Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Auxílio-doença por uso de drogas cresce 60% em Minas

O número de auxílios-doença concedidos pelo INSS por situações relacionadas ao uso de drogas vem crescendo em Minas Gerais. Para a presidente da ABEAD, Ana Cecília Marques, o Brasil é um dos poucos países da América Latina onde tem aumentado o consumo de todas as drogas, e isso está relacionado a falta de uma política de controle.

Entenda  http://goo.gl/mk103U

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Brasileiros bebem acima da média




Segundo a OMS, o consumo anual é de 8,7l de álcool puro por habitante com mais de 15 anos, dois litros e meio a mais que o índice mundial. Especialistas alertam para os efeitos sociais e fisiológicos do costume

Os números são de uma epidemia. Três milhões e 300 mil mortes em 2012. O agente por trás de tantos óbitos — 5,9% dos registrados no mundo naquele ano — não foi um vírus ou uma bactéria ou um tumor maligno. Ele está dentro de copos e garrafas e é consumido por 47,7% da população global acima de 15 anos. Trata-se do álcool, substância diretamente relacionada com mais de 200 doenças, como cirrose hepática, alguns cânceres, diabetes e distúrbios neuropsiquiátricos. O abuso da bebida, segundo um relatório divulgado ontem pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mata mais que HIV, atos violentos e tuberculose. O documento também mostra que, no Brasil, o consumo de álcool está acima da média global.

Baseado em dados dos 194 países-membros das Nações Unidas, o documento alerta que a bebida não apenas provoca danos diretos à saúde, mas aumenta a suscetibilidade a males infecciosos e está por trás da ocorrência de crimes e acidentes. A OMS traçou o perfil de consumo das nações, relatou o impacto da bebida na saúde pública e avaliou as respostas das políticas governamentais. No total, o consumo anual foi de 6,2l de álcool puro por ano na população com mais de 15 anos. Contudo, como 38,3% do planeta é abstêmio, calcula-se que os que bebem ingerem 17l no período de 12 meses.

A região que mais consome álcool é a Europa, com 10,9l por ano — na Bielorrússia, a campeã mundial de ingestão, são 17,5l. Já o Mediterrâneo é onde menos se bebe: 0,7l anualmente. O relatório indicou que, entre 2008 e 2010, os brasileiros ingeriram 8,7l ao ano, mais que a média mundial. A quantidade caiu, comparado ao biênio 2003-2005, quando o consumo no Brasil era de 9,8l. Nas Américas, os campeões de bebida são Granada (12,5l), Santa Lúcia (10,4l), Canadá (10,2l), Chile (9,6l) Argentina (9,3l), Estados Unidos (9,2l) e Paraguai (8,8l). O país do continente americano que menos bebe é a Guatemala (3,8l).

“É preciso fazer mais para proteger as populações das consequências negativas do consumo de álcool”, disse, em nota, Oleg Chestnov, diretor-geral adjunto da OMS para doenças não transmissíveis e saúde mental. “O relatório mostra claramente que não há espaço para a complacência quando se trata de reduzir os perigos do uso do álcool”, afirmou.

Políticas falhas
O levantamento indica ainda que alguns países estão fortalecendo as medidas protetivas. Isso inclui criar impostos, limitar a venda ao aumentar o limite mínimo de idade e regular a propaganda de bebidas alcoólicas. Mas as políticas públicas são insuficientes em muitas nações. Na Bolívia, por exemplo, a única política é a taxação. O país sequer tem legislação sobre a condução de veículos sob o efeito de bebida. Lá, o consumo de álcool aumentou, passando de 5,1l por ano entre 2003-2005 para 5,9l no período de 2008-2010.

Embora o Brasil tenha aprovado, em 2007, a Política Nacional sobre o Álcool e Outras Drogas, a presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecilia Petta Roselli Marques, avalia que, na prática, o que se têm são medidas isoladas e de alcance reduzido. “No Brasil, quem dita a política do álcool é a indústria”, critica. Ela exemplifica a questão com a Copa do Mundo: cedendo à pressão da Fifa, o país liberou a venda de bebida alcoólica nos estádios.

Na avaliação da psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para ser bem-sucedida, uma política de combate ao álcool tem de incluir ações de prevenção, tratamento e controle da oferta. Ana Cecilia critica as propagandas de bebida que, diferentemente do que acontece com o tabaco, são liberadas, passando mensagens que associam o álcool à diversão, ao lazer e à sensualidade de maneira inofensiva. Além disso, o foco do marketing está cada vez mais nas mulheres, observa. “Infelizmente, a mulher está replicando o comportamento dos homens no cigarro, no álcool e em todas as drogas”, diz. O documento da OMS destaca essa tendência. 

No Brasil, as mulheres beberam 4,2l por ano em 2010, sendo que 11,1% consumiram álcool de forma pesada em pelo menos uma ocasião. “Nós descobrimos que, no mundo todo, cerca de 16% dos bebedores se envolveram em episódios de embriaguez — geralmente referidos por ‘beber em binge’ —, que é muito prejudicial à saúde”, explicou Shekhar Saxena, diretor de saúde mental e abuso de substâncias da OMS. Esse padrão, caracterizado pelo consumo de cinco ou mais doses de uma única vez (no caso de mulheres, quatro ou mais), está associado a disfunções no cérebro, doenças cardiovasculares e diminuição da longevidade. Segundo a OMS, o álcool encurta em cinco anos a vida dos brasileiros.

Em todo o mundo, é preciso estreitar as políticas voltadas às populações mais pobres, alertou o órgão das Nações Unidas. Embora o gênero seja o principal fator de risco — homens bebem mais —, a vulnerabilidade social também pesa no consumo. Não que a ingestão seja maior. Na realidade, enquanto 75,6% dos homens de renda alta bebem, o percentual é de 24,9% entre os mais pobres. O problema está nas consequências sofridas. “Grupos de baixa renda são mais afetados pelas consequências sociais e de saúde. Eles têm menos acesso a atendimento médico de qualidade e são menos protegidos por redes comunitárias e familiares”, ressaltou Shekhar Saxena. Ele afirmou que a OMS vai trabalhar arduamente com seus países-membros para reduzir em 10% a ingestão perigosa de álcool até 2050.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Principal causa de afastamento do trabalho, álcool leva à depressão e pode até matar, alertam médicos

Alcoolismo é considerado doença crônica que tem cura, mas deve ser tratado por toda a vida

Alcoolismo é a principal causa de pedidos de auxílio-doença, de acordo com dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). O número de pessoas que se afastaram do trabalho por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do abuso do uso do álcool aumentou em 19% em quatro anos. Em 2009, eram 12.055 e, em 2013, 14.420. De acordo com especialistas ouvidos pelo R7, o excesso ou abuso de bebidas alcoólicas trazem prejuízos para o organismo como também para a vida social do dependente.
A psiquiatra e presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), Ana Cecília Marques, explica que o álcool provoca uma espécie de anestesia no cérebro e, consequentemente, a pessoa perde a “concentração, atenção, os reflexos e a memória”.
— O álcool provoca a demência alcoólica que é uma doença em que o indivíduo fica senil antes do tempo, pois o cérebro para de funcionar devido a alterações no cérebro. Além de afetar todo o sistema nervoso central, o álcool também mexe com sistema cardiovascular, ou seja, as pessoas ficam mais vulneráveis a ter AVC (acidente vascular cerebral). Esse rompimento de artérias, também chamado de derrame, pode deixar a pessoa com sequelas ou levar à morte.
Ainda em relação ao organismo, a especialista explica que a substância também gera hipertensão, além de problemas gastrointestinais, como gastrite, cirrose hepática e hepatite alcoólica. Uma das consequências do alcoolismo pode ser também o desenvolvimento de vários tipos de câncer, como de boca, garganta, intestino e outros.

Além do aspecto físico, os dependentes poderão também entrar em depressão, após o isolamento social.
— Como o álcool provoca várias consequências no sistema nervoso central, a pessoa, muitas vezes, se isola, já que os pensamentos e o comportamento são alterados. Com isso, a pessoa fica tão autocentrada que tem dificuldades de se relacionar. Ela fica irritada, ansiosa e pode entrar em depressão.
Segundo o psiquiatra e especialista em dependência química e presidente-executivo do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), Arthur Guerra de Andrade, o alcoolismo “tem traços hereditários, mas é uma doença multifatorial”, que pode estar associada a problemas sociais, culturais, psicológicos e até profissionais.
Sou dependente?

A professora do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Zila Sanchez explica que para identificar se a pessoa está dependente basta verificar a “relação que ela estabelece com o álcool”.
— A necessidade de ele acordar e ter que beber ou até mesmo deixar pra trás tudo que achava importante para beber pode ser um sinal. Tudo é uma questão de como ele trata o consumo do álcool.
De acordo com Andrade, dificilmente o alcoólatra procura ajuda sozinho “porque ele sempre acha que pode parar de beber quando quiser”.
— A negação faz parte do quadro clínico, assim como mudança de comportamento, saúde debilitada, prejuízos no trabalho e problemas nas relações familiares.
Tratamento

De acordo com a presidente da Abead, o alcoolismo é uma doença crônica e, como todas as outras, deverá “ser tratada ao longo da vida”. Por enquanto, a ciência não descobriu a cura.
— Porém, hoje há ótimos tratamentos em que 60% das pessoas se recuperam. Porém, se não for tratado, pode ser fatal. Não necessariamente a pessoa que tem a doença necessita ser internada ou tomar remédios. 90% dos casos de dependentes são tratados em consultório. 5% são internados porque são casos muito graves e outros 5% são internados por pouco tempo, apenas para desintoxicar. No tratamento, o médico conta com a ajuda de um profissional de outra área, como terapeuta ocupacional, psicólogo e até mesmo assistente social.
Aumento do consumo

O último levantamento realizado pela Unifesp mostra que, em seis anos, o consumo de álcool no Brasil cresceu 20%. Entre 2006 e 2012, o índice de pessoas que bebem pelo menos uma vez por semana passou de 45% para 54%.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

No trânsito, drogas também podem matar


Efeitos de substâncias ilícitas e medicamentos alteram o comportamento do motorista

Desde a criação da Lei Seca, há cinco anos,   o número de mortes no trânsito vem diminuindo gradualmente. De janeiro a setembro de 2007, quando foi lançada,  301 pessoas foram vítimas de acidentes fatais no DF. No mesmo período de 2013, foram 271. Ainda pequena, sem chegar a 10%, a redução   mostra a necessidade de investimento em novas estratégias contra a impunidade. O problema é que muitos não dirigem apenas sob o efeito de álcool. Drogas ilícitas também   estão por trás dos volantes. Por isso, alertam especialistas: o desafio agora é outro.

 “O uso de entorpecentes ou até mesmo de medicamentos receitados, dependendo da química deles, afeta completamente a percepção do indivíduo. É claro que cada pessoa tem a sua reação, mas o normal é a redução da capacidade de avaliar vários fatores necessários para dirigir, como o reflexo. A maconha, por exemplo, inibe a agilidade da reação”, aponta a psiquiatra e presidente do Instituto Nacional de Política Sobre Drogas (Inpad), Ana Cecília Marques. 

 Por isso, sugere a especialista, “se existe uma lei para coibir a ingestão de álcool, deveria  ter uma para inibir o uso de drogas antes de dirigir”. Contudo, opina, a discussão esbarra em   aspectos sociais e políticos. “O consumo de drogas   aumenta  em todo o mundo. O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de cocaína, por exemplo.  É muito claro para a gente que isso esbarra nos números de violência no trânsito. Quem cheira fica eufórico,  pode perder a noção de perigo”.

Medicamentos
Além das substâncias ilícitas, outro aspecto preocupa os especialistas: o uso de remédios   como antidepressivos e emagrecedores. 

“Vários medicamentos criam restrições à pessoa poder dirigir. Muitos   tiram a capacidade de moderação, o reflexo, causam sonolência. E, mesmo assim, elas dirigem. Esse fato é conhecido pelas autoridades”, diz o especialista em trânsito Carlos Penna. 

 Segundo o pesquisador, não existem pesquisas que digam o número de acidentes   fatais envolvendo o uso de drogas. Informação essa que considera “importante e relevante para dar rumo às novas campanhas e ações de trânsito”. Para Penna, o debate é complexo, levando-se em conta as limitações da atual legislação.  “A pessoa não é obrigada a produzir provas contra si, certo? Já temos o primeiro entrave. E existe ainda a coisa da privacidade do indivíduo. É complicado mesmo”, analisa. 

 Entre os moradores do DF que usam drogas e dirigem está Roberto (nome fictício),   37 anos. Promotor de festas, ele reconhece seu vício em maconha e afirma: “Fumo várias vezes por dia. Dirijo, trabalho, faço tudo normalmente”. Para ele, o entorpecente não tira sua percepção ao volante, por isso,  não representa perigo. “A única coisa  alterada é a minha percepção mental das coisas, mas fisicamente não muda nada”, diz. 
 Questionado sobre a possibilidade de ser flagrado em uma blitz, ele responde: “Não tenho medo. Não faço mal a ninguém”.

Campanhas para alertar a população 
Para o especialista em trânsito Paulo César Marques, o ideal para   diminuir o uso de drogas entre motoristas seria aumentar o número e a qualidade das campanhas de trânsito,  hoje  focadas apenas no perigo do álcool.
 “Quando o indivíduo cheira cocaína, por exemplo, pode ficar mais agressivo. A pessoa fica   mais excitada e pode querer dirigir com mais velocidade. O perigo existe e é legalmente condenável, mas acredito nas campanhas educativas”, ressalta. 

 Nos bares e boates, o tema provoca discussões e revela a insegurança de quem diz não usar nenhum tipo de droga. “Acho a ideia de um drogômetro super-válida. Porque eu posso ser vítima de alguém que dirige sob o efeito de drogas. É perigoso, é irresponsável”, diz a cantora Ana Carolina Nóbrega, 33. 
 Acostumado a ver a movimentação dos jovens à noite, o segurança Francisco (nome fictício), que trabalha em uma boate,  diz que o problema aumenta a cada dia. “Tem uns que não estão em condição alguma de dirigir. Eles chegam a se encostar na porta do veículo para descansar. Imagina como uma pessoa assim consegue se responsabilizar pela direção de um carro?!”.

Problema nas estradas
Nas rodovias do País, o problema chegou a tal ponto que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determinou, a partir de 2014, a obrigatoriedade do exame toxicológico para renovação da carteira entre motoristas profissionais das categorias C (carga superior a 3 mil quilos), D (mais de oito passageiros) e E. A medida tem o objetivo de reduzir o número de mortes nas estradas brasileiras, que chega a 43 mil pessoas por ano.  
De acordo com dados da Polícia Rodoviária Federal, o uso de drogas estimulantes, como o crack e a cocaína, é comum entre caminhoneiros que dirigem mais de oito horas seguidas. 

 Os testes, que serão feitos no ato de tirar ou renovar a carteira, deverão identificar o uso de drogas nos últimos 90 dias. Se o resultado acusar o uso de algum tipo de entorpecentes, o motorista pode fazer uma contraprova até 90 dias depois do exame. Nas estradas, porém, a ideia é reprovada até por quem diz não fazer uso de tais substâncias. 

“Se a pessoa pode fazer uma contraprova, o que me parece? Que o governo quer arrecadar com a sobrecarga de trabalho dos caminhoneiros e com o problema do vício. Não é assim que se resolve a coisa”, diz Dejivan (nome fictício), condutor de um caminhão de cargas. 

 Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a quantidade de drogas apreendidas nas estradas aumentou até setembro de 2013 em comparação a todo o ano de 2012.  Até dezembro de 2012, haviam sido  recolhidos 248 quilos de maconha, e em 2013 o número passou para 632 quilos, um aumento de 154%. Já a apreensão de cocaína triplicou, passando de 60 quilos para 180. “Muita gente usa mesmo, mas tem condutor que carrega produto perecível e  não pode parar. Não é fácil julgar e querer condenar”, argumenta ainda Dejivan. 

 Já para Joel (nome fictício), também caminhoneiro, apesar de o problema ter como pano de fundo a exigência de entrega em determinado tempo, o drogômetro pode diminuir o número de acidentes. “Eu já vi gente usando cocaína na minha frente, uma cena horrorosa. E não é pouca gente que usa não. Por isso, o aparelho vem para ajudar. Mas, claro, tem que ter uma discussão maior. Não é só o caminhoneiro o responsável por isso”, aponta.

Disponível em: http://www.jornaldebrasilia.com.br/noticias/cidades/522903/no-transito-drogas-tambem-podem-matar/



Reportagem levanta debate sobre o programa Crack, É Possível Vencer

No final de dezembro de 2013, o jornal Gazeta do Povo lançou a reportagem com o título: “Plano anticrack investe apenas 37% do previsto”. O CRESS/PR, como integrante da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Paraná (FEDDH-PR)*, reproduz a seguir trechos da reportagem, entretanto antes fazendo algumas ressalvas:
- A FEDDH considera que o governo federal centralizou suas ações em uma perspectiva prioritariamente punitiva dos usuários de drogas, especialmente no programa ‘Crack É possível Vencer’, centralizando o tratamento pela via da internação e da abstinência, o que se choca frontalmente com a Reforma Psiquiátrica no Brasil.
- O combate ao crack tem sido o carro-chefe das políticas governamentais, em consonância com a massiva agitação dos meios de comunicação com relação a uma suposta ‘epidemia’ desta droga. Em nome de uma suposta política de amparo aos usuários, diversas ações de higienização da pobreza estão acontecendo, com encaminhamentos forçados de usuários de crack – em sua maioria, em situação de rua – a albergues e comunidades terapêuticas.
- A FEDDH-PR se posiciona contra estas comunidades terapêuticas. Esses equipamentos – em sua maioria privados e patrocinados por entidades religiosas e ‘figurões’ da grande política – tem recebido co-financiamento do Estado brasileiro, especialmente a partir da instalação do Plano “Crack – É possível vencer”. A situação desses internamentos é absolutamente preocupante, uma vez que as denúncias de maus-tratos, ausência de equipe técnica responsável pelos atendimentos, opressão de gênero, imposição religiosa, trabalho forçado e outras matizes de violações de direitos humanos são comuns.
- Neste sentido a reportagem traz um panorama preocupante sobre a intenção do governo em abrir 10 mil vagas nestas comunidades até o fim de 2014.
- A reportagem apresenta alguns termos que não são recomendados ao tratar deste tema, como “Epidemia” – pois não há dados que comprovem que o uso de crack possa ser considerado uma epidemia –, “anticrack” ou “antidrogas” – pois remetem a política proibicionista de drogas, criminalizando o usuário, enquanto deve-se encara-la como política de atenção às pessoas que usam drogas, e “consultório de rua” – quando na verdade o nome conforme a Portaria Nº 3088 de 23/12/2011 é ‘consultório na rua’.
Com estas ressalvas, segue a seguir a reportagem do jornal Gazeta do Povo (autoria: Rafael Waltrick)
Plano anticrack investe apenas 37% do previsto

Governo precisa dobrar o ritmo de investimentos para atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em prevenção e tratamento até o fim de 2014
Se quiser atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em ações de combate, tratamento e prevenção ao uso de drogas até o fim do ano que vem, o governo federal precisará mais do que dobrar o ritmo de investimentos na área. Lançado em dezembro de 2011 pela presidente Dilma Rousseff, o programa Crack, É Possível Vencer ainda não chegou a investir metade dos recursos previstos. Conforme balanço do próprio governo, em dois anos foi aplicado R$ 1,5 bilhão nos estados e municípios, o equivalente a 37,5% do total previsto.
Os números mostram que o grosso dos investimentos ficará mesmo para o próximo ano, principalmente no que se refere à expansão da estrutura de saúde mental, principal gargalo do programa até o momento. Nesse eixo, estão incluídas a ampliação e criação de unidades de atendimento e tratamento, como Centros de Atenção Psicossocial (Caps) 24 Horas, unidades de acolhimento e leitos especializados em hospitais gerais.
A previsão do governo federal, por exemplo, é que até o fim de 2014 sejam disponibilizados 1.741 leitos especializados em hospitais gerais nos municípios que pactuaram ao programa, e mil leitos deveriam ser abertos ainda neste ano – o último balanço, de outubro, aponta 635 unidades. Outra meta previa a abertura de 202 Caps 24 horas em 2013, mas somente 43 saíram do papel até então.
Discordância
As metas e balanços do programa são motivo de discordância entre o governo federal e os gestores responsáveis pelas ações nos estados e municípios considerados prioritários – entram na lista as capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes.
Desde agosto, os números passaram a ser compilados e divulgados em um site lançado pelo Ministério da Justiça para concentrar as informações do programa e dar transparência às ações. Gestores e assessores das cidades paranaenses consultados pela reportagem, no entanto, afirmam que os dados têm distorções e não levam em conta medidas recentes implantadas pelas prefeituras ou metas que foram revistas.
O portal, chamado de “Observatório Crack, É Possível Vencer” também não traz detalhes sobre o orçamento previsto para o próximo ano ou o investimento detalhado por município ou estado.
Para este ano, conforme a Casa Civil, o programa tinha um orçamento de R$ 1,8 bilhão – até outubro, teriam sido aplicados R$ 660 milhões, o equivalente a 36% do planejado.
Os Ministérios da Saúde e da Justiça não dão detalhes sobre as razões dos atrasos nas ações. Mesmo assim, a pasta da saúde reforça que investirá R$ 2 bilhões até 2014 – do R$ 1,5 bilhão aplicados até agora, R$ 1,4 bilhão saiu da pasta. Segundo o ministério, somados aos investimentos em assistência social e segurança pública, o programa atingirá a marca de R$ 4 bilhões no ano que vem.
Internação
Em 2 anos, 4.071 vagas foram abertas em comunidades terapêuticas
Uma das metas que, segundo o Ministério da Justiça, tem avançado desde o lançamento do programa Crack, É Possível Vencer, em dezembro de 2011, é a ampliação do número de vagas para tratamento em comunidades terapêuticas. Até o mês passado, o ministério havia firmado contrato com 183 comunidades em todo o país, gerando a abertura de 4.071 vagas nesses locais – a intenção é que o número chegue a 10 mil no fim de 2014.
A parceria com as comunidades terapêuticas, no entanto, é visto com ressalvas por especialistas, que criticam a morosidade do governo em investir em serviços de tratamento na rede pública. “Internação em comunidade terapêutica não é tratamento, é reinserção social. Essas comunidades não têm equipe de saúde, não fazem desintoxicação ou diagnóstico. Quando esse indivíduo sair desse local, vai precisar de acompanhamento e tratamento para o resto da vida, já que [a dependência] é uma doença crônica”, afirma a psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques.
Para a médica, desde o lançamento do programa, em 2011, não há avanços concretos em prevenção e tratamento, como a tão falada ampliação dos leitos especializados em hospitais gerais. “Estamos engatinhando ainda”, resume.

Dependência
Pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) mostra que 80% dos usuários de crack manifestam desejo de buscar tratamento. Somente nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal estima-se que haja 370 mil usuários regulares de crack ou de formas similares de cocaína fumada (pasta-base, merla e oxi). Entre esses, 50 mil são menores de 18 anos, o que demanda políticas públicas específicas para adolescentes.

28 milhões é o número de pessoas no Brasil que vivem com um dependente químico, conforme o Levantamento Nacional de Famílias de Dependentes Químicos, divulgado este mês pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a pesquisa, o tempo médio para a busca de ajuda após o conhecimento do uso de álcool e/ou outras drogas é três anos. Entre os que usam cocaína e crack, o tempo é menor, dois anos.
Disponível em: http://www.cresspr.org.br/site/reportagem-levanta-debate-sobre-o-programa-crack-e-possivel-vencer-2/

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Brasil deveria descriminalizar a maconha?

ANA CECÍLIA ROSELLI MARQUES
NÃO

Muito se tem falado por aí sobre o uso terapêutico da maconha e sua possível legalização no Brasil, após as mudanças de legislação ocorridas no vizinho Uruguai.
Mas pouco se tem discutido, profundamente, a questão. O fato que parece estar esquecido é que a maconha é uma droga psicotrópica que causa dependência, uma grave doença do cérebro, e que cursa com muitas complicações.

É verdade que algumas pesquisas vêm sendo feitas, inclusive no Brasil, para entender a ação dos diferentes componentes da Cannabis sp e sua utilização como medicamento. Mas também é verdade que os resultados ainda não são replicáveis (aplicáveis).

Isto é, para o controle da dor ou do apetite, por exemplo, substâncias já testadas devem ser aplicadas. Experiências com a maconha sem consentimento assistido (informações sobre todos os benefícios e malefícios) são a solução?

Estudos mostram que, além da dependência, o uso crônico produz bronquite crônica, insuficiência respiratória, aumento do risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade e depressão, episódios psicóticos e de pânico e, também, um comprometimento do rendimento acadêmico e/ou profissional. Por que optar por um caminho que oferece tantos riscos?

A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, a Abead, pesquisou sobre algumas experiências de descriminalização no mundo e elaborou uma síntese de evidências sobre os resultados.
Foram eles: o aumento do consumo, a redução da idade de experimentação, a diminuição do preço de comercialização e, portanto, um aumento da disponibilidade e do acesso à droga e, pior, um mercado para turistas que pode trazer outros riscos sociais e de saúde.

Por esses e outros motivos, é preciso debater muito mais antes de se alterar a lei ou mesmo propor medidas mais liberalizantes.

No Brasil, a percepção de risco relacionado à substância é muito baixa: a maconha é vista como uma droga leve, natural e que não faz tão mal, a despeito das respeitadas pesquisas já há muito publicadas que mostram um aumento significativo da taxa de doenças mentais entre os usuários quando comparados à população de não usuários da substância. Onde fica o direito humano, principalmente o do adolescente, à vida saudável, à saúde mental?

Então, vale ainda mais uma pergunta. Se, em países desenvolvidos, a legalização trouxe consequências desastrosas, por que no Brasil, que enfrenta tantas outras dificuldades, como a falta de tratamento especializado, a falta de prevenção, uma política de drogas que precisa ser revista, tal impacto seria diferente?

Para além dos usuários e defensores de direitos individuais de usar drogas, e não daqueles que lutam pelos direitos coletivos, é preciso entender que existem "clássicos" interesses econômicos em um novo negócio. Foi assim com o cigarro, tem sido assim com a bebida alcoólica, e o método utilizado para conseguir tal empreitada tão perversa é o uso da ambivalência.

Vale a pena lembrar que a maconha não é um produto qualquer. É uma droga psicotrópica, mais uma entre tantas cujo consumo é preciso controlar, de impacto nas células humanas, na família e na sociedade.
Não é possível fechar os olhos diante do jogo mercantilista. É preciso olhar firmemente para a situação da população brasileira, e não submetê-la a mais um fenômeno que não possui recursos para ser manejado. De que lado cairá a moeda?