Mostrando postagens com marcador Vicio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vicio. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Cerveja na chupeta: contato precoce com a bebida pode favorecer o vício na fase adulta


Especialistas alertam que brincadeiras com álcool indicam uma permissividade com a droga que pode despertar, nas crianças, um interesse precoce pela bebida

Alguns acham engraçado, outros o fazem por hábito cultural. Ainda há os que pensam que, assim, vão desestimular os filhos a beber no futuro. O fato é que não é raro os adultos oferecerem um pouco de álcool às crianças, seja molhando a chupeta na cerveja, seja deixando que tomem um golinho. Embora não exista consenso se a prática poderá, mais tarde, influenciar um comportamento de abuso ou adição, especialistas alertam que, por trás da brincadeira, está a permissividade familiar em relação à bebida alcoólica. E isso, sim, pode ter consequências negativas.

Na edição do próximo mês da revista Alcoholism: Clinical Experimental Research, será publicado um artigo de pesquisadores americanos no qual se procurou investigar como crianças com menos de 12 anos têm esse primeiro contato com a bebida. Os especialistas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh e do Centro de Pesquisa em Adição da Universidade de Michigan não estavam interessados em analisar o comportamento de adolescentes que bebem regularmente ou consomem drinques eventuais. Na verdade, queriam entender o que se passa antes disso, uma fase que chamam de iniciação na prova do álcool.

 “O primeiro drinque regular não é, geralmente, a primeira experiência que muitas crianças têm com a bebida”, observa o psiquiatra Robert A. Zucker. Segundo o pesquisador de Michigan, embora pesquisas indiquem que apenas 7% de adolescentes com 12 anos já tenham tomado o primeiro drinque, mais da metade deles experimentou alguma vez antes, por volta dos 8 anos. “E, apesar disso, historicamente, essa ‘provinha’ de álcool na infância tem recebido muito pouca atenção de nós, pesquisadores”, reconhece o médico, acrescentando que, para o estudo, beber tem o significado de consumir uma dose inteira e provar quer dizer tomar um ou poucos goles.


Os especialistas utilizaram dados de um estudo longitudinal sobre fatores de risco para ingestão precoce de álcool, o Projeto Adolescente. No início da década de 2000, uma amostra de 452 crianças — 238 meninas e 214 meninos — de 8 a 10 anos e suas famílias foi escolhida aleatoriamente e contatada pelos pesquisadores. Os pequenos, então, passaram por uma entrevista com ajuda de computador, assim como os pais deles. Os questionários foram refeitos três vezes ao longo de 18 meses. Sete anos e meio depois, os participantes voltaram a ser procurados pelos investigadores.

A abordagem com as crianças consistia em perguntar se elas sabiam que bebidas como licor, cerveja e vinho continham álcool e questionar se já haviam provado alguma delas. Aquelas que diziam “sim” deveriam clicar em todos os contextos nos quais isso havia ocorrido: cerimônia religiosa, jantar com a família, festa familiar, sozinhas ou com alguém fora do seio familiar. Então, perguntava-se se já haviam tomado um drinque inteiro alguma vez. Os pesquisadores colocaram no grupo de abstêmios as que só tinham provado álcool na prática religiosa. Quanto às demais, 201 tinham tomado pelo menos um gole na infância.

União de fatores
Nas entrevistas, também se procurou saber se as crianças achavam que os pais aprovavam esse comportamento. Um teste semelhante foi aplicado com os adultos, que deveriam responder se tinham alguma objeção em relação ao contato precoce dos filhos com a bebida, além de dizer se consumiam álcool e em com qual frequência. O fator que mais influenciou as crianças a provar o álcool foi a percepção da aprovação dos pais. O fato de o pai e/ou da mãe beber socialmente também teve influência. “Por sua vez, as respostas das famílias foram bem de acordo com as das crianças, com os pais admitindo que aprovavam plenamente que seus filhos tomassem alguns goles de álcool”, conta Zucker.

Na amostra analisada, passados sete anos e meio, nenhuma dessas crianças haviam desenvolvido problemas como abuso de álcool, consumo de maconha e outras drogas, delinquência e comportamento sexual de risco. “Isso sugere que, sozinho, o fato de provar álcool na infância não está relacionado ao envolvimento com esses tipos de problema na adolescência”, diz o pesquisador.

O que não significa, contudo, que está tudo bem oferecer golinhos de bebida para crianças. “Essa pesquisa também sugere que, se as crianças não percebem seus pais como desaprovadores, elas serão mais propensas a tomar o primeiro passo no uso de álcool. Mais do que isso, ela mostra que, se os pais bebem na frente dos filhos, estes também terão maior propensão a beber quando crianças. Espero que isso faça os pais mais cautelosos a respeito de beber na frente dos filhos e sobre as mensagens que estão enviando para elas quanto à bebida”, afirma o coautor do estudo, John E. Donovan, psiquiatra do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh.

Além disso, Donovan alerta que pesquisas anteriores — algumas conduzidas por ele — indicam que provar o álcool na infância aumenta os riscos de se começar a beber regularmente antes da idade adulta. De acordo com Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abead), os que experimentam a bebida aos 12 anos têm 12% de risco de se tornarem dependentes, percentual que vai para 2% quando esse contato é feito aos 22. “O ideal é adiar ao máximo possível”, aconselha a psiquiatra. 


Festeje, mas eduque 
Para o psiquiatra John E. Donovan, do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, uma das principais mensagens da pesquisa do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh e do Centro de Pesquisa em Adição da Universidade de Michigan é que a permissividade dos pais em relação ao consumo do álcool — próprio ou por parte das crianças — deve ser repensada.

Presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques concorda. “A história do álcool tem a ver com a história da humanidade, está até na Bíblia. Por isso, não é tão fácil fazer a prevenção. Mas o modelo parental é fundamental para a estruturação dos filhos, é preciso explicar para a criança e para o adolescente que, quanto mais tarde experimentar, melhor.”

A psiquiatra afirma que os pais não precisam se tornar abstêmios. “Mas, se estão em uma festa de adultos e os filhos também estiverem ou forem brindar em um momento especial, têm de aproveitar para ensinar que aquele não é um produto para crianças e adolescentes. Também têm de prestar atenção à quantidade e não ficar enchendo a cara na frente dos filhos. Não vejo como erradicar a bebida alcoólica do planeta, mas é preciso proteger os filhos sendo pais equilibrados”, diz.

Aos 13 anos, França* ficou órfão de pai e, a contragosto, foi designado pela mãe como o “homem da casa”. Até então, jamais havia chegado perto de álcool. O pai, operário que ajudou a construir Brasília, não era “farrista”, embora a mãe gostasse de beber escondida. Por volta dos 15, 16 anos, quando arrumou o primeiro emprego, o rapaz começou a frequentar festas e, em uma delas, se embriagou. Chegou em casa constrangido, mas se surpreendeu com a reação materna. “Em vez de me repreender, ela disse que homem tinha de ter um vício”, recorda.

Sem responsabilizar a mãe pela dependência que desenvolveu, hoje, França, 56 anos, está internado pela segunda vez em uma clínica de reabilitação. “Ela bebia escondida desde moça. Morreu no fim do ano passado aos 86 anos e eu soube que tinha bebido. Mas não a responsabilizo. Eu continuei a beber porque gostei, porque aquilo me dava prazer”, ressalta.

Inclinação natural
Diretora da Clínica Renascer, a psicanalista Janete Krissak Pinheiro observa que existe uma inclinação natural na sociedade para encontrar a culpa no outro, principalmente no que diz respeito aos comportamentos de dependência, como o alcoolismo. “Mas, independentemente da família estimular a bebida, se acontece um efeito de prazer, é isso que fica. Não é porque você vive em um meio em que é muito mais fácil beber que vai se tornar alcoolista.”

Contudo, a psicanalista reforça a importância de os pais darem o exemplo e colocarem limites nos hábitos dos filhos. “A criança é o fruto da educação que recebe. Embora não dê para classificar que beber é algo insano, você também não vai começar a beber às 10h e parar às 16h. A criança vê isso. Obviamente, se a família traz essa mensagem de permissividade com o álcool, a criança vai entender e assimilar isso como algo natural. O desenvolvimento do alcoolismo se dá porque algo na ordem do limite não foi associado pela criança”, reforça.

Entre os pacientes da Clínica Renascer, está João*, 52 anos, há mais de 80 internado para reabilitação. Diferentemente de França, ele começou a beber tarde, com 21 anos. Embora dependente, decidiu jamais deixar que os filhos, hoje dois homens de 18 e 21 anos, chegassem perto de bebida no ambiente doméstico e nunca deu uma provinha para eles. “Depois que eles nasceram, álcool dentro de casa só o de limpeza”, conta. A falta de incentivo parece ter surtido efeito — nenhum dos dois bebe. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Reportagem levanta debate sobre o programa Crack, É Possível Vencer

No final de dezembro de 2013, o jornal Gazeta do Povo lançou a reportagem com o título: “Plano anticrack investe apenas 37% do previsto”. O CRESS/PR, como integrante da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Paraná (FEDDH-PR)*, reproduz a seguir trechos da reportagem, entretanto antes fazendo algumas ressalvas:
- A FEDDH considera que o governo federal centralizou suas ações em uma perspectiva prioritariamente punitiva dos usuários de drogas, especialmente no programa ‘Crack É possível Vencer’, centralizando o tratamento pela via da internação e da abstinência, o que se choca frontalmente com a Reforma Psiquiátrica no Brasil.
- O combate ao crack tem sido o carro-chefe das políticas governamentais, em consonância com a massiva agitação dos meios de comunicação com relação a uma suposta ‘epidemia’ desta droga. Em nome de uma suposta política de amparo aos usuários, diversas ações de higienização da pobreza estão acontecendo, com encaminhamentos forçados de usuários de crack – em sua maioria, em situação de rua – a albergues e comunidades terapêuticas.
- A FEDDH-PR se posiciona contra estas comunidades terapêuticas. Esses equipamentos – em sua maioria privados e patrocinados por entidades religiosas e ‘figurões’ da grande política – tem recebido co-financiamento do Estado brasileiro, especialmente a partir da instalação do Plano “Crack – É possível vencer”. A situação desses internamentos é absolutamente preocupante, uma vez que as denúncias de maus-tratos, ausência de equipe técnica responsável pelos atendimentos, opressão de gênero, imposição religiosa, trabalho forçado e outras matizes de violações de direitos humanos são comuns.
- Neste sentido a reportagem traz um panorama preocupante sobre a intenção do governo em abrir 10 mil vagas nestas comunidades até o fim de 2014.
- A reportagem apresenta alguns termos que não são recomendados ao tratar deste tema, como “Epidemia” – pois não há dados que comprovem que o uso de crack possa ser considerado uma epidemia –, “anticrack” ou “antidrogas” – pois remetem a política proibicionista de drogas, criminalizando o usuário, enquanto deve-se encara-la como política de atenção às pessoas que usam drogas, e “consultório de rua” – quando na verdade o nome conforme a Portaria Nº 3088 de 23/12/2011 é ‘consultório na rua’.
Com estas ressalvas, segue a seguir a reportagem do jornal Gazeta do Povo (autoria: Rafael Waltrick)
Plano anticrack investe apenas 37% do previsto

Governo precisa dobrar o ritmo de investimentos para atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em prevenção e tratamento até o fim de 2014
Se quiser atingir a meta de aplicar R$ 4 bilhões em ações de combate, tratamento e prevenção ao uso de drogas até o fim do ano que vem, o governo federal precisará mais do que dobrar o ritmo de investimentos na área. Lançado em dezembro de 2011 pela presidente Dilma Rousseff, o programa Crack, É Possível Vencer ainda não chegou a investir metade dos recursos previstos. Conforme balanço do próprio governo, em dois anos foi aplicado R$ 1,5 bilhão nos estados e municípios, o equivalente a 37,5% do total previsto.
Os números mostram que o grosso dos investimentos ficará mesmo para o próximo ano, principalmente no que se refere à expansão da estrutura de saúde mental, principal gargalo do programa até o momento. Nesse eixo, estão incluídas a ampliação e criação de unidades de atendimento e tratamento, como Centros de Atenção Psicossocial (Caps) 24 Horas, unidades de acolhimento e leitos especializados em hospitais gerais.
A previsão do governo federal, por exemplo, é que até o fim de 2014 sejam disponibilizados 1.741 leitos especializados em hospitais gerais nos municípios que pactuaram ao programa, e mil leitos deveriam ser abertos ainda neste ano – o último balanço, de outubro, aponta 635 unidades. Outra meta previa a abertura de 202 Caps 24 horas em 2013, mas somente 43 saíram do papel até então.
Discordância
As metas e balanços do programa são motivo de discordância entre o governo federal e os gestores responsáveis pelas ações nos estados e municípios considerados prioritários – entram na lista as capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes.
Desde agosto, os números passaram a ser compilados e divulgados em um site lançado pelo Ministério da Justiça para concentrar as informações do programa e dar transparência às ações. Gestores e assessores das cidades paranaenses consultados pela reportagem, no entanto, afirmam que os dados têm distorções e não levam em conta medidas recentes implantadas pelas prefeituras ou metas que foram revistas.
O portal, chamado de “Observatório Crack, É Possível Vencer” também não traz detalhes sobre o orçamento previsto para o próximo ano ou o investimento detalhado por município ou estado.
Para este ano, conforme a Casa Civil, o programa tinha um orçamento de R$ 1,8 bilhão – até outubro, teriam sido aplicados R$ 660 milhões, o equivalente a 36% do planejado.
Os Ministérios da Saúde e da Justiça não dão detalhes sobre as razões dos atrasos nas ações. Mesmo assim, a pasta da saúde reforça que investirá R$ 2 bilhões até 2014 – do R$ 1,5 bilhão aplicados até agora, R$ 1,4 bilhão saiu da pasta. Segundo o ministério, somados aos investimentos em assistência social e segurança pública, o programa atingirá a marca de R$ 4 bilhões no ano que vem.
Internação
Em 2 anos, 4.071 vagas foram abertas em comunidades terapêuticas
Uma das metas que, segundo o Ministério da Justiça, tem avançado desde o lançamento do programa Crack, É Possível Vencer, em dezembro de 2011, é a ampliação do número de vagas para tratamento em comunidades terapêuticas. Até o mês passado, o ministério havia firmado contrato com 183 comunidades em todo o país, gerando a abertura de 4.071 vagas nesses locais – a intenção é que o número chegue a 10 mil no fim de 2014.
A parceria com as comunidades terapêuticas, no entanto, é visto com ressalvas por especialistas, que criticam a morosidade do governo em investir em serviços de tratamento na rede pública. “Internação em comunidade terapêutica não é tratamento, é reinserção social. Essas comunidades não têm equipe de saúde, não fazem desintoxicação ou diagnóstico. Quando esse indivíduo sair desse local, vai precisar de acompanhamento e tratamento para o resto da vida, já que [a dependência] é uma doença crônica”, afirma a psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques.
Para a médica, desde o lançamento do programa, em 2011, não há avanços concretos em prevenção e tratamento, como a tão falada ampliação dos leitos especializados em hospitais gerais. “Estamos engatinhando ainda”, resume.

Dependência
Pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) mostra que 80% dos usuários de crack manifestam desejo de buscar tratamento. Somente nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal estima-se que haja 370 mil usuários regulares de crack ou de formas similares de cocaína fumada (pasta-base, merla e oxi). Entre esses, 50 mil são menores de 18 anos, o que demanda políticas públicas específicas para adolescentes.

28 milhões é o número de pessoas no Brasil que vivem com um dependente químico, conforme o Levantamento Nacional de Famílias de Dependentes Químicos, divulgado este mês pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a pesquisa, o tempo médio para a busca de ajuda após o conhecimento do uso de álcool e/ou outras drogas é três anos. Entre os que usam cocaína e crack, o tempo é menor, dois anos.
Disponível em: http://www.cresspr.org.br/site/reportagem-levanta-debate-sobre-o-programa-crack-e-possivel-vencer-2/

Ricos fumam mais


Pesquisa divulgada recentemente pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontou crescimento no consumo de cigarros entre pessoas de melhor poder aquisitivo – a chamada classe A –. Nos últimos seis anos, a população mais rica do País elevou o uso de tabaco em 110%, contrariando a média nacional, com queda de 20% no consumo de cigarros no mesmo período, entre 2006 e 2012.

Conforme a pesquisa, o percentual de fumantes da classe A, em 2006, era de apenas 5,2%. Já no ano passado, o consumo mais do que dobrou e subiu para 10,9%. Na contramão dos dados da população rica, maior consumidora de cigarros, segundo a mostra, outras camadas sociais apresentaram menor uso do tabaco. Na classe B, passou de 14,7%, em 2006, para 12,7%, em 2012. A mesma tendência é seguida pela faixa C, que diminuiu de 21,8% para 19,1%. No grupo D e E, os recuos passaram de 22,7% para 19%, e, 24,9% para 22,9% respectivamente.
“Embora a classe econômica mais privilegiada tenha mais conhecimento, o fato de ter dinheiro para consumir cigarros se torna mais relevante. Acredito que isso mostra a importância de se pensar em aumentar o imposto, porque é um fator que pode, muito provavelmente, ser mais eficaz que campanhas de conhecimento de que o cigarro faz mal”, salienta Ana Cecília Marques, uma das responsáveis pelo levantamento.
A pesquisadora ainda explica que, no momento da decisão sobre comprar ou não um maço de cigarros, o dinheiro no bolso pesa mais que alta escolaridade e maior esclarecimento sobre efeitos nocivos do fumo. Há dois anos, o Ministério da Saúde estipulou aumento gradativo da carga tributária sobre os cigarros e do preço mínimo para a venda do maço.
Regiões do País

O levantamento da Unifesp comparou o aumento do consumo de cigarros em diferentes lugares do Brasil. A região Sul, embora tenha apresentado queda, foi a que mais consumiu tabaco (20,2%) em 2012, contra 25,9% em 2006. O uso do fumo em outras regiões do País também ocorreu redução dentro do mesmo período: Norte (20%), Sudeste (19%), Nordeste (18%) e Centro-Oeste (15%).
Segundo o estudo, 50% dos pesquisados afirmaram já ter experimentado cigarro pelo menos uma vez na vida e, desses, 51% permanecem fumando. A grande maioria dos entrevistados (73%) admitiu que tentaria largar o cigarro se tivesse acesso a tratamento gratuito.
Outro aspecto investigado, de acordo com a pesquisa, foram os indicadores de dependência. Um deles é consumir o primeiro cigarro até cinco minutos após acordar. Neste contexto, 25,3% disseram, em 2012, ter essa necessidade, contra 17,9% que admitiram sofrer o problema em 2006.
Já no aspecto difícil ou bem difícil passar um dia sem fumar foi outro item investigado pelo estudo para avaliar a dependência. Na ocasião, 67,8% dos participantes assumiram essa dificuldade no ano passado, ante 59% em 2006. Entre fumantes que tentaram parar de fumar e não conseguiram houve queda de 9%, ou seja, de 72% em 2006 passou para 63% em 2012.
Disponível em: http://www.dm.com.br/texto/159208-ricos-fumam-mais

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Álcool é mais mortal para quem está na meia-idade


Levantamento da Opas indica que, no Brasil, o vício mata principalmente homens com 50 a 59 anos. Na maioria dos casos, as vítimas não resistem às complicações hepáticas

Noites intermináveis de festas regadas a drogas lícitas e ilícitas podem dar a impressão de que os jovens são as maiores vítimas dos vícios. Todos “uma ideia ruim”, segundo o presidente dos EUA, Barack Obama. Em entrevista publicada no domingo na revista The New Yorker, ele declarou que não acha que “fumar maconha seja mais perigoso do que o álcool”. Dezenove estados americanos permitem o uso da maconha para fins medicinais. Com menos restrições comerciais, as bebidas alcoólicas matam anualmente 79.465 pessoas nas Américas. No Brasil, as maiores vítimas são adultos de 50 a 59 anos, segundo levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) publicado no periódico Addiction.

Para os especialistas, a cultura machista e a ineficiência das políticas públicas fazem com que o país ocupe o 5º lugar no ranking das nações americanas com mais óbitos causados pelo álcool. O levantamento com dados de 16 países das américas do Norte, Central e do Sul foi feito pelas brasileiras Vilma Gawryszewski e Maristela Monteiro. Elas verificaram que, entre 2007 e 2009, o Brasil registrou mais de 22 mil mortes diretamente relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas. Os homens correspondem a 88,5% do total. 

Jorge Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad), acredita que taxas tão elevadas entre os consumidores do sexo masculino é cultural. “Quando a mulher bebe, vira alvo de críticas, preconceito e desvalorização sexual. A sociedade, principalmente os homens, parte do princípio de que elas serão mais fáceis de serem conquistadas, no sentido sexual. O homem, ao contrário, é estimulado a beber, leva-se isso na brincadeira”, reflete o especialista em dependência química pela Universidade de Harvard (EUA) e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Ainda que os homens estejam na dianteira das estatísticas, o número de mulheres consumidoras de bebidas cresce. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito pelo Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2012, elas representavam 39% do total de pessoas que bebiam álcool pelo menos uma vez na semana, contra 29% em 2006. “A gente pode dizer que elas são grandes alvos das campanhas de bebida, e a indústria do álcool enxerga hoje no público feminino um grande nicho”, observa Ana Cecília Marques, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).

Sem prevenção
Outro motivo para os homens morrerem mais é a resistência em fazer consultas de rotina. A cirrose, por exemplo, evolui dentro de um período máximo de cinco anos, tempo em que muitos nem sequer passam perto do consultório médico. “O álcool literalmente mata as células do fígado, que, apesar do alto poder de regeneração, não consegue suportar as lesões sucessivas provocadas pelo vício”, explica Sérgio Fernandes, clínico médico do laboratório Exame.

Segundo Jaber, um dos motivos para tanta demora no diagnóstico das doenças do fígado entre os homens — esses males representam 54% de todas as mortes relacionadas ao álcool no Brasil, de acordo com o estudo — está no fato de o sistema digestivo deles ser maior e mais eficiente, de forma que conseguem consumir maiores quantidades de bebidas alcoólicas durante mais tempo sem sentirem os efeitos adversos na saúde.

“Não há prevenção. Não existem políticas que forneçam tratamento ou assistência. Não tem quem diga para a pessoa que ela precisa de ajuda. A prevenção no Brasil é zero, e o tratamento, pífio. O controle da oferta não existe, pois os adolescentes têm acesso a bebidas”, alerta Ana Cecília.

O problema se repete em outros países analisados. As autoras do trabalho afirmam que toda a América sofre com o descaso em maior ou menor intensidade. “Mortes relacionadas ao álcool são evitáveis por meio de intervenções e políticas que minimizem o consumo. Pesquisas em todo o mundo indicaram que as restrições à disponibilidade de bebidas alcoólicas, o aumento de preços e o controle de marketing interferem efetivamente para reduzir o uso nocivo”, concluem, no estudo.

Abalos psiquiátricos
A bebida alcoólica pode causar diretamente 60 tipos de doenças e lesões, como cirrose, pancreatite e transtornos psiquiátricos. Gawryszewski e Monteiro ressaltam o risco de o dependente ser acometido por “uma série de doenças mentais ou do sistema nervoso”. Entre elas, a depressão, a ansiedade, as psicoses e a neuropatia periférica.

Na Argentina, no Brasil, em Cuba, na Guatemala e na Nicarágua, os distúrbios neuropsiquiátricos foram responsáveis por cerca de metade das mortes relacionadas ao álcool. Segundo Ana Cecília Marques, um dos problemas mais recorrentes são os acidentes vasculares hemorrágicos. Eles aparecem primeiro com a hipertensão arterial, também causadora dos derrames.

Jorge Jaber explica que o consumo frequente leva à morte dos neurônios, o que resulta em alterações cognitivas e de aprendizado. A memória fica alterada e as dificuldades acometem também os membros periféricos. “Os neurônios responsáveis pelos movimentos, aqueles que saem do cérebro e vão para os músculos, também são destruídos. Por isso, a marcha é comprometida. São as chamadas doenças dos nervos periféricos, crônicas, progressivas e fatais”, diz.

Duas perguntas para: Maurício Fiore, Antropólogo e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

O consumo das bebidas alcoólicas é maior entre os homens. Que aspectos sociais estão por trás disso?

Trata-se claramente de uma questão histórica. O ato de beber é mais associado aos homens, inclusive porque normalmente se bebia fora de casa, na cena pública. Há diferenças entre períodos e regiões, mas a capacidade de consumir álcool é, no Ocidente, associada à masculinidade. Isso vem se alterando, principalmente depois do século 20. Os dados indicam que a proporção de mulheres que bebem cresceu, inclusive no Brasil, embora ainda estejam longe dos homens. Há que se considerar também que, em média, a capacidade feminina de absorver o álcool é menor que a masculina.

No Brasil, a legislação para bebidas é tímida. Isso reflete uma tendência do país em não considerar o produto uma droga?
As políticas públicas sobre álcool no Brasil ainda engatinham. O consumo de álcool é naturalizado e ainda raramente visto como o de uma droga psicoativa. Mas há fatores políticos e econômicos que também impedem que a discussão sobre política de álcool avance. Uma das maiores empresas do mundo é a Ambev, que tem um poder de pressão política grande. Enquanto o Congresso Nacional só consegue fazer mais do mesmo com relação às drogas ilícitas — endurecer penas, sendo que o caminho mundial é o contrário —, no caso do álcool, quase nada avança.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Estudo aponta origens do vício


Cresce em consultórios e clínicas número de dependentes de drogas, álcool, sexo, comida e outros males.
Na Paraíba, 435.988 pessoas (11,5% da população) são viciadas em tabaco. O álcool faz o segundo maior número de dependentes no Estado, com uma média de 376 mil viciados. As drogas ilícitas já escravizam milhares de paraibanos: crack (111 mil pessoas) maconha (112 mil) e cocaína (75.330). Além disso, cresce nos consultórios e clínicas o número de pessoas procurando ajuda porque não conseguem mais parar de trabalhar, comer, comprar, fazer sexo, se exercitar ou navegar na Internet. Ainda existe a ‘dependência cruzada’, quando uma pessoa
tem dois ou mais vícios ao mesmo tempo. Especialistas alertam que tudo começa com uma sensação de prazer ou de preenchimento de um vazio e vira doença.
Por que as pessoas se viciam? Pesquisas e estudiosos dizem que qualquer ser humano é um alvo em potencial do mal. A chave pode estar na genética (risco é de 30%), na mente (30%), no meio social (30%) e até na falta de religiosidade (10%), de acordo com a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Roselli. E há cura? “Não, mas o tratamento adequado pode levar o indivíduo a controlar sua doença e à remissão total”, afirma Ana Cecília.
A psiquiatra explica que o tratamento pode ser feito com medicamentos (antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina) e com outros métodos, como grupos de ajuda, clínicas de reabilitação e terapias espirituais. “Independente do método, o tratamento é baseado na desintoxicação, prevenção de recaídas, tratamento das complicações, tratamento da família e manutenção da abstinência”, esclareceu.
Disponível em: http://www.abead.com.br/imgs/file/Correio_da_Paraiba.pdf