de trabalho.

Em virtude do aumento da dependência química, o Ministério da Saúde informou que aumentará neste ano a capacidade de atendimento dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) 24 horas. Atualmente, o Brasil tem 47 unidades em funcionamento, com capacidade para 1,6 milhão de atendimentos por ano. O governo federal afirma que vai construir mais 132 unidades até o fim do ano, elevando a capacidade para 6,1 milhões de atendimentos anuais.

No Rio, concessão de benefício cresce 25% em um ano

No Rio de Janeiro, que historicamente é o sexto estado que mais concede auxílios-doença relativos a drogas, o pagamento do benefício cresceu 10% em 2013, passando de 6.577, em 2012, para 7.234. No mesmo período, a quantidade de benefícios concedidos a dependentes químicos de cocaína e crack teve um aumento de 25,2%, crescendo de 471 para 590.

No estado, sete de cada dez pacientes que procuram o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Uerj — uma das principais referências no assunto — são dependentes de crack. Em geral, eles têm a opção de aderir a um tratamento em um dos 27 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) existentes na capital fluminense. Os Caps são unidades especializadas em saúde mental e buscam a reinserção social dos indivíduos que padecem de transtornos mentais graves e persistentes. Eles estão abertos ao usuário que quiser ajuda, mas também recebe pessoas encaminhadas pela assistência social ou por ordem judicial. Sua equipe é multidisciplinar e reúne médicos, assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras.

Mas os espaços para acolhida costumam ser pequenos para a demanda. Nesse cenário, sofrem até os bebês que são abandonados por mães viciadas em crack e superlotam os abrigos existentes.

Em 2013, em entrevista ao GLOBO, a juíza titular da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da capital, Ivone Ferreira Caetano, alertou que os abrigos oferecidos pela prefeitura tinham virado verdadeiros depósitos de crianças. Em resposta, a Secretaria municipal de Desenvolvimento Social informou que a “lotação da rede pública para crianças de zero a 4 anos estava diretamente ligada à diminuição da capacidade de atendimento em clínicas e abrigos particulares” e que o abrigo Ana Carolina, em Ramos, seria reaberto.

Para atuação policial nas cracolândias do Rio, o Ministério da Justiça encaminhou ao estado, em novembro, armamento de baixa letalidade. A polícia recebeu 250 kits com pistolas de eletrochoque e spray de pimenta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Em oito anos, auxílio-doença pago a dependentes químicos aumentou 256%


A quantidade de auxílios-doença concedidos a dependentes químicos aumentou 256%, em oito anos. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), divulgados pelo jornal O Globo, o total de usuários que dependem do benefício passou de 7.296 para 26.040. Esse número apenas acompanha o crescimento de usuários de álcool e drogas, principalmente de cocaína e crack.

Em detalhes, a ajuda financeira concedida pelo INSS a dependentes de crack e merla cresceu 254% nos últimos oito anos. Em 2006 eram 2.434 e e no ano passado, 8.638. No caso de usuários de maconha e haxixe, o aumento foi de 275 para 337. Só em 2013 foram pagos 143.451 novos benefícios. E nestes oito anos, o número de pessoas que recebem este auxílios ultrapassou 1 milhão.

Só no ano passado o INSS pagou R$ 162,5 milhões em auxílio-doença para usuários de vários tipos de entorpecentes e álcool. Deste total, R$ 9,1 milhões foram apenas para dependentes de cocaína, crack e merla. O valor médio pago a esse público é de R$ 1.058. Mas, o benefício varia de R$ 724 a R$ 4.390,24. O valor é definido de acordo com o salário de contribuição do segurado.

Perdas no mercado de trabalho

O jornal O Globo ouviu a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead). A entidade lembrou que por causa do crescimento de usuários de cocaína e crack, o impacto no mercado de trabalho brasileiro era esperado. O Observatório do Crack, da Confederação Nacional de Municípios (CNM), comprova este problema. Em 98% dos Municípios do Brasil há registro do uso da droga.

Ainda segundo o O Globo, São Paulo é o Estado com maior número de auxílios-doença pagos: 42.649. Em seguida estão Minas Gerais, 20.411 benefícios; Rio Grande do Sul, 16.632; Santa Catarina, 14.176 e Paraná, 10.369. Na contramão, os Estados com menor quantidade de auxílios para usuários são de Alagoas, Roraima e Sergipe.

O auxílio-doença é pago a dependentes de álcool e drogas após uma perícia médica e apresentação de atestados. Exames que comprovem a dependência e a incapacidade para o trabalho também são exigidos. O tempo de recebimento do benefício é determinado pelo perito médico do INSS.

São Paulo irá oferecer 400 vagas de trabalho para usuários de drogas

Voluntário terá 3 refeições e R$ 15 por dia, além de hospedagem em hotel. Tratamento médico será obrigatório para os interessados.

A Prefeitura de São Paulo anunciou que vai oferecer trabalho e moradia para o usuário de droga da Cracolândia que passar por tratamento médico. As vagas que a Prefeitura vai oferecer aos dependentes químicos são em serviços de zeladoria, como limpeza da cidade e recolhimento de materiais recicláveis.

Quem entrar no programa vai ter que trabalhar quatro horas por dia e passar duas horas em programas de requalificação profissional. Serão oferecidas 400 vagas. Em troca, a Prefeitura oferece três refeições diárias, hospedagem em hotéis da região, R$ 15 por dia, com pagamento semanal, tudo acompanhado de tratamento médico obrigatório.

O secretário municipal de Segurança Urbana Roberto Porto acredita que o programa vai dar certo porque partiu de sugestões dos próprios usuários. “Eles propuseram em reuniões com o prefeito, que foram mantidas por diversas semanas, eles é que apontaram as necessidades para se poder fazer um tratamento maior, algo que partiu de uma necessidade deles mesmos”, declarou o secretário.

Segundo a Prefeitura, a ideia é mudar um pouco a lógica normalmente aplicada nesse tipo de programa, que é de primeiro tratar o doente do ponto de vista médico e só depois promover a reintegração na sociedade, oferecendo emprego e moradia.

Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), disse que desconhece uma experiência semelhante citada pela Prefeitura que teria tido êxito na Holanda e duvida dos resultados em São Paulo. "A reinserção sem cumprir as etapas recomendadas do tratamento é como se eu começasse ao contrário. Eu aplicaria os recursos público seguindo os princípios recomendados do melhor tratamento para os pacientes", disse.


O secretário de Segurança Urbana disse ainda que os barracos que estão na Cracolândia vão ser desmontados pelos próprios usuários de droga depois de receber a ajuda da Prefeitura.

Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/01/sao-paulo-ira-oferecer-400-vagas-de-trabalho-para-usuarios-de-drogas.html

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dependentes de crack terão emprego e hospedagem em São Paulo

Serão 4 horas por dia de trabalho. Em troca, a prefeitura oferece três refeições diárias e R$ 15 por dia trabalhado, além da hospedagem em um hotel. Dependentes não serão obrigados a fazer tratamento médico.

A cidade de São Paulo começou, nesta terça-feira (14), mais uma tentativa de combater o consumo de crack. Dependentes químicos vão ganhar hospedagem, alimentação e emprego.
Os barracos de madeira e lona na região da Cracolândia começaram a ser desmontados durante a tarde. Uma nova tentativa de acabar com a Cracolândia, que concentra dependentes de crack no centro da cidade. A partir de agora, 300 vão receber ajuda desse novo programa.
“Foi absolutamente voluntário. Quem quer participar, quem não quer participar. É um grande desafio, mas é um caminho que estamos buscando”, comenta Luciana Temer, sec. mun. de Assistência Social-SP.

Os dependentes vão ter que trabalhar na limpeza da cidade e recolhimento de materiais recicláveis. Serão quatro horas por dia de trabalho e duas horas em programas de requalificação profissional.
Em troca, a prefeitura oferece três refeições diárias e R$ 15 por dia trabalhado, com pagamento semanal. Além da hospedagem em um dos cinco hotéis cadastrados.

Os hotéis foram todos reformados há pouco tempo. Tem até uma sala de convivência com sofás para os novos hóspede. Uma das suítes com banheiro pequeno, mas com chuveiro elétrico. No quarto, armário e camas com espaço no máximo três pessoas.

Outro ponto do programa é mais polêmico. Os dependentes não serão obrigados a fazer tratamento médico. Mas os que quiserem, vão ser encaminhados.

“O tratamento é pra que essa pessoa reconstrua sua vida. Reconstrua a vida dela e possa ver que ela pode ser feliz. Que possa buscar no trabalho, no emprego, a reestruturação dos amigos, da família, e a saúde. Acho que é um passo importante pra isso, buscar o seu bem-estar integral”, diz José de Filippi Junior, sec. municipal de Saúde-SP.

A médica psiquiátrica condena a falta de tratamento. “Eu acho que é uma medida ingênua, bem intencionada, mas infelizmente boas intenções não funcionam numa situação tão grave como essa. Eu não vejo muita coerência em você promover a reinserção antes de fazer o tratamento”, avalia Ana Cecília Marques, psiquiatra.

Uma dependente, que aderiu ao programa, aprova a ideia e já planeja o recomeço. “Arrumar um trabalho, pegar meu filho e ter minha casa. E ser feliz. Com certeza, se Deus quiser”, afirma.
A prefeitura de São Paulo afirmou que o programa mostrado na reportagem tem como objetivo a reinserção social. E voltou a dizer que o tratamento da dependência não é obrigatório para os participantes do programa, mas que será oferecido para os que pedirem.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Crack não é caminho sem volta

Uma das principais revelações da pesquisa realizada pela Fiocruz nas capitais brasileiras é o desejo dos usuários de erradicar a dependência química. Cerca de 80% dos entrevistados afirmaram querer passar por algum tipo de tratamento para eliminar o vício. Diferente do pensamento enunciado pelo senso comum, o crack não é mais um “caminho sem volta”. De acordo com Pedro Daniel Katz, médico psiquiatra do Hospital Samaritano de São Paulo, é possível, sim, encontrar uma “luz no fim do túnel”.

“Se considerarmos que hoje há um consenso de que na abordagem ao paciente portador de dependência química, ao invés de confrontação por perdas já sofridas, devemos trabalhar por diagnóstico multifatorial e tratamentos que considerem motivação para mudança e reforço positivo, reinserção comunitária”, aponta Pedro.
Esse tipo de tratamento, apoiado em abordagem interdisciplinar, está sendo vivenciado nos últimos três meses por Fred (nome fictício). Ele está na sexta internação e garante que, dessa vez, o tratamento vai ser feito por completo. “Estou trabalhando todos os meus sentimentos. Pensei que não precisasse de ajuda, mas, hoje sei que eu preciso, preciso mesmo”. A porta de entrada para o vício foi o álcool, aos 25 anos, depois vieram nicotina, cocaína e, por fim, o crack. “Era uma brincadeira de usar apenas nos fins de semana. Só o sábado. Depois só o domingo. E depois todos os dias. Quando você menos percebe, tem a compulsividade tomando conta de você”.
As outras cinco internações foram propostas pela família, que nunca abandonou Fred. “O crack é muito rápido. São cinco segundos de euforia e depois vem a depressão, automaticamente. Você vai e volta rapidamente. Eu morava em uma área nobre de Fortaleza. O crack vai do playboy ao mendigo. Não tem mais distinção. Tem gente que usa e as famílias não sabem. Quando vão tomar conhecimento já está em um estágio pesado”.
Tratamentos
Entre os entrevistados pela pesquisa, poucos já haviam passado por algum tipo de internação. O serviço mais acessado era o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD), mas somente 6,3% dos respondentes disseram ter recebido atendimento nas unidades. Para Ana Cecília Marques, presidente de Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas (Abead), o tratamento da dependência química deve estar baseado em estratégias científicas e com eficácia já testada. “Não adianta ficar inventando. Nós podemos recuperar as pessoas, mas temos que aplicar estratégias que funcionam”.
O tratamento padrão começa com a desintoxicação. Quando as substâncias são eliminadas do corpo e é feito diagnóstico. Inclusive, investigando a presença de outras doenças. Depois, vem a fase de treinamento do indivíduo para que ele aprenda os fatores de risco e estratégias de proteção. Finalmente, ele vai para a fase de inserção social, pois o paciente já deve estar preparado para enfrentar a dependência química no cotidiano, explica Ana Cecília Marques. A médica lembra a necessidade das famílias acompanharem os pacientes. “O tratamento deve ser vistoriado pelos familiares desde o primeiro dia. Por último, o indivíduo vai fazer acompanhamento anual. A dependência é uma doença crônica incurável, que faz o paciente frequentar o tratamento pelo resto da vida”. (Isabel Costa)
Números
·         55% consomem o crack diariamente (uns dias mais, uns dias menos)
·         9,2% dos entrevistados disseram ter feito uso anterior de drogas injetáveis
·         70% compartilham apetrechos utilizados para o consumo da droga
·         7,8% disseram ter sofrido episódio de intoxicação aguda nos 30 dias anteriores à pesquisa

Em 2011, a Fiocruz já havia divulgado levantamento preliminar sobre as cenas de uso do crack nas capitais. Na época, segundo matéria do O POVO, foram identificados 300 pontos de uso na capital e região metropolitana.
A pesquisa mostrou que em algumas cenas de uso das capitais brasileiras podem circular até 3.200 pedras por dia, ou mesmo, 3.200 pedras por turno, considerando que a circulação de usuários se renove por turno. Os pontos de maior porte chegam a ter 200 usuários habituais.
Mais de 70% dos usuários disseram compartilhar os apetrechos utilizados para o uso (cachimbo, lata, copo), o que pode estar associado à transmissão de infecções, especialmente as hepatites virais.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Participação no Seminário Internação Compulsória: rediscutindo o SIM e o NÃO




O SindSaúde-SP realizou no dia 26/08, no auditório Franco Montoro da ALESP o Seminário Internação Compulsória: rediscutindo o SIM e o NÃO.

No dia 11 de janeiro de 2013, o governo do estado de São Paulo anunciou medidas para tirar das manchetes da imprensa a cracolândia paulistana. Passados seis meses, muita polêmica entre especialistas de diversas áreas e na sociedade em geral, o SindSaúde-SP retoma a discussão para avaliar os resultados e as consequências das medidas do governo estadual.

O presidente Gervásio Foganholi e a secretária de Saúde do Trabalhador Roseli Ilídio do SindSaúde-SP coordenaram o seminário. 

O presidente abriu o debate destacando que, antes de ser um tema jurídico ou médico, a dependência química de crack e outras drogas similares é uma questão social. A internação pode ser uma das etapas de um tratamento médico, porém sem políticas públicas sociais que ofereçam condições de vida aos dependentes e seus familiares a internação compulsória é mais uma medida vazia.

A secretária de Saúde do Trabalhador foi objetiva. A internação compulsória é uma política de higienização. Não foi pautado no controle social, não foi debatido com a sociedade. Não foram criados leitos para esses casos, retirando leitos dos SUS. Não foram contratados profissionais especializados, sobrecarregando os profissionais existentes, sem condições de trabalho e segurança.

O único hospital que está preparado para a internação compulsória é o PINEL, porém não possui infraestrutura para receber mais pacientes. Em todo o estado, por determinação do governo, foram reservados 25% dos leitos existentes do SUS para os encaminhamentos do CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas). Como não houve aumento de leitos no estado, as internações locais e regiões ficaram prejudicadas.

O promotor Eduardo Ferreira Valério, do Ministério Público do Estado de São Paulo, abordou os aspectos jurídicos e legais que envolvem a dependência química e a internação compulsória. Destacou que de janeiro até agora houve somente um caso de internação compulsória. O plantão no Cratod, com juízes, promotores, advogados e assistentes, é uma medida desnecessária, custosa e atrapalha o trabalho da equipe de especialistas da saúde da unidade.

Quanto ao outro programa do governo do estado, lançado em maio, no valor de R$ 1.350,00 por dependente químico, o promotor destacou três problemas. O dinheiro é repassado aos municípios que por sua vez repassa a comunidades terapêuticas que correm o risco de se tornar uma instituição asilar. Citou o relatório do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo com sérias denúncias. Além disso, não há informações sobre o número de comunidades existentes, a localização dessas unidades, o processo de repasse da verba e o controle social sobre o uso da verba.

A professora Ana Cecília Marques, psiquiatra e pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia e Ciência para Políticas sobre Álcool e Drogas, falou da necessidade de se garantir uma política de drogas moderna, levando-se em conta as experiências de outros países. Ela destacou que participou de diversos fóruns em todo o país para elaboração de um relatório sobre drogas e uma política nacional anti-drogas não saiu da gaveta até o momento.

O desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, relatou experiências pessoais na militância para recuperar jovens dependentes. É contrário a internação como meta. Vê a medida como uma exceção, pois é “o abandono do estado e o vazio na alma que levam às drogas”. O tratamento é somente um P. S. Faltam políticas mais amplas. Se faltam políticas públicas de educação e saúde, por exemplo, qualquer P. S. não resolve. 

O deputado estadual Adriano Diogo (PT) também participou do seminário falando sobre o livro Holocausto Brasileiro da jornalista Daniela Arbex que relata os horrores praticados no hospital psiquiátrico de Barbacena em Juiz de Fora (MG). 

No debate, trabalhadores de diversos hospitais e unidades diretamente afetados pela internação compulsória apontaram os problemas decorrentes dessa internação compulsória, como as dificuldades para a “desinternação”, o choque entre diagnóstico médico e decisão judicial, a falta de leitos para outros casos de internação psiquiátrica, entre outros. 

Após o debate e com o aval dos presentes, o presidente do SindSaúde-SP resumiu os encaminhamentos da atividade: formação de uma comissão de trabalhadores que atuam na internação compulsória para elaboração de um relatório e o aprofundamento do debate em outro seminário, envolvendo mais entidades do controle social e incluindo o tema maioridade penal, que tem relação direta com a internação compulsória

sexta-feira, 17 de maio de 2013

SP pagará tratamento a usuários de crack: dependentes receberão R$ 1,3 mil para gastar com reabilitação


O governo de São Paulo lançará oficialmente hoje um programa pelo qual usuários de crack vão receber uma bolsa de R$ 1.350 por mês para custear despesas com unidades de reabilitação e acolhimento social, e evitar recaídas. O programa, que é visto com algumas ressalvas por especialistas, é anunciado ao mesmo tempo em que o atendimento a dependentes de drogas no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas, do governo estadual, ainda esbarra em dificuldades, segundo juízes. Pelo programa Recomeço, cada dependente químico maior de 18 anos receberá um cartão que só poderá ser usado para pagar tratamento em comunidades terapêuticas, onde poderão morar e se tratar por até seis meses.

Inicialmente, o projeto vai beneficiar três mil dependentes químicos que já tenham passado por atendimento psiquiátrico anterior. Caberá às prefeituras indicar os nomes dos dependentes que receberão o cartão, pois são os municípios que gerenciam os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, onde os viciados recebem atendimento ambulatorial. O projeto chegará primeiro a 11 cidades do interior. — Não tem médico, tem assistente social e pessoas que ministram oficinas para ajudar a inserir a pessoa na sociedade e no mercado de trabalho. Médico, ele verá na rede de saúde pública e no Caps.

O cartão agilizará o avanço do atendimento para o interior — explica o secretário de Desenvolvimento Social, Rodrigo Garcia. A iniciativa é inspirada num projeto similar feito pelo governo de Minas Gerais, onde a bolsa é de cerca de R$ 900. A professora de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecília Marques disse que, numa situação em que pouco se faz para resolver o problema do crack no país, a iniciativa é positiva. Mas ela acredita que o governo deveria exigir que houvesse um médico dentro das comunidades terapêuticas credenciadas. — Precisa de médico para fazer avaliação da síndrome de abstinência, que é um quadro grave e tem que ser tratado por um médico — afirma Cecília.


terça-feira, 19 de março de 2013

Alcoolismo atinge cerca de 5,8 milhões de pessoas no país


São Paulo - Histórico de consumo abusivo de álcool, síndrome de abstinência e manutenção do uso, mesmo com problemas físicos e sociais relacionados, é o tripé que caracteriza a dependência em álcool, segundo a psiquiatra Ana Cecília Marques, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O tratamento da doença, que atinge cerca de 5,8 milhões de pessoas no país, segundo o Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, de 2005, não é fácil: dura pelo menos um ano e meio em sua fase mais intensiva e tem índice de recaída de cerca de 50% nos primeiros 12 meses.
"Ele precisa preencher os três critérios. Um só não basta para se considerar dependente", destaca a psiquiatra. Ela explica que o consumo contínuo e abusivo leva a uma tolerância cada vez maior do usuário à bebida. "O corpo acostuma-se com o [álcool]. Ele resiste mais e, para obter o efeito que tinha no começo com uma lata de cerveja, precisará tomar cinco". A falta do álcool provoca uma série de sintomas graves, como elevação da pressão arterial, tremores, enjoo, vômito e, em alguns pacientes, até mesmo convulsão. Esse é o quadro da síndrome de abstinência.
O terceiro critério para caracterização da dependência alcoólica está ligado aos problemas de relacionamento e de saúde provocados pelo consumo abusivo. "O indivíduo tem problemas no trabalho por causa da bebida. Ele perde o dia de trabalho mas, mesmo assim, bebe de novo". A professora destaca que, além da questão profissional, devem ser considerados diversos aspectos da vida do paciente, como problemas familiares, afetivos, econômicos, entre outros.
Em relação às outras drogas, a psiquiatra informou que o tratamento da dependência de álcool se diferencia principalmente na primeira fase, que dura em média dois meses. "Cada substância tem uma forma de atuar no cérebro, portanto, vai exigir, principalmente na primeira fase do tratamento, diferentes procedimentos farmacológicos para que a gente consiga promover a estabilização do paciente", explica.
De acordo com a médica, o álcool se enquadra na categoria de substâncias psicotrópicas depressoras, juntamente com os inalantes, o clorofórmio, o éter e os calmantes. Há também as drogas estimulantes, como a cocaína, a cafeína e a nicotina, e as perturbadoras do sistema nervoso central, como a maconha e o LSD.
"Na segunda e terceira fases, o tratamento entra em uma etapa mais semelhante, que é quando você vai se aprofundar no diagnóstico e preparar o individuo para não ter recaída", acrescenta.
A segunda fase do tratamento, a chamada estabilização, quando se trabalha a prevenção da recaída, dura, em média, de oito a dez meses. Nessa etapa, são percebidas e tratadas as doenças correlatas adquiridas pelo consumo do álcool e, então, o paciente é preparado para readquirir o controle sobre droga. "A dependência é a doença da perda do controle sobre o consumo de determinada substância. [É feito um trabalho] para que ele volte a se controlar, a entender esse processo e readquirir a autonomia. Não é mais a droga que manda nele".
A psiquiatra destaca que, nesse processo, a recaída é entendida como algo normal e que não invalida o tratamento. "Ele pode ter uma recaída e não é que o tratamento não esteja no caminho certo ou que ele não queira se tratar. Faz parte da doença, é um episódio de agudização dessa doença crônica que é a dependência do álcool. Faz parte recair", esclarece.
Na terceira etapa, que dura cerca de seis meses, ocorre o "desmame da tutela do tratamento". "Ele está manejando essa nova autonomia. Ele volta para as avaliações com menos frequência". Por fim, o paciente passa a ir ao médico com maiores intervalos entre as consultas. "Ele segue em tratamento como qualquer indivíduo que tem doença crônica. Pelo menos uma vez por ano, ele passa pelo médico. A bem da verdade, [no tratamento dessas] doenças crônicas, a gente não dá alta".
Levantamento feito em 2005 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Unifesp, e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), mostra que o uso do álcool prevalece entre os homens em todas as faixas etárias. Mais de 80% deles declararam fazer uso de álcool. Entre as mulheres, o percentual cai para 68,3%.
No que diz respeito à dependência, eles também estão na frente. O índice de dependentes do sexo masculino (19,5%) é quase três vezes o do sexo feminino (6,9%). A faixa etária de 18 a 24 anos, por sua vez, apresenta os maiores índices, com 27,4% de dependentes entre os homens e 12,1% entre as mulheres.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Empresas investem no combate à dependência química



Um operador de máquinas da Goodyear começou a cheirar cola aos 13 anos. Pouco tempo depois conheceu a maconha e, aos 28 anos, virou usuário de cocaína. Exaurido pelos problemas causados pela dependência química, ele decidiu mudar o estilo de vida. E foi na empresa que encontrou o apoio necessário para dar fim ao vício. A ajuda partiu de um programa de combate à dependência química, o Prosa G, implantado na fábrica da Goodyear em Americana (SP). Como o operador de máquinas, quem decide participar do projeto, que tem duração de dois anos, recebe acompanhamento médico e psicológico.

Durante o primeiro ano, o apoio é estendido aos familiares e a etapa final do tratamento incluiu 30 dias de internação em uma clínica especializada, além de todo suporte posterior.

Outro funcionário da Goodyear, da área de construção de pneus, abandonou a dependência ao álcool, engrossando a lista dos quase 60 colaboradores que o programa já reabilitou desde sua implementação, em 2005. Ele conta que já conhecia o programa por meio das palestras na empresa, mas só aceitou a ajuda quando percebeu que a dependência afetava sua rotina, inclusive durante o expediente. “Eu deixei de ser responsável, não tinha compromisso com o trabalho, não cumpria todas as normas e tinha deixado até de usar alguns equipamentos de segurança”, afirma. Hoje, aos 37 anos, não sente saudade da vida que levava anteriormente.

Para o gerente de Recursos Humanos da Goodyear de Americana, José Carlos Marzochi, o segredo da eficiência no combate ao abuso do álcool e entorpecentes no ambiente de trabalho é um programa voltado tanto para os interesses da companhia quanto dos colaborares e de seus familiares. “O assunto exige atenção especial das áreas de Medicina do Trabalho, Assistência Social e RH das organizações que buscam melhoria contínua”, diz Marzochi. Ele lembra que o consumo de drogas está diretamente relacionado a acidentes de trabalho, queda de produtividade, absenteísmo e deterioração das relações sociais e familiares. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 71% dos usuários de drogas ilícitas em todo mundo estão empregados e fazem parte do mercado de trabalho. Os profissionais ouvidos pela reportagem destacam que, se não fosse o apoio recebido da empresa, não teriam abandonado o vício. “Voltei a sonhar”, ressalta o operador de máquinas, que se diz ainda mais feliz por ter estabelecido um elo mais forte com a filha.

Redução do fumo

Já o programa antitabagismo da ArcelorMittal, em Tubarão (SC), conseguiu reduzir de 34% para zero o número de fumantes entre seus 4,8 mil colaboradores. Desde o início, em 1993, a produtora de aço contabilizou uma economia de R$ 30 milhões com despesas médicas. Aberta para os contratados e também para os terceirizados, a iniciativa espera, além do benefício financeiro, contribuir para que nenhum desses profissionais tenha futuramente uma das 53 doenças a que estão mais expostos os dependentes do cigarro.

O programa surgiu após a realização de uma pesquisa, em 1992, que mapeou o número de fumantes, há quanto tempo fumavam e qual o interesse em parar com o vício. O tratamento inclui a formação de grupos de apoio, palestras educativas, acompanhamento médico e uso de medicamentos, exames periódicos e implantação de áreas restritas para o fumo.

Segundo o gerente de Saúde e Medicina da ArcelorMittal, Fernando Ronchi, a primeira turma contou com 20 empregados que aderiram imediatamente. O programa foi ganhando força na medida em que os resultados eram percebidos pelos colegas. “O tratamento é realizado em grupo, em que cada empregado conta suas experiências, aflições e constrangimentos, além de refletir sobre a importância de parar de fumar”, afirma Ronchi. Quem precisa de suporte medicamentoso conta com uma equipe multidisciplinar que garante todas as orientações e suporte. “As reuniões acontecem a cada quatro semanas, durante seis meses”, acrescenta o gerente, complementando que o controle passa a ser feito posteriormente por meio dos exames periódicos.

Um programa antitabagista também faz parte da política da Dow Brasil. A iniciativa visa melhorar a qualidade de vida dos profissionais e já resultou em redução considerável do percentual de tabagistas na empresa. No início do projeto, em 1995, 24% dos colaboradores eram fumantes; em 2012, apenas 5% deles fumavam. Lucio Ribeiro, coordenador dos Serviços de Saúde da companhia, explica que quem adere à iniciativa tem, além de toda a estrutura de apoio, subsídio de 80% na compra dos medicamentos necessários para abandonar o vício. “Acreditamos que os investimentos em iniciativas como essa são ínfimos comparados ao retorno”, diz ele, referindo-se aos benefícios tanto para a empresa quanto para o colaborador.

Apesar dos resultados satisfatórios, as empresas que dão suporte aos dependentes ou que têm projetos nesse sentido são exceções no Brasil, segundo a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecilia Roselli Marques. Preocupada com as consequências do trabalho sob efeito de substâncias químicas, Ana é favorável a políticas empresariais sobre drogas e a adoção de testes toxicológicos obrigatórios no ambiente de trabalho, principalmente em atividades que colocam a vida de outras pessoas em risco, como operadores de máquinas. Uma ideia da gravidade são os dados do Ministério da Saúde, que registram que o álcool é responsável por 50% do absenteísmo – terceira causa de faltas ao trabalho – e licenças médicas – três vezes mais que outras doenças. O abuso de álcool também reduz em até 67% a capacidade produtiva do funcionário e é responsável por cerca de 25% dos acidentes de trabalho. “As empresas precisam encarar a dependência química de frente, como uma doença e sem preconceitos”, afirma Ana Cecilia.

No Brasil, exceto a Lei 12.619/12 – que obriga o motorista profissional a submeter-se a exames toxicológicos – não existe nenhuma previsão legal para a realização desses testes por parte do empregador, explica Giancarlo Borba, advogado especializado em direito trabalhista. Livre para decidir se deve ou não submeter a equipe ao procedimento, Borba alerta para outros detalhes. “É importantíssimo que seja esclarecido que o exame será feito por profissionais especializados, usando métodos confiáveis e que o resultado permanecerá em total sigilo”, afirma ele, que completa: “Além disso, deve se deixar claro que o resultado admite contraprova”.