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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Como deve ser o tratamento de saúde para dependentes do crack?

"O ideal seria que o tratamento começasse no ambulatório. O paciente chega à atenção primária, na Unidade Básica de Saúde, e o médico generalista detecta que ele está tendo problemas com álcool, tabaco e outras drogas, e então encaminha para o ambulatório especializado; mas isso não acontece", afirma a psiquiatra Ana Cecília Petta Marques.

Confira a matéria completa:

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estadão Notícias: Programa ouve especialistas sobre ações na Cracolândia

Edição desta segunda-feira, 29, se debruça sobre o grave problema da Cracolândia em SP. Os governos estadual e municipal promoveram ações policiais ostensivas para acabar com a feira de drogas na região central da cidade. A questão que se impõe a partir de agora é tão urgente quanto tentar prender os traficantes: o que fazer com os mais de mil usuários que vagam por ali? Nós conversamos com defensor público Rodrigo Lessa, a psiquiatra Ana Cecilia Marques e  autor da reportagem especial sobre o tema publicada ontem no Estado, Alexandre Hisayasu.

Ouça a entrevista completa

Justiça de São Paulo autoriza busca e apreensão de dependentes químicos.

 Internação compulsória terá que ser autorizada por um juiz caso a caso. Após ação da polícia na Cracolância, usuários foram para praça.
A Justiça autorizou a busca e apreensão de dependentes químicos na região da Cracolândia, em São Paulo, mas neste sábado (27) só foi atendido quem procurou ajuda por vontade própria.
Os técnicos passaram o dia refazendo a fiação elétrica e religando o sistema de telefones que não funcionavam na antiga Cracolândia. Já em torno do novo endereço do crack, a maioria das lojas não abriu.
Quem trabalha ou mora ao redor da Praça Princesa Isabel ficou com medo da situação. Em cinco dias de ocupação, os usuários montaram barracas de lona. E, no meio de muito lixo, eles passam o dia consumindo drogas.
A abordagem dos assistentes sociais e das equipes médicas aos dependentes químicos ainda não mudou. Durante o dia eles foram ao meio da praça e só voltavam com alguém quando a pessoa queria atendimento por vontade própria. 
Na quarta-feira (24), a prefeitura pediu a autorização para fazer internações compulsórias, ou seja, contra a vontade do dependente químico. 
Na quinta (25), a Justiça autorizou que equipes médicas, com a ajuda da Guarda Civil Metropolitana, façam a busca e apreensão de pessoas, maiores de 18 anos.
Depois de exames médicos e psiquiátricos, a internação compulsória ainda terá que ser autorizada por um juiz caso a caso. A medida vale a partir deste sábado (27) e tem duração de 30 dias.
“O paciente que estiver fora de si, ou com uma crise grave de agressividade contra ele próprio ou ao redor, esse vai ser motivo de uma abordagem”, explicou o secretário municipal de Saúde, Wilson Pollara.
O Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana teme que haja abusos.
“O que nós tememos é uma verdadeira caçada humana. Não há como se fazer buscas e apreensões por parte de agentes de saúde e sociais em conjunto com a polícia ou com a Guarda Civil Metropolitana”, disse o conselheiro Ariel de Castro Alves.
A psiquiatra Ana Cecília Marques da Universidade Federal de São Paulo defende a internação compulsória.
“Eu acho que ela serve para poucos indivíduos, mas ela pode ajudar esse indivíduo em particular, são indivíduos que têm muita vulnerabilidade, então, onde o estado perdeu a mão, o indivíduo não adere ao tratamento”, afirmou a psiquiatra Ana Cecília.
Sem o crack tão perto, a vida muda. Quem mora nas ruas onde funcionava a Cracolândia agora se senta na porta de casa.
“Mudou muita coisa, o dia a dia, as crianças agora podem brincar sossegadas e a gente fica mais tranquila”, diz Jaqueline Rodrigues, moradora da região.
Ver crianças brincando, voltando da escolinha pela calçada eram coisas simples que por anos não se via por aqui.

domingo, 28 de maio de 2017

Participação no Bom Dia Brasil - 26/05 - Cracolândia

Ação na Cracolândia foi ‘desastrosa’, avaliam especialistas

O professor de antropologia da Fespsp Paulo Niccoli Ramirez e a psiquiatra Ana Cecília Marques analisam a operação feita na Cracolândia, em São Paulo, no começo desta semana, pelo governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria.

Megaoperação Policial na região da Cracolândia prende traficantes

Confira minha participação na TV Brasil

Prefeitura confirmou apreensão de mais de 12 quilos de crack

http://tvbrasil.ebc.com.br/reporter-sao-paulo/2017/05/megaoperacao-policial-na-regiao-da-cracolandia-prende-traficantes

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

SEM AÇÕES INTEGRADAS, COMBATE AO CRACK FALHA

Nas praças, debaixo de viadutos ou em cantos das sete cidades, é comum ver pessoas em situação de rua consumindo crack. O cenário, cada vez mais preocupante, evidencia políticas públicas pouco efetivas voltadas à recuperação desse grupo.

Embora relatório divulgado nesta semana pela OSF (Open Society Foundations) mostre que projetos como o programa De Braços Abertos, da Capital, e exemplos semelhantes no Rio de Janeiro e em Pernambuco, – que não exigem abstinência dos usuários de drogas como pré-condição para serem incluídos nos programas de assistência e oferecem moradia, treinamento e oportunidade de retorno ao mercado de trabalho –, sejam o caminho tido como eficaz para a reinserção dos usuários na sociedade, nenhuma das sete cidades mantém ações estruturadas do tipo ou manifestaram que planejam avançar no tema.

Basicamente, na região, o assunto é tratado de forma isolada pelas equipes de Saúde mental via rede de atenção psicossocial. Com exceção de Santo André, nenhuma administração destacou ter o problema mapeado.

Para o integrante do Movimento Nacional de Direitos Humanos Ariel de Castro Alves, falta integração da área de Saúde pública com os setores de Educação, Habitação, trabalho e assistência social. “Os programas, para terem êxito, precisam ser multidisciplinares e intersetoriais”, fala.

A psiquiatra da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e coordenadora da comissão de dependência química da Associação Brasileira de Psiquiatria, Ana Cecília Petta Marques, compartilha do argumento. “Medidas restritas a uma parte só da política pública não funcionam. Elas precisam ser articuladas.”

Para o psiquiatra e diretor do Inpad (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas) Ronaldo Laranjeira, falta combate à proliferação do tráfico nas ruas. “Se o setor de Segurança não tiver estratégia, vamos continuar tendo cracolândias.”

COMO FUNCIONA

Em Santo André, onde o número de dependentes em situação de rua varia entre 100 e 125 pessoas, a Prefeitura diz que projeto em fase de elaboração visa dar oportunidade de emprego, já que muitas vezes a pessoa é retirada da rua e, se não tem encaminhamento, volta para o lugar de uso.

Ribeirão Pires, que atende na rede de Saúde 560 pacientes usuários de crack, ressalta que dispõe de oficinas geradoras de renda, para estimulá-los a desenvolver o autossustento.
Mauá diz que não atua com a classificação sobre qual tipo de droga levou o paciente ao tratamento e contabiliza 1.564 pacientes atendidos no Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).

As demais cidades não informaram suas ações.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Palestra sobre prevenção às drogas

24/06 – Sexta-feira 10h
Palestra sobre prevenção às drogas, na Câmera Municipal de Sertanópolis.
Ana Cecília




sexta-feira, 11 de março de 2016

Dependência química ainda é desafio: História de casal de usuários de crack, em Santos, aponta uma das lacunas deste problema: eles não conseguem atendimento integral

O polegar e o indicador da mão esquerda amarelados revelam a dependência de Roberto, nome fictício que será usado nesta reportagem para preservar a identidade do usuário de crack. Ele tem 36 anos e vive há mais de dez nas ruas de Santos. Ele e sua companheira, que também é moradora de rua e usa a mesma droga, saíam da Seção Núcleo de Atenção ao Toxicodependente (Senat), na Encruzilhada, quando relataram sua rotina a A Tribuna: há alguns meses o casal vai à unidade para se tratar contra o vício. Apesar do aparente esforço, Roberto diz que os dois não conseguem se manter limpos aos fins de semana, quando o Senat está fechado. “Sábado e domingo a gente guarda carro e usa o dinheiro (que ganha) para comprar crack”. O Senat também não funciona à noite, quando Roberto e a companheira voltam para a marquise na esquina das ruas Silva Jardim com a Xavier Pinheiro. A presidente do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas (Comad), Maria Tereza Spagna Louzano, reconhece que o atendimento ao dependente químico em Santos precisa melhorar. Diz que a entidade tem trabalhado em conjunto com a Prefeitura. Ela acredita que casos como o de Roberto serão mais assistidos com a inauguração do Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps AD) na Zona Noroeste. “Ele (Caps AD) já está pronto, mas a Prefeitura informou que por problema de Recursos Humanos ainda não inaugurou. A expectativa é que isso aconteça até julho”.

AVANÇAR
A psiquiatra e professora da Unifesp, Ana Cecília Marques, afirma que os modelos de tratamento aos dependentes químicos em todo o País precisam avançar. De acordo com ela, há a necessidade de uma ação conjunta, que comece na Atenção Básica de Saúde. “Temos que evitar que esses dependentes de álcool e drogas cheguem na rua, porque quem está na rua, está no fim da linha”, diz ela, que também é coordenadora do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).

ATENÇÃO BÁSICA
Para ela, o primeiro passo é identificar a dependência química ainda na Atenção Básica
de Saúde. “Na hora que o paciente entra na unidade de Saúde, do mesmo jeito que ele mede a pressão, é só perguntar se ele fuma, bebe, ou usa droga”. Segundo Ana, esse é um procedimento ignorado em todo o Brasil, até pelos agentes comunitários de Saúde, em cuja ficha de trabalho há um espaço para preencher essa informação. Detectar a dependência precocemente, significa impedir que ela evolua. Para saber os resultados dessas medidas, Ana integra um grupo de pesquisa da Unifesp, que há dez anos adotou a prática em Tarumã, cidade com 12 mil habitantes no Centro Oeste do Estado. Agora o projeto entra na etapa de avaliar resultados.

IMEDIATO
Ana Cecília acredita que esse cuidado na Atenção Básica produza resultados
a longo prazo. De imediato defende uma coalizão que envolva toda a comunidade e não deixe apenas nas mãos da escola o assunto. “A prevenção na família deve ser urgente. Tem que ser uma prevenção universal, cuidando do adolescente e da criança, dando o exemplo, mudando o comportamento”, finaliza.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cracolândia, o retorno

Apesar de, infelizmente, ainda não ser possível avaliar no momento, com critérios rigorosos e científicos se o programa de reinserção social De Braços Abertos --oferecido pela Prefeitura de São Paulo aos usuários de drogas que estão em situação de rua na cracolândia-- vem produzindo resultados positivos ou negativos, a grosso modo parece que nada adiantou.

Ao contrário, as evidências jornalísticas mostram que o número de usuários aumentou na região da cracolândia --localizada na Luz, próxima à Sala São Paulo, no coração do centro da cidade. Além disso, os usuários de drogas se espalharam para outras áreas, como a avenida Paulista, o que já era de se esperar com a aplicação de qualquer medida isolada.

Isso significa que a dependência de drogas é uma doença que se desenvolve no cérebro, muito complexa, e que precisa de várias etapas de intervenção.

São elas: desintoxicação, diagnóstico aprofundado da gravidade e de suas consequências, estabilização, prevenção de recaída, manutenção e seguimento. Ao longo do processo, cada caso recebe também a reinserção social.

Vale a pena ressaltar que desde o início das ações na cracolândia há pelo menos cinco anos, as expectativas sempre foram as melhores, mas sempre muito ingênuas.

Hoje, com o conhecimento disponível sobre o tema, como é possível imaginar que os indivíduos que lá estão, comprometidos física, mental e socialmente, podem ser reabilitados da dependência de drogas?

Como é possível imaginar que recuperar aqueles indivíduos que enfrentam a dependência do crack, uma doença que se desenvolve no cérebro, com repercussões profundamente deteriorantes e com diferentes consequências, sem tratamento, apenas por meio de trabalho e de uma moradia? Ou apenas com visitas aos centros de apoio?

A questão vai muito além. Para intervir em uma questão tão complexa, que coloca o usuário entre a vida e a morte a todo momento, pelos mais diversos motivos, que atinge a família e a toda a sociedade, é preciso adotar uma política de drogas humana, ecológica e ajustada a cada realidade.

É verdade que esse fenômeno ainda carece de estudos, ele não é de todo conhecido, mas os princípios para a elaboração de uma política baseada em boas práticas vem sendo discutidos no mundo.

A discussão mais importante hoje em dia é como entender de uma vez por todas qual o impacto das drogas e que esse impacto não será controlado por medidas simples e desconectadas.

É preciso uma política robusta, específica para cada droga e para cada contexto, e para o crack um capítulo especial àqueles que estão em situação de rua.

Política essa que significa um conjunto de medidas aplicadas ao mesmo tempo e na mesma direção.

A reinserção social é preciso, mas o tratamento e o controle da oferta de drogas são imprescindíveis.

Quando será que o governo irá assumir o seu papel de gestor e promover a coalizão das ações, implementando um método mais efetivo para o problema?

E quando será também que a sociedade brasileira vai entender que tem direito --humano-- às melhores práticas disponíveis e que deve lutar junto com o governo por um desfecho positivo para o problema das drogas?


Ou será que, contemplativa e depressivamente, assistiremos mais uma vez ao "retorno da cracolância"? Não. Existe esperança, existe ciência, e agora é a vez da política.

terça-feira, 18 de março de 2014

Cracolândia gera transtornos em São José


Ponto de consumo de crack, quarteirão de ruas tradicionais no centro de São José afeta o atendimento de unidade de reabilitação e casa que presta serviços a gestantes; funcionários viram reféns de usuários
Caroline Lopes

Funcionários da Unidade de Reabilitação Centro-Norte e da Casa da Gestante-Projeto Casulo, ambos subordinados à Prefeitura de São José dos Campos, contam que usuários de crack estão trazendo transtornos nos arredores das duas unidades, na rua Antônio Moraes Barros, no Centro. A Prefeitura de São José promete providências.
O VALE aponta, desde 2011, que se formou uma ilha de consumo de crack no quadrilátero formado pelas ruas Antonio de Morais Barros, Major Antonio Domingues, Coronel Madeira e Avenida Madre Tereza, no Centro. 

Relatos. Funcionários da Unidade de Reabilitação Centro-Norte contam que já tiveram vários problemas e conflitos com a presença dos dependentes. “Há seis meses um travesti pulou aqui para dentro da unidade e, de tão chapado, não conseguia saltar de volta. Tivemos que chamar a polícia”, conta uma das trabalhadoras da unidade. “Nos sentimos impotentes porque, em um ou dois meses, vemos pessoas sendo transformadas em verdadeiros farrapos humanos. Perdem os dentes, ganham aspecto de caveiras”, disse outra funcionária do mesmo local.

Agressivos. Segundo os funcionários, um grupo de usuários formado sempre pelas mesmas pessoas é tranquilo e não incomoda ninguém. Mas, ultimamente, o local está atraindo usuários diferentes daqueles já conhecidos.
“Tem aparecido novos usuários, que xingam, pedem dinheiro e vivem arrumando confusão. Há ainda brigas entre os dependentes. Eles brigam entre si, causam bastante confusão. É raro eles mexerem com os pacientes porque deixamos os portões fechados. Mas às vezes até isso acontece”, afirmou outro funcionário do local. Na unidade de reabilitação, afirmam os funcionários, a lixeira teve de ser trancada. “Porque eles estavam escondendo drogas lá dentro”.

Projeto Casulo. Não é muito diferente a situação na Casa da Gestante-Projeto Casulo. Eles abordaram funcionárias logo na entrada. A maioria usa a abordagem para pedir dinheiro. É preciso que os funcionários sejam firmes para que os usuários se afastem.
Uma funcionária contou que um casal com recém-nascido que deixava a unidade foi roubado na porta da centro há cerca de um mês.
“Não lembro o que levaram, mas ameaçaram o marido, dizendo que se ele falasse algo eles entrariam aqui”.
Em outra ocasião, diz a funcionária, um dos dependentes de crack entrou no banheiro da unidade. “Quando vimos, ele já tinha entrado e tomado banho aqui dentro”. 

Providências. A Secretaria de Saúde de São José informou que estuda uma forma de controlar o acesso aos dois serviços municipais, além de intensificar as rondas da Guarda Municipal nos arredores.
Uma reunião entre os secretários da Saúde, Paulo Roitberg, e da Defesa do Cidadão, José Luís Nunes, tratou do assunto. A prefeitura argumenta que mantém serviços de abordagem e de tratamento. Já a PM afirma que faz rondas rotineiras, mas não pode remover os usuários se eles não estão cometendo atos ilícitos. 


Crack é a última droga, revela pesquisa 

“O crack é a última das drogas na carreira de um usuário”. A frase é da presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Ana Cecília Marques. “Pesquisas feitas no Brasil revelam que quase ninguém começa no vicio pelo crack. A maioria dos usuários de crack, que nada mais é do que a cocaína fumada, antes, já era dependente de outras drogas, principalmente a cocaína inalada”. 

Danos. Os maiores prejuízos causados pelo crack ao organismo são de ordem cardíaca e respiratória. “Ele causa acidente vascular cerebral, infartos, embolias pulmonares, câncer e infecções”, diz a especialista. No entanto, é um mito dizer que o crack é a droga mais perigosa. “Vai depender do organismo. A droga libera no cérebro a dopamina, que pode ter efeito desinibidor, de auto-estimulação, de euforia, de desorganização mental. Cada indivíduo terá uma resposta”.

Números. Estudo da Abead no ano passado revela que 2% dos brasileiros entre 15 e 65 anos usam cocaína, dos quais menos de 1% é consumidor de crack. “O Brasil tem o maior mercado de cocaína de todo o mundo”, afirmou.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Secretaria da Justiça de SP emprega usuários da crack em tratamento: Se interromper o tratamento, perde a vaga. (Salário pago é de R$ 395)

O governo do estado decidiu que também vai pagar um salário para para dependentes químicos da cracolândia, no centro de São Paulo. Há cerca de um mês, a prefeitura de São Paulo lançou um programa assistencial, chamado Braços Abertos, com jornada diária de 4 horas e salário de R$ 330. No programa estadual, Recomeço, são 6 horas de trabalho a R$ 395 mensais. Das 40 vagas do governo paulista, 13 já foram preenchidas. Mas no programa estadual, os participantes devem, obrigatoriamente, receber tratamento médico.

Os primeiros participantes estão tirando cópias e organizando arquivos na Secretaria de Justiça. No Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) eles vão ajudar no acolhimento de quem procura tratamento. Eles trabalham de segunda-feira a quinta-feira. Na sexta, vão fazer cursos de qualificação profissional. O curso, no entanto, ainda não foi definido.
Eles ficarão no projeto durante nove meses. Segundo o secretário estadual do emprego, Tadeu Morais, “todo bolsista precisa receber uma ’alta’ médica, mas não pode interromper o tratamento. O trabalho faz parte do processo de recuperação”.

A iniciativa de conciliar a reabilitação das drogas com a jornada de trabalho é elogiada pela presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Petta Roselli Marques. Na avaliação dela, o exercício profissional, sem a oferta de tratamento, não ajuda na reabilitação do dependente químico. Segundo ela, apenas com o quadro de saúde estabilizado, o dependente químico terá condições de se dedicar a uma atividade profissional.

— O trabalho sem o tratamento não funciona. Eu atuo na área há 30 anos e observo que a dependência química tira a capacidade do individuo de trabalhar, de ter controle sobre sua própria vida. Ele, primeiro, precisa se tratar e, estabilizado, tem de trabalhar. O tratamento com trabalho faz diferença — afirmou. 

De 21 de janeiro de 2013 até 21 de janeiro deste ano, 3230 dependentes procuraram tratamento no Cratod. Desses, pelo menos 2,8 mil foram espontaneamente. Os outros foram levados pela família ou por medida compulsória.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Em oito anos, auxílio-doença pago a dependentes químicos aumentou 256%


A quantidade de auxílios-doença concedidos a dependentes químicos aumentou 256%, em oito anos. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), divulgados pelo jornal O Globo, o total de usuários que dependem do benefício passou de 7.296 para 26.040. Esse número apenas acompanha o crescimento de usuários de álcool e drogas, principalmente de cocaína e crack.

Em detalhes, a ajuda financeira concedida pelo INSS a dependentes de crack e merla cresceu 254% nos últimos oito anos. Em 2006 eram 2.434 e e no ano passado, 8.638. No caso de usuários de maconha e haxixe, o aumento foi de 275 para 337. Só em 2013 foram pagos 143.451 novos benefícios. E nestes oito anos, o número de pessoas que recebem este auxílios ultrapassou 1 milhão.

Só no ano passado o INSS pagou R$ 162,5 milhões em auxílio-doença para usuários de vários tipos de entorpecentes e álcool. Deste total, R$ 9,1 milhões foram apenas para dependentes de cocaína, crack e merla. O valor médio pago a esse público é de R$ 1.058. Mas, o benefício varia de R$ 724 a R$ 4.390,24. O valor é definido de acordo com o salário de contribuição do segurado.

Perdas no mercado de trabalho

O jornal O Globo ouviu a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead). A entidade lembrou que por causa do crescimento de usuários de cocaína e crack, o impacto no mercado de trabalho brasileiro era esperado. O Observatório do Crack, da Confederação Nacional de Municípios (CNM), comprova este problema. Em 98% dos Municípios do Brasil há registro do uso da droga.

Ainda segundo o O Globo, São Paulo é o Estado com maior número de auxílios-doença pagos: 42.649. Em seguida estão Minas Gerais, 20.411 benefícios; Rio Grande do Sul, 16.632; Santa Catarina, 14.176 e Paraná, 10.369. Na contramão, os Estados com menor quantidade de auxílios para usuários são de Alagoas, Roraima e Sergipe.

O auxílio-doença é pago a dependentes de álcool e drogas após uma perícia médica e apresentação de atestados. Exames que comprovem a dependência e a incapacidade para o trabalho também são exigidos. O tempo de recebimento do benefício é determinado pelo perito médico do INSS.

"Modelos repressivos fracassaram", diz psiquiatra sobre ação na Cracolândia

Como era esperado, os dependentes de crack inscritos na Operação Braços Abertos, iniciada nesta quinta-feira (16) na Cracolândia, em São Paulo, não deixaram de consumir a droga, como mostrou reportagem do Estado de S.Paulo. O programa, segundo a prefeitura, tem como objetivo devolver a dignidade dos usuários. Nenhum dos participantes é obrigado a se tratar para ganhar  R$ 15 por dia, hospedagem, refeições e assistência médica em troca das quatro horas de varreção diárias.

"É uma proposta de reinserção social, não de tratamento", enfatiza o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação, Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e consultor técnico da área de saúde mental, álcool e drogas da Secretaria da Saúde de São Paulo. "É uma construção", mencionou a secretária municipal de Assistência Social, Luciana Temer, na reportagem

Redução de danos
Para o especialista da Unifesp, referência em redução de danos no país, a medida é reflexo da conclusão de que "os modelos mais repressivos e coercitivos fracassaram no mundo inteiro" no que se refere às drogas. Na opinião do médico, tirar o usuário de seu ambiente para tratá-lo não funciona a longo prazo, mesmo quando há recursos financeiros, porque a droga "não é causa, é consequência". Para ele, ficar 'limpo' quando se está em uma clínica é uma situação fácil. "Mas quando a pessoa volta para a sua vida e seus problemas, ela recai", diz.

Silveira acredita no tratamento ambulatorial, como o oferecido nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Álcool e Drogas hoje no país. "Mas para o crack faltava outras coisas. Não dá para tratar uma pessoa que está há três dias sem comer", explica.
Ele lembra que a taxa de sucesso para quem inicia tratamento contra drogas é de apenas 35% em qualquer parte do mundo. "Essa pessoa tem que ser isolada da sociedade?", pergunta, referindo-se aos 65% restantes. "É aí que entra a redução de danos: ela pode adquirir formas de consumo que sejam o mais compatível possível com uma vida normal", considera o psiquiatra, que cita a enorme quantidade de pessoas que trabalham o dia todo e se drogam quando chegam em casa, sem causar comoção à sociedade. 

Tentação do dinheiro

Fabian Nacer, que já foi dependente de heroína, de crack, e chegou a morar na Cracolândia por seis anos, acha que a ação da prefeitura "é uma grande furada" e não vai dar em nada. Na contramão do que defende o psiquiatra da Unifesp, ele é enfático sobre a primeira providência que deveria ser tomada em relação à região: afastar os usuários daquele ambiente. 

Nacer está há anos sem consumir droga. Fez faculdade, especializou-se em dependência química e hoje faz palestras sobre o tema em escolas e outras instituições. "Até hoje sou chamado para fazer trabalhos na Cracolândia e eu não vou", enfatiza. Ele também levanta outra questão: "Uma nota de dez reais parece um demônio [para quem está em tratamento]. O cara precisa ficar longe de dinheiro, às vezes até por dois anos", recomenda o ex-usuário.

A observação de Nacer faz mais sentido depois que se ouve como é a rotina dos habitantes da Cracolândia: "Eu dormia na rua e, ao acordar, ia direto para o farol. Eu tinha no máximo 40 minutos para conseguir dez reais, senão começava a passar mal, a perna tremia, me dava vontade de vomitar e eu chegava até a ficar agressivo". Vencida a primeira fissura, todo o resto do dia se resumia a conseguir mais dinheiro para consumir mais pedras.

 "Estão querendo dizer que, se a pessoa tiver dignidade, ela vai ter gosto pela vida e vai querer se tratar - eu não sei de onde eles tiraram isso". Na opinião dele, todos esses conceitos estão muito distantes quando se tem uma necessidade física para suprir, ainda que para os assistentes sociais o usuário chore e jure que quer largar aquela vida

Nacer sugere que a operação nada mais é do que um acordo com os usuários para "deixar a rua limpa", mencionando a minifavela que foi desmontada no local. "Você sai de lá, varre um pouco e eu te dou dinheiro", ironiza. Ele acredita que no início alguns usuários até vão cumprir a jornada para receber o salário e comprar mais droga, mas acha que, aos poucos, eles devem deixar de aderir.

Doença do cérebro
A psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), também acredita que a operação "é dinheiro público mal aplicado", e que não adianta reinserir o usuário socialmente se não houver tratamento primeiro.
Ela acha que até pode haver boa intenção na iniciativa, apesar de mencionar a proximidade com a Copa do Mundo, mas pensa que há um profundo desconhecimento sobre o crack por trás da ação. 

"A dependência é uma doença do cérebro, que abole a capacidade da pessoa de resolver os problemas do dia a dia", diz. "Em casos leves, até é possível conciliar reinserção social com tratamento, mas em casos graves é preciso tirar a pessoa daquele ambiente", declara.

Para concluir o assunto, a médica faz uma observação: "Quando um paciente está muito doente, a gente dá uma licença-saúde para ele se tratar. Eles estão fazendo o contrário: estão mandando pessoas doentes trabalhar".

Prefeitura de SP começa a remover barracos erguidos na Cracolândia

Poder público tenta, novamente, retirar os moradores da região.  Trezentas pessoas serão encaminhadas para hotéis.


A Prefeitura de São Paulo está retirando os moradores que ocuparam a região conhecida como Cracolândia. Trezentas pessoas serão encaminhadas para pequenos hotéis e vão ter alimentação, trabalho e estudo, para, aos poucos, saírem das drogas.

Para a retirada, há pessoas para limpar o local, para vigiar, para orientar e para cuidar. Com todo esse pessoal, o poder público tenta, de novo, agir na região e retirar as pessoas de barracas montadas nas ruas. 

O crack fez essas pessoas se submeterem a condições absolutamente desumanas de vida em barracas, onde colchão, roupas, lixo, restos de comida e objetos catados na rua se misturam. Há também muita mosca e coisas molhadas por causa da chuva. 

“Das outras vezes, nós éramos tratados todos como marginais, criminosos. Hoje, somos doentes precisando de uma oportunidade”, diz uma das moradoras do local.
Os funcionários da Prefeitura vão desmontando os barracos e acumulando pedaços de madeira, papelão, telha, toda a estrutura que formava esses barracos. Os moradores só puderam retirar os objetos pessoais, como roupas. 

Os moradores estão indo para hotéis pagos pela Prefeitura, onde vão ter alimentação, cursos de qualificação e um pequeno salário para trabalhar em varrição de praças. “Nós temos que ter o tempo dessas pessoas. Se ela quiser se libertar, liberar ou deixar de consumir a droga, acho isso muito louvável, e esse é o caminho que indicamos. Agora, se ela tiver uma condição que ela pode continuar trabalhando e ir se desligando aos poucos da droga, também é um caminho que aceitamos”, explica o secretário de Saúde de São Paulo, José de Filippi Júnior. 

“Eu acho que é uma medida ingênua, bem intencionada, mas infelizmente, boas intenções não funcionam em uma situação tão grave como essa. Então, eu não vejo muita coerência de você promover a reinserção antes de fazer o tratamento”, opina a psiquiatra Ana Cecília Marques, professora da Unifesp. 

Uma das mulheres que estava morando nas ruas e agora está no hotel fala, sem se identificar, sobre o que quer para o futuro: “Primeiramente, eu preciso muito de um lar e recuperar meu filho. Eu preciso sair para ter ele de volta. É a coisa mais importante do mundo”. 



São Paulo irá oferecer 400 vagas de trabalho para usuários de drogas

Voluntário terá 3 refeições e R$ 15 por dia, além de hospedagem em hotel. Tratamento médico será obrigatório para os interessados.

A Prefeitura de São Paulo anunciou que vai oferecer trabalho e moradia para o usuário de droga da Cracolândia que passar por tratamento médico. As vagas que a Prefeitura vai oferecer aos dependentes químicos são em serviços de zeladoria, como limpeza da cidade e recolhimento de materiais recicláveis.

Quem entrar no programa vai ter que trabalhar quatro horas por dia e passar duas horas em programas de requalificação profissional. Serão oferecidas 400 vagas. Em troca, a Prefeitura oferece três refeições diárias, hospedagem em hotéis da região, R$ 15 por dia, com pagamento semanal, tudo acompanhado de tratamento médico obrigatório.

O secretário municipal de Segurança Urbana Roberto Porto acredita que o programa vai dar certo porque partiu de sugestões dos próprios usuários. “Eles propuseram em reuniões com o prefeito, que foram mantidas por diversas semanas, eles é que apontaram as necessidades para se poder fazer um tratamento maior, algo que partiu de uma necessidade deles mesmos”, declarou o secretário.

Segundo a Prefeitura, a ideia é mudar um pouco a lógica normalmente aplicada nesse tipo de programa, que é de primeiro tratar o doente do ponto de vista médico e só depois promover a reintegração na sociedade, oferecendo emprego e moradia.

Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), disse que desconhece uma experiência semelhante citada pela Prefeitura que teria tido êxito na Holanda e duvida dos resultados em São Paulo. "A reinserção sem cumprir as etapas recomendadas do tratamento é como se eu começasse ao contrário. Eu aplicaria os recursos público seguindo os princípios recomendados do melhor tratamento para os pacientes", disse.


O secretário de Segurança Urbana disse ainda que os barracos que estão na Cracolândia vão ser desmontados pelos próprios usuários de droga depois de receber a ajuda da Prefeitura.

Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/01/sao-paulo-ira-oferecer-400-vagas-de-trabalho-para-usuarios-de-drogas.html

Reportagem levanta debate sobre o programa Crack, É Possível Vencer

No final de dezembro de 2013, o jornal Gazeta do Povo lançou a reportagem com o título: “Plano anticrack investe apenas 37% do previsto”. O CRESS/PR, como integrante da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Paraná (FEDDH-PR)*, reproduz a seguir trechos da reportagem, entretanto antes fazendo algumas ressalvas:
- A FEDDH considera que o governo federal centralizou suas ações em uma perspectiva prioritariamente punitiva dos usuários de drogas, especialmente no programa ‘Crack É possível Vencer’, centralizando o tratamento pela via da internação e da abstinência, o que se choca frontalmente com a Reforma Psiquiátrica no Brasil.
- O combate ao crack tem sido o carro-chefe das políticas governamentais, em consonância com a massiva agitação dos meios de comunicação com relação a uma suposta ‘epidemia’ desta droga. Em nome de uma suposta política de amparo aos usuários, diversas ações de higienização da pobreza estão acontecendo, com encaminhamentos forçados de usuários de crack – em sua maioria, em situação de rua – a albergues e comunidades terapêuticas.
- A FEDDH-PR se posiciona contra estas comunidades terapêuticas. Esses equipamentos – em sua maioria privados e patrocinados por entidades religiosas e ‘figurões’ da grande política – tem recebido co-financiamento do Estado brasileiro, especialmente a partir da instalação do Plano “Crack – É possível vencer”. A situação desses internamentos é absolutamente preocupante, uma vez que as denúncias de maus-tratos, ausência de equipe técnica responsável pelos atendimentos, opressão de gênero, imposição religiosa, trabalho forçado e outras matizes de violações de direitos humanos são comuns.
- Neste sentido a reportagem traz um panorama preocupante sobre a intenção do governo em abrir 10 mil vagas nestas comunidades até o fim de 2014.
- A reportagem apresenta alguns termos que não são recomendados ao tratar deste tema, como “Epidemia” – pois não há dados que comprovem que o uso de crack possa ser considerado uma epidemia –, “anticrack” ou “antidrogas” – pois remetem a política proibicionista de drogas, criminalizando o usuário, enquanto deve-se encara-la como política de atenção às pessoas que usam drogas, e “consultório de rua” – quando na verdade o nome conforme a Portaria Nº 3088 de 23/12/2011 é ‘consultório na rua’.
Com estas ressalvas, segue a seguir a reportagem do jornal Gazeta do Povo (autoria: Rafael Waltrick)
Plano anticrack investe apenas 37% do previsto

Governo precisa dobrar o ritmo de investimentos para atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em prevenção e tratamento até o fim de 2014
Se quiser atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em ações de combate, tratamento e prevenção ao uso de drogas até o fim do ano que vem, o governo federal precisará mais do que dobrar o ritmo de investimentos na área. Lançado em dezembro de 2011 pela presidente Dilma Rousseff, o programa Crack, É Possível Vencer ainda não chegou a investir metade dos recursos previstos. Conforme balanço do próprio governo, em dois anos foi aplicado R$ 1,5 bilhão nos estados e municípios, o equivalente a 37,5% do total previsto.
Os números mostram que o grosso dos investimentos ficará mesmo para o próximo ano, principalmente no que se refere à expansão da estrutura de saúde mental, principal gargalo do programa até o momento. Nesse eixo, estão incluídas a ampliação e criação de unidades de atendimento e tratamento, como Centros de Atenção Psicossocial (Caps) 24 Horas, unidades de acolhimento e leitos especializados em hospitais gerais.
A previsão do governo federal, por exemplo, é que até o fim de 2014 sejam disponibilizados 1.741 leitos especializados em hospitais gerais nos municípios que pactuaram ao programa, e mil leitos deveriam ser abertos ainda neste ano – o último balanço, de outubro, aponta 635 unidades. Outra meta previa a abertura de 202 Caps 24 horas em 2013, mas somente 43 saíram do papel até então.
Discordância
As metas e balanços do programa são motivo de discordância entre o governo federal e os gestores responsáveis pelas ações nos estados e municípios considerados prioritários – entram na lista as capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes.
Desde agosto, os números passaram a ser compilados e divulgados em um site lançado pelo Ministério da Justiça para concentrar as informações do programa e dar transparência às ações. Gestores e assessores das cidades paranaenses consultados pela reportagem, no entanto, afirmam que os dados têm distorções e não levam em conta medidas recentes implantadas pelas prefeituras ou metas que foram revistas.
O portal, chamado de “Observatório Crack, É Possível Vencer” também não traz detalhes sobre o orçamento previsto para o próximo ano ou o investimento detalhado por município ou estado.
Para este ano, conforme a Casa Civil, o programa tinha um orçamento de R$ 1,8 bilhão – até outubro, teriam sido aplicados R$ 660 milhões, o equivalente a 36% do planejado.
Os Ministérios da Saúde e da Justiça não dão detalhes sobre as razões dos atrasos nas ações. Mesmo assim, a pasta da saúde reforça que investirá R$ 2 bilhões até 2014 – do R$ 1,5 bilhão aplicados até agora, R$ 1,4 bilhão saiu da pasta. Segundo o ministério, somados aos investimentos em assistência social e segurança pública, o programa atingirá a marca de R$ 4 bilhões no ano que vem.
Internação
Em 2 anos, 4.071 vagas foram abertas em comunidades terapêuticas
Uma das metas que, segundo o Ministério da Justiça, tem avançado desde o lançamento do programa Crack, É Possível Vencer, em dezembro de 2011, é a ampliação do número de vagas para tratamento em comunidades terapêuticas. Até o mês passado, o ministério havia firmado contrato com 183 comunidades em todo o país, gerando a abertura de 4.071 vagas nesses locais – a intenção é que o número chegue a 10 mil no fim de 2014.
A parceria com as comunidades terapêuticas, no entanto, é visto com ressalvas por especialistas, que criticam a morosidade do governo em investir em serviços de tratamento na rede pública. “Internação em comunidade terapêutica não é tratamento, é reinserção social. Essas comunidades não têm equipe de saúde, não fazem desintoxicação ou diagnóstico. Quando esse indivíduo sair desse local, vai precisar de acompanhamento e tratamento para o resto da vida, já que [a dependência] é uma doença crônica”, afirma a psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques.
Para a médica, desde o lançamento do programa, em 2011, não há avanços concretos em prevenção e tratamento, como a tão falada ampliação dos leitos especializados em hospitais gerais. “Estamos engatinhando ainda”, resume.

Dependência
Pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) mostra que 80% dos usuários de crack manifestam desejo de buscar tratamento. Somente nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal estima-se que haja 370 mil usuários regulares de crack ou de formas similares de cocaína fumada (pasta-base, merla e oxi). Entre esses, 50 mil são menores de 18 anos, o que demanda políticas públicas específicas para adolescentes.

28 milhões é o número de pessoas no Brasil que vivem com um dependente químico, conforme o Levantamento Nacional de Famílias de Dependentes Químicos, divulgado este mês pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a pesquisa, o tempo médio para a busca de ajuda após o conhecimento do uso de álcool e/ou outras drogas é três anos. Entre os que usam cocaína e crack, o tempo é menor, dois anos.
Disponível em: http://www.cresspr.org.br/site/reportagem-levanta-debate-sobre-o-programa-crack-e-possivel-vencer-2/