domingo, 20 de maio de 2012

SUS gasta R$ 1,8 bilhão por ano com dependentes



Recursos foram para o atendimento de 3 milhões de usuários de drogas

O governo federal gastou R$ 1,8 bilhão por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) no atendimento de 3 milhões de dependentes químicos somente no ano passado. O dinheiro foi destinado para a Rede de Atenção Psicossocial, responsável pelas ações voltadas para usuários de drogas e álcool no país. Esse montante representa 2,5% do Orçamento do governo federal para a área da saúde.

Do total de R$ 1,8 bilhão, 34% foram usados em internações e atendimentos hospitalares. Outros R$ 490 milhões foram gastos no custeio de 2,5 mil leitos exclusivos para o tratamento de dependentes químicos.

Em dez anos, o Ministério da Saúde diz ter triplicado o volume de recursos destinados para a rede de atendimento. Em 2002, a verba era de R$ 619 milhões. Para este ano, a previsão é de que chegue a R$ 2,1 bilhões. 

Para a psiquiatra Ana Cecilia Marques, conselheira da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), a falta de uma política antidrogas efetiva por parte do governo federal impede avaliar os resultados obtidos com os recursos liberados.
Segundo ela, antes de elevar os investimentos, é preciso mapear o dependente. “Um histórico é o primeiro passo. Ele permitirá levantar onde é preciso um novo leito ou um programa de acompanhamento familiar. É preciso montar o perfil do doente para combater a doença.”

O crack na mira 

O aumento nos investimentos é parte do Plano Nacional de Combate ao Crack, que receberá um aporte direto de R$ 350 milhões – a meta do governo é destinar R$ 2 bilhões para o tratamento de dependentes da droga até 2014.

O foco principal são os centros de aglomeração de viciados, como a Cracolândia, que concentra dependentes de crack. Com essa verba, o governo promete abrir 13,5 mil novos leitos. Hoje, o SUS tem cerca de 9 mil leitos para dependentes químicos, divididos entre hospitais psiquiátricos, prontos-socorros e Caps (Centros de Atendimento Psicossocial).

A psiquiatra Ana Cecilia diz que concentrar os gastos em novos Caps é ir na contramão da ciência. “Estamos criando um país de doentes. É preciso investir na prevenção e adotar uma política de combate à oferta de drogas.” 

Durante visita à Cracolândia em janeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o aumento nos investimentos do governo e a política de internações é parte do programa que está em andamento.

Segundo o ministro, o governo não tem uma visão “reducionista” em suas medidas antidrogas. “Buscamos unir planejamento e recursos”, diz.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Estado reduz esforços na busca aos usuários de crack nas ruas

Após o governo federal anunciar, em dezembro de 2011, o investimento de R$ 4 bilhões para frear a epidemia de crack no Brasil, o governo mineiro foi na contramão e suspendeu uma de suas principais iniciativas de combate à droga: as abordagens de rua feitas pelo programa Aliança pela Vida. Lançado há oito meses, a ação do Estado ficou metade desse período sem realizar sequer um mutirão de acolhimento aos dependentes químicos que aceitam tratamento.

Quatro meses também foi o tempo que o governo mineiro demorou para solicitar à União parte da verba bilionária destinada ao enfrentamento ao crack. O projeto, necessário para a liberação do recurso, só foi apresentado em 4 de abril, sendo que o dinheiro estava disponível desde 7 de dezembro.

Sobre a demora, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) informou que está dentro do prazo estabelecido pelo governo federal. Já sobre o Aliança pela Vida, a justificativa é que as abordagens foram suspensas para um período de "reavaliação do programa", que foi retomado no último dia 28 de abril, com novo formato. A pasta informou ainda que outras ações do Aliança pela Vida não foram interrompidas, como as campanhas de prevenção, com entrega de materiais educativos, e o SOS Drogas, que presta atendimento telefônico por meio do 155.

A primeira ação após o período de interrupção ocorreu no bairro Vila Sumaré, na região Noroeste da capital, e teve como novidade apresentações de música, recreação e palestras. Porém, pouco se fez no que se refere à internação. A Seds informou que, na ocasião, 18 pessoas manifestaram interesse em se internar e receberam encaminhamento e orientações. No entanto, o órgão não soube comunicar quantos, de fato, iniciaram o tratamento, o que, na opinião de especialistas, demonstra a falta de acompanhamento dos casos.

O resultado completo é que, em oito meses de existência, o Aliança pela Vida acolheu 196 usuários de crack para internação. Desse total, 57% permaneceram em tratamento. Isso considerando os 178 atendidos em 2011 (veja quadro) e os 18 deste ano, após a pausa nas ações.

A falta de continuidade da iniciativa, de acordo com a conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Tetta Roselli, desestimula os próprios usuários. "Muitos querem e procuram socorro, mas não encontram atendimento adequado e permanecem no vício", afirmou. 

Sobre a periodicidade dos atendimentos de rua a partir de agora, o Estado informou que elas serão mensais, fazendo valer a prerrogativa de "continuidade e sistematização" das ações. No entanto, a Seds não soube dizer ainda quando e onde ocorrerão abordagens em cracolândias de Minas.

O governo mineiro também resiste em adotar a prática da internação involuntária, que é aquela feita sem o consentimento do dependente. Só acontece no Estado a internação voluntária, com a aceitação do paciente, ou a compulsória, por determinação da Justiça.

ANÁLISE
‘Não adianta ação de marketing’
A suspensão das abordagens de rua feitas por meio do programa Aliança pela Vida aconteceram no mesmo momento em que se observou o aumento da violência em Minas, com um crescimento de 16,3% no índice de homicídios no Estado. Na opinião de especialistas, o crack tem relação direta com o fenômeno e precisa ser combatido com ações contínuas de repressão ao tráfico e tratamento aos usuários. 

"Não adianta fazer ação de marketing e suspender a iniciativa quando acaba o interesse da mídia", afirmou o cientista político Guaracy Mingardi, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública. O programa mineiro, lançado em agosto passado, foi a aposta do governo no combate à droga. Após quatro meses de atuação, as abordagens de rua foram suspensas. "É preciso fazer um movimento permanente de prevenção, assim como foi feito com a nicotina, diminuindo muito o número de fumantes. Além de acabar com as rotas de entrada da droga", completou.

Para a psiquiatra Ana Cecilia Tetta Roselli, antes de fazer a busca ativa aos usuários nas ruas, é necessário primeiro melhorar o tratamento. "Estamos falando de uma doença crônica e complexa que só é estabilizada após pelo menos 12 meses de tratamento intensivo. O paciente precisará de acompanhamento anual e para a vida toda", orientou. Em Minas, o período de internação dos usuários dura em média 6 meses.

Segundo o psiquiatra Maurício Viotti, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a cada dez dependentes internados, apenas dois conseguem se recuperar. "Ainda assim, já é alguma coisa. É preciso tentar", afirmou.

No entanto, alguns dependentes se dizem desamparados há anos. É o caso do servente de pedreiro Aguinaldo Resende, 25, que há pelo menos 13 anos usa a droga. Nesse tempo todo, ele afirma que apenas uma vez foi abordado por uma assistente social. Na terça passada, 25, ele estava sentado em uma calçada suja na cracolândia do complexo da Lagoinha, na região Noroeste, visivelmente drogado. "Se tivesse ajuda, é claro que eu aceitaria", disse. (LC)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tratamento contra vício de crack ainda desafia a medicina

Resultados positivos entre dependentes da droga são verificados, em média, em só um terço dos pacientes. / Profissionais de saúde questionam o que pode ser considerado eficaz quando o assunto é a recuperação do usuário.
Cláudia Collucci (Folha de São Paulo)

Não existe um tratamento único e ideal para o crack. Medicamentos e terapias carecem de mais evidências científicas, e o resultado final é pouco animador: só um terço dos doentes "se cura".
O vácuo terapêutico é apenas mais um ponto nebuloso quando se fala da dependência química. O próprio conceito de um tratamento eficaz ainda é motivo de debates.
"O que é eficácia? Tenho dependente que já passou por tratamento e que continua usando drogas eventualmente. Mas tem vida familiar, profissional, social. Um outro alcançou a abstinência, mas não trabalha, não sai de casa. Qual teve mais sucesso?", questiona André Malbergier, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Desde 3 de janeiro, quando começou a mais recente operação policial na região conhecida como cracolândia, no centro paulistano, 80 dependentes foram internados.
Segundo a prefeitura, de julho de 2009, quando, conjuntamente a outra operação da PM, agentes de saúde passaram a atuar na área, até o início da atual operação foram quase 3.000 internações.
Os resultados em São Paulo se assemelham aos registrados em outros locais do mundo: a porcentagem de viciados que conclui o tratamento não chega a 35%.
RECAÍDAS
Há consenso de que recaídas integram o processo. Após um ano de tratamento, 60% dos pacientes têm recaída.
"A meta é abstinência, mas recaídas não significam voltar tudo para trás. É como tratar diabético ou hipertenso", diz a psiquiatra Ana Cecilia Roselli Marques, da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas).
É o que também pensa o professor Richard Mattick, referência mundial em estudos de álcool e drogas. "As pessoas querem uma cura, mas nós não vamos conseguir isso para a grande maioria. Temos métodos para manejá-la, como outras doenças crônicas."
Cura, aliás, é palavra em desuso entre especialistas. "Preferimos falar em abstinência estável", diz o psiquiatra Marcelo Ribeiro, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e um dos organizadores do livro "O tratamento do usuário do crack". Segundo ele, o processo de desintoxicação é só o começo de um tratamento longo que estará fadado ao fracasso se não houver suporte psicossocial associado. "E estamos falando de pessoas que, em geral, já romperam todos os laços sociais", afirma.
DIRETRIZ
No ano passado, a Sociedade Brasileira de Psiquiatria lançou uma diretriz que define como os médicos devem tratar os usuários de crack.
Entre as orientações, há a indicação de tratamento de desintoxicação imediato e de múltiplas ações terapêuticas.
As recomendações gerais são baseadas em experiências nacionais e internacionais, mas poucos serviços públicos de saúde as aplicam.
São Paulo chegou a adotar as diretrizes em um projeto-piloto desenvolvido na cracolândia, mas depois recuou.
Ana Cecilia Marques, que fez parte do projeto, lamenta. "Tínhamos dobrado a taxa de adesão ao tratamento. Tudo voltou à estaca zero. Os tratamentos atuais não seguem as boas práticas."
Rosangela Elias, coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, nega que tenha havido prejuízo. "Há várias metodologias. Não há certo ou errado. Temos equipes qualificadas."
Outro ponto de divergência é sobre as internações involuntárias (sem o consentimento do paciente). Há grupos contrários à iniciativa, mas os que defendem esse recurso encontram respaldo.
A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera a opção em casos de risco à vida do dependente químico. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também já se posicionou favorável à medida.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Grávidas do crack

Operação expõe o drama de dezenas de mulheres que consomem a droga com seus filhos na barriga; medicina ainda não mapeou as sequelas nas crianças.

CLÁUDIA COLLUCCI, ROGÉRIO PAGNAN

Fotos Fabio Braga/Folhapress


Lilian pode dar à luz a qualquer momento. 
Faz um mês que Lucas deixou de usar sedativos. Ao nascer, o franzino bebê, agora com quatro meses, era agitado, chorava muito, sofria tremores e taquicardia, sintomas da abstinência.


Lucas é filho de uma usuária de crack e "consumiu" a droga durante os sete meses de vida uterina. Nasceu prematuro, com apenas 1,8 kg.

Também apresenta atraso no desenvolvimento e deficiência motora, o que dificulta a amamentação. Os médicos não sabem se as sequelas de Lucas serão permanentes.

O impacto do crack na gestação tem sido objeto de vários estudos nas últimas três décadas, mas ainda há controvérsia sobre os efeitos a longo prazo na criança.

A questão é: como separar as sequelas da droga de outros fatores também presentes na vida da gestante dependente, como alcoolismo, tabagismo e desnutrição?

"Não há dúvida de que pode haver efeitos devastadores. Mas não podemos definir o quanto é do crack, isoladamente, e o quanto está relacionado a maus hábitos que a gestante desenvolveu por conta da dependência", diz a médica Silvia Regina Piza Jorge, chefe da clínica de pré-natal da Santa Casa de São Paulo.


A operação policial iniciada em 3 de janeiro jogou luz sobre as dezenas de grávidas dependentes que perambulam pelo centro paulistano atrás da droga -são pelo 20, segundo a PM e a prefeitura, só na área da cracolândia.

Os bebês dessas mulheres tendem a nascer prematuros e com atraso de desenvolvimento. Também têm mais chances de apresentar sequelas neurológicas, retardo mental, deficit de aprendizagem e hiperatividade.


A preocupação dos especialistas é que os bebês não fiquem estigmatizados. "Não se deve criar uma expectativa negativa sobre o futuro desses bebês. Um ambiente afetuoso, estimulante e acolhedor é essencial para desenvolver o potencial de qualquer criança", diz o psiquiatra infantil Ronaldo Rosa.

ABORTO
Grávidas usuárias de crack sofrem mais riscos de aborto, hemorragias e de descolamento de placenta. A situação é agravada porque a maioria delas não faz o pré-natal.

"São pacientes em uma grave situação de vulnerabilidade social, com rompimento de laços com a família e com a comunidade", diz Corintio Mariani Neto, diretor da maternidade estadual Leonor Mendes de Barros.
"É uma aberração. A gente não vê essa situação em outros países do mundo", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, referindo-se às grávidas da cracolândia.

Estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com dez grávidas que vivem na cracolândia, obtido com exclusividade pela Folha, mostra que apenas duas estão fazendo o pré-natal.
Todas elas engravidaram na região central de São Paulo. No mês passado, quando foram feitas as entrevistas da Unifesp, sete estavam entre o quarto e o sexto mês de gestação. Apenas uma concluiu o ensino fundamental.

Cinco das gestantes sabem quem é o pai do filho: parceiros do crack. Oito já tinham filhos e três haviam sofrido abortos anteriores. Seis grávidas fumavam até dez pedras por dia. As demais chegavam a consumir 20 pedras.
Metade das gestantes financia o consumo de crack pedindo esmola e ou trocando sexo pela droga.


Segundo o psiquiatra Marcelo Ribeiro, coordenador do estudo, metade das grávidas aceitaria tratamento para dependência química, mas grande parte (sete) acha que consegue parar sem a necessidade de internação.
Se a cracolândia acabasse, para onde você iria?, perguntaram os pesquisadores. Todas responderam: para outra cracolândia ou para qualquer outro lugar que tenha crack.

Seis em dez viciados passaram por tratamento

Seis em cada dez dependentes de crack da região central de São Paulo já passaram por tratamento, mas estão novamente nas ruas usando a droga.
É o que revela uma pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com 170 usuários da cracolândia, feita no mês passado.
Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores, o trabalho revela uma "cronificação" da dependência. Entre os entrevistados, 42% são usuários de longa data -entre 10 e 20 anos.
Na visão dos psiquiatras, o alto índice de recaídas não é uma surpresa. Dados da literatura indicam que 50% dos dependentes do crack recaem no primeiro ano.
Além da dificuldade natural em tratar o doente (a síndrome da abstinência é intensa, e muitos desistem do tratamento), a qualidade da terapia oferecida é questionada por especialistas.
"Os tratamentos são desatualizados, não adotam as boas práticas recomendadas pela medicina baseada em evidência", afirma a psiquiatra Ana Cecília Roselli Marques, da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas).
Marques participou de um projeto-piloto na cracolândia por 12 meses, mas, no final, a prefeitura rompeu a parceria com os pesquisadores.
A proposta de terapia envolvia várias frentes. A primeira era tratar, além da dependência ao crack, os vários problemas de saúde associados à droga, como outros distúrbios psiquiátricos, desnutrição e alterações cardíacas.
"O ideal seria ter um modelo de hospital-dia, onde a pessoa passaria o dia e depois iria para uma moradia assistida. O que não dá é para ele voltar para a rua", afirma.
Depois dessa fase, que dura três semanas, começa o treinamento para evitar as recaídas, que vai durar de seis a oito meses. A terceira fase é de manutenção. "É como qualquer doente crônico, tem que ser cuidado o resto da vida", diz Marques.
Segundo Rosangela Elias, coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, o município dispõe de equipes e de serviços qualificados no enfrentamento e tratamento do crack.
"Não existe milagre. O processo vai do tratamento à reinserção social. Quem dá emprego para uma pessoa que ficou cinco anos morando na cracolândia?"
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Como parei de fumar


Personalidades revelam como conseguiram se livrar do vício que atormenta 25 milhões de brasileiros. Qual estratégia combina com você?
Cristiane Segatto -  Revista Época -05/12/12
Meu primeiro cigarro foi presente da indústria do tabaco. Tinha 14 anos quando fui abordada na porta da escola, na Zona Norte de São Paulo, pela propagandista de uma marca nova. A moça era mais bonita, mais velha e, sobretudo, parecia mais segura que eu. Vestia um macacão fashion, com um grande bolso na altura do peito. De lá, tirou uma amostra grátis com três cigarros e me ofereceu. Naquele instante, de nada adiantou ter sido educada numa família não fumante. Enfiei a caixinha no bolso e corri para o quintal de casa. Sentada no chão e torcendo para ninguém aparecer, acendi um cigarro. Por sorte ou por genética, tossi, odiei o sabor e a experiência. Nunca mais tentei.
Poderia ter sido diferente. Hoje, poderia ser um dos 25 milhões de brasileiros dependentes de nicotina. A maioria luta para se livrar do vício e fracassa. Sou do tempo em que a indústria se achava no direito de viciar crianças na porta da escola. Daquela tarde de1984 para cá, muita coisa mudou. Leis foram aprovadas para inibir a propaganda e o consumo de cigarros. A população fumante caiu de 35% em 1989 para 15% em 2011. Cresceu a consciência sobre os males do tabagismo, a principal causa evitável de morte em todo o mundo. Um em cada dois fumantes morre de doenças cardiovasculares, câncer e uma lista enorme de males associados ao vício. São 5 milhões de óbitos por ano – 200 mil deles no Brasil.
Para ajudar os que decidiram se livrar do vício, ÉPOCA selecionou histórias inspiradoras de personalidades que abandonaram o cigarro. Eles serão dependentes para sempre, mas, no momento, são exemplos de sucesso. As estratégias adotadas são as mais variadas. Elas demonstram que não existe uma fórmula única e vencedora. Um fenômeno, infelizmente, não se alterou: a idade precoce da primeira experiência. Em algumas capitais, ela ocorre por volta dos 13 anos. No interior, aos 10. O vício se instala na adolescência, antes que o indivíduo tenha maturidade para tomar decisões conscientes. Fumar ou não fumar não é, ao que parece, questão de escolha.
Drauzio Varella { 68 ANOS } - Médico
"Comecei a fumar aos 17 anos. Era tímido e nunca sabia o que fazer com as mãos nas festinhas. O cigarro me ajudava a sentir segurança. Tinha prometido parar quando começasse a tossir – acho horrível a tosse de fumante. Um dia voltei do trabalho e encontrei minhas filhas (na época com 4 e 2 anos) me esperando no hall do elevador. Morávamos no 10º andar. Elas disseram que sabiam que eu estava chegando porque reconheciam minha tosse. Ouviam o som desde lá de baixo. Era cancerologista e vivia com o maço de cigarros no bolso. Que moral tinha para mandar o paciente parar? Decidi parar na noite em que eu e um amigo que havia infartado fumamos dois maços. Nos primeiros dias, sentia vontade, ficava irritado. Não usei remédio, adesivo, nada. Parar foi fácil. O difícil foi tomar a decisão. Passei os 12 anos seguintes pedindo para meu irmão (o médico Fernando Varella) parar. Ele não parou e diagnosticou nele mesmo um câncer de pulmão. Em nove meses, estava morto."
Neto {45 ANOS }  - Ex-jogador de futebol
"Tinha 17 anos quando comecei. Fui lá, comprei um maço, gostei e não parei mais. Fumei até os 38, todo o período em que joguei. Nunca tinha tentado parar. Até que uma história mexeu comigo. Jogava truco toda segunda-feira com amigos de Santo Antônio de Posse, e um deles comentou que o médico tinha dito ao Edmur, um amigão meu, que ele tinha cinco anos de vida se parasse de fumar. Ele morreu 15 dias depois. Abri a janela e joguei o maço de cigarros fora. Nunca mais fumei. Não quero que minha filha perca o pai por causa de cigarro. Mas é só falar em cigarro que dá água na boca. Não acredito em nenhum desses métodos. O que manda é a vontade."
(Washington Olivetto { 60 ANOS } - Publicitário e presidente da agência WMcCann
"Comecei a fumar aos 18 anos, logo que entrei na faculdade. Queria impressionar as meninas. Na época, as mulheres estavam começando a fumar, e eu não tinha cigarro a oferecer. Aí resolvi provar também. Fumei um maço e meio até 2001, quando fui sequestrado. Fiquei 53 dias confinado sem nem um cigarro sequer. E não me importei. Estava angustiado com coisas muito mais importantes que meu vício. Logo que saí dali, pensei que tiraria pelo menos alguma coisa boa daquilo tudo, e não fumei mais cigarro. Desde o sequestro, só fumo charutos. Elejo datas muito especiais, como meu aniversário, Natal e Ano-Novo, e, mesmo assim, fumo bem pouco. Tem uma conotação diferente de consumo, é outra história. A legislação brasileira para a publicidade do cigarro é bastante adequada. As pessoas devem ter senso crítico para decidir o que querem fazer. Vale refletir sobre um raciocínio simples: uma coisa que custa menos de R$ 4 e vem em 20 unidades não pode ser boa para você."
João Gordo { 47 ANOS } - Apresentador de TV e músico
"Comecei a fumar aos 15, com uns moleques punks, e fumei três maços por dia por 20 anos. O cigarro é a droga mais forte que existe, pior que heroína e cocaína. Já cheguei a ir a pontos de ônibus na madrugada para pegar bitucas no chão. Parei em 2000, quando tive um derrame pleural e fiquei 23 dias internado. Foi uma combinação de drogas com obesidade mórbida e uma costela quebrada. Mas foi o cigarro que me assustou. O médico tirou do meu pulmão 900 mililitros de nicotina com sangue – vi aquilo e fiquei traumatizado. Decidi parar. Não tive recaídas e sentia náuseas com o cheiro da fumaça. Mas bastou colocar um cigarro na boca para tudo voltar. Fumei escondido da minha mulher por três anos. Só melhorei no ano passado, depois de uma psiquiatra me receitar um ansiolítico. O remédio segura a barra, mas ainda é complicado parar de uma vez. A indústria do cigarro devia fechar suas portas e indenizar."

Bom Retiro terá complexo para viciado em crack

Espaço tem condições de abrigar todos os dependentes da cracolândia, diz secretária
Em janeiro, a Prefeitura de São Paulo vai inaugurar um complexo de acolhida para usuários de crack a pouco mais de um quilômetro da cracolândia, no final da rua Prates, no Bom Retiro (centro).

Com 12 mil m² -área equivalente a três campos de futebol-, o local será o primeiro a agrupar equipamentos de assistência social e de saúde.
Terá centro de convivência com quadra poliesportiva, biblioteca e jogos, albergue para 120 pessoas, AMA (Assistência Médica Ambulatorial) e Caps-AD (Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas). O terreno era um antigo estacionamento de ônibus e já pertencia à prefeitura.
Entre reformas e construções, a Secretaria de Assistência Social diz ter investido no projeto cerca de R$ 5 milhões.
A AMA e o Caps terão 120 profissionais da saúde e 11 leitos para internação e observação. Funcionarão 24h.
Segundo a secretária Alda Marco Antônio, o centro de convivência terá capacidade para 1.200 pessoas. "Se todos da cracolândia quiserem vir, esse espaço tem condição".
Esse centro, afirma ela, tem o objetivo de atrair os usuários para um ambiente onde tenham contato com assistentes sociais e agentes de saúde, que tentarão identificá-los e convencê-los a permitir acompanhamento psicossocial.
A segunda etapa, explica, é convencê-los a dormir no albergue. Depois, com o dependente mais habituado a uma rotina de banho, refeição à mesa, TV, diz Alda, é possível entrar em contato com a família e tentar a reaproximação. Se a pessoa for de outra cidade, o Estado vai ajudar no contato.
Agentes da prefeitura farão um trabalho de aproximação e convencimento, para tentar levar usuários de crack até o local. A decisão tanto de entrar quanto de sair, a qualquer momento, é do usuário, diz Alda.
Mas os médicos do Caps têm a liberdade de decidir se o caso é de internação involuntária -quando o dependente é uma ameaça para a própria vida ou de outra pessoa. Basta que emitam laudo e comuniquem a Promotoria.
ILHA
Para a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras drogas, a ideia de uma "ilha do crack" assusta. "Não sou a favor de locais que estigmatizam. Isso pode virar um depósito [de viciados]."
Os recursos usados, defende ela, seriam mais bem aplicados no treinamento das equipes de CAPs e AMAs que já existem no entorno. Mas ela vê como positiva a criação de um albergue para usuários de crack, pois unidades comuns não costumam aceitá-los.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Epidemia do crack ganha plano de emergência

Diário de São Paulo - 08/12/2011

Governo Federal apresenta projeto de combate à droga, que já é a mais consumida no estado de São Paulo Reinaldo Chaves/Agência BOM DIA

O crack já é a droga ilícita mais consumida no Estado de São Paulo, em municípios de todos os portes. O governo federal lançou ontem  um novo plano nacional para o enfrentamento do crack, com ações importantes, porém, com propostas já apresentadas em outras oportunidades e também insuficientes para o Estado.

No primeiro semestre deste ano, a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack mostrou que em 79% dos municípios paulistas há falta de leitos hospitalares do SUS (Sistema Único de Saúde) destinados aos dependentes químicos.

O plano federal lançado ontem, chamado de “Crack, é possível vencer”, prevê investimentos de R$ 4 bilhões da União. Até 2014, o Ministério da Saúde repassará recursos para que estados e municípios criem 2.462 leitos. Muito pouco diante da magnitude do problema. O Ministério da Saúde não informou quantos leitos estão previstos para São Paulo.

Ana Cecília Marques, psiquiatra da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas), estima que no Estado de São Paulo há pelo menos 6 milhões de usuários de drogas. “A única pesquisa nacional abrangente, de 2007, feita pelo Cebrid [Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas], com dados só do álcool, mostra a necessidade de cerca de 200 mil leitos. Ou seja, temos no Estado um déficit gigantesco de leitos”, comenta.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, há 400 leitos de internação e só 68 CAPSad (Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas) no Estado.

Falta de gestão
Os CAPSad realizam tratamento ambulatorial com verba do governo federal. O governo estadual só capacita os profissionais que trabalham nestes locais.

A instalação de um CAPSad depende da apresentação de um projeto por parte do município. Ana Cecília conta que muitas vezes existe a verba federal para esse fim, mas as cidades não vão atrás. “Isso ocorre porque a maioria das cidades paulistas não possui dados precisos sobre as drogas, então nem conseguem pedir verbas. É um problema grave de gestão”, diz.

O governo estadual afirma que vai ampliar os leitos de internação. A meta é criar mais 400 até 2012 com investimento de R$ 200 milhões. Segundo a Secretaria de Saúde, é realizado um trabalho de mapeamento de áreas com mais necessidade de atendimento. A cidade de Botucatu e o Hospital das Clínicas de São Paulo foram os primeiros locais escolhidos.

Medida prevê sistema de informações
A presidente Dilma Rousseff e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) anunciaram ontem também que será feito um serviço de levantamento de dados para definir número de usuários e o funcionamento do consumo em locais de concentração do comércio de crack. Será criado ainda o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas)  sobre a situação da segurança pública no país.

Governo quer uso maior de bens do tráfico
Ontem também foi anunciado o envio ao Congresso do projeto de lei para agilizar o processo de alienação dos bens que são produto do tráfico de drogas. A mesma proposta vai dar mais agilidade no procedimento de destruição de drogas apreendidas.

Internação à força passa a ser aceita pelo governo
Um ponto polêmico da luta contra às drogas, a internação involuntária de usuários, foi abordado ontem em Brasília na apresentação do plano “Crack, é possível vencer”. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, serão criados 308 Consultórios de Rua, com médicos, psicólogos e enfermeiros, que farão busca ativa de dependentes e avaliarão se a internação pode ser voluntária (com o aval do usuário) ou involuntária (contra a vontade do paciente).

“A própria lei autoriza esse tipo de internação por medida de proteção à vida. Os Consultórios de Rua farão uma avaliação sobre o risco à vida da liberação do dependente químico”, disse o ministro, ontem, durante o evento.

Outra ação do governo será facilitar o acesso por telefone a informações sobre drogas. O atendimento telefônico VivaVoz, que auxilia e orienta usuários e familiares de dependentes, passará de 0800 para o número de três dígitos 132. Mais informações no site www.brasil.gov.br/enfrentandoocrack.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

AS REVELAÇÕES SOBRE O CÉREBRO ADOLESCENTE

Novas pesquisas decifram as transformações cerebrais que acontecem na adolescência, explicam comportamentos típicos e sugerem como lidar com eles.

O que faz uma garota de 14 anos passar o dia inteiro emudecida, trancada no quarto? Ou ir do riso à fúria em menos de um segundo? Pode ser realmente difícil entender a cabeça de um adolescente. Para ajudar nesta tarefa, a ciência está empreendendo um esforço fantástico. Nos Estados Unidos, ele está sendo capitaneado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH). O órgão – um dos mais respeitados do mundo – está patrocinando uma linha de estudos focada na busca de informações para compreender o que está por trás das oscilações de humor e comportamentos de risco que marcam a adolescência. E as informações trazidas pelos estudos realizados até agora estão construindo uma nova visão da metamorfose sofrida pelos jovens. “O cérebro do adolescente não é um rascunho de um cérebro adulto. Ele foi primorosamente forjado por nossa história evolutiva para ter características diferenciadas do cérebro de crianças e de adultos”, disse à ISTOÉ o neurocientista americano Jay Giedd, pesquisador do NIMH e um pioneiro na investigação do cérebro adolescente.

Giedd e seus colegas estão redefinindo os conceitos da medicina sobre essa fase da vida. Para eles, os tropeços da adolescência são sinais de que o cérebro jovem está procurando se adaptar ao ambiente. Nos primeiros 13 anos de pesquisa, os cientistas estudaram mudanças cerebrais ocorridas do nascimento até a velhice, na saúde e na doença. Descobriram que a adolescência é marcada por um aumento das conexões entre diferentes partes do cérebro. É um processo de integração que continuará por toda a vida, melhorando o trabalho conjunto entre as partes.
 
As pesquisas revelaram ainda que, nessa etapa, dá-se o fortalecimento e amadurecimento de algumas redes de neurônios (as células nervosas que trocam informações entre si) e o abandono de outras, menos usadas. Os estudos mostraram também que a onda de maturidade se inicia nas partes mais profundas e antigas, próximas do tronco cerebral, como os centros da linguagem, e naquelas ligadas ao processamento de emoções como o medo. Depois, essa onda vai subindo rumo às áreas mais recentes do cérebro, ligadas ao pensamento complexo e à tomada de decisões. Entre elas estão o córtex pré-frontal, o sulco temporal superior e o córtex parietal superior, envolvidos na integração de informações enviadas por outras estruturas do órgão. Essa evolução explica, em parte, por que nesse período da vida a impulsividade e os sentimentos mais viscerais são manifestados com tanta facilidade, sem passar pelo filtro da razão.

Na tentativa de elucidar por que os jovens atravessam o período de crescimento como se estivessem em uma montanha-russa, um dos aspectos mais estudados é a tendência de se expor a riscos. No começo da empreitada científica para decifrar os segredos do cérebro adolescente, acreditava-se que a falta de noção do perigo iminente estivesse associada à falta de amadurecimento do córtex pré-frontal, área ligada à avaliação dos riscos que só atinge o desenvolvimento pleno por volta dos 20 anos. O avanço das pesquisas, porém, está demonstrando que por volta dos 15 anos os jovens conseguem perceber o risco da mesma forma e com a mesma precisão que um adulto.

Se sabem o que está acon­tecendo, por que os jovens se colocam em situações ameaçadoras? Embora as habilidades básicas necessárias para perceber os riscos estejam ativas, a capacidade de regular o comportamento de forma consistente com essas percepções não está totalmente madura. “Na adolescência, os indivíduos dão mais atenção para as recompensas em potencial vindas de uma escolha arriscada do que para os custos dessa decisão”, disse à ISTOÉ Laurence Steinberg, professor de psicologia da Universidade Temple, especializado em desenvolvimento adolescente e autor de “Os Dez Princípios Básicos para Educar seus Filhos”. Steinberg é um dos mais destacados estudiosos da adolescência na atualidade.

A afirmação do pesquisador está sustentada em exames de imagem que assinalam, no cérebro adolescente, uma intensa atividade em áreas ligadas à recompensa. Por recompensa, entenda-se a sensação prazerosa que invade o corpo e a mente após uma vitória, como ganhar no jogo ou ser reconhecido como o melhor pelo grupo. Esse processo coincide com alterações das quantidades de dopamina, um neurotransmissor (substância que faz a troca de mensagens entre os neurônios) muito importante na experiência do prazer ou recompensa. “Isso parece afetar o processo de antecipação do prêmio, de tal forma que os adolescentes se sentem mais animados do que os adultos quando percebem a possibilidade do ganho”, diz o psicólogo americano.

Ele também foi buscar na teoria da evolução a justificativa para o mecanismo cerebral que premia os jovens com sensações agradáveis por se arriscarem. “No passado, levavam vantagem sobre outros da espécie aqueles que se deslocavam e assumiam riscos em busca de um lugar com mais alimento”, pontua. “A busca por novidade e fortes emoções representaria, à luz da teoria da evolução, um sinal da capacidade de adaptação dos seres humanos a novos ambientes.” Nosso cérebro teria aprendido esse caminho e estaria reproduzindo-o até hoje. Descobertas ainda mais recentes mostram que a recompensa mexe profundamente com o cérebro. “Todas as áreas do cérebro são afetadas quando uma atitude é recompensada ou penalizada socialmente”, disse à ISTOÉ Timothy Vickery, um dos autores de um trabalho recente publicado na revista “Neuron”.  

Paralelamente à configuração cerebral, existem as contribuições do mundo contemporâneo para a tendência ao prazer imediato. “Talvez as dificuldades da vida futura e do mercado de trabalho, por exemplo, levem o jovem a uma situação de viver o prazer imediato. Daí a busca pela bebida, pela droga, pelo sexo e tudo o mais no sentido de se aproveitar a vida”, diz o hebiatra (médico especializado em adolescentes) Paulo César Pinho Ribeiro, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. De fato, por volta dos 15 anos, dá-se o pico da busca por emoções fortes. A psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira do Estudo de Álcool e Drogas, defende uma ação firme nesse momento. “Os pais devem assumir o seu papel e não deixar que os jovens fumem ou bebam”, diz.
O caminho para enfrentar essa questão é o diálogo. No Colégio Peretz, em São Paulo, a estratégia de conversar longamente sobre os riscos do consumo de álcool e drogas existe há dez anos. “A proposta é acompanhar os jovens e esclarecer as dúvidas que surgem durante esse período”, diz Evelina Holender, coordenadora do projeto.

A busca de emoções e o desejo de ser aceito e admirado pelos outros – duas características do adolescente – podem se converter numa mistura explosiva. O psicólogo Steinberg demonstrou claramente esse mecanismo com o auxílio de um jogo de videogame cuja proposta era dirigir um carro pela cidade no menor tempo possível. No percurso, os sinais mudavam de verde para amarelo quando o carrinho se aproximava. Se o competidor cruzasse o sinal antes de ele ficar vermelho, ganhava pontos. Se ficasse no meio da pista ou na faixa, perdiam-se muitos pontos. Ao disputarem os jogos a sós em uma sala, os jovens assumiram riscos na mesma proporção que os adultos. Mas com a presença de um ou mais amigos no ambiente houve mudança nos resultados. “Nessa circunstância, os adolescentes correram o dobro dos riscos dos adultos”, observou o pesquisador.

O papel do grupo na adolescência também está sendo examinado. “Por volta dos 15 anos, registra-se o pico de atividade dos neurônios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento de outras pessoas e que levam à sua repetição”, diz o neurologista Erasmo Barbante Casella, do Hospital Albert Einstein e do Instituto da Criança da Universidade de São Paulo. Esse é um dos motivos pelos quais os jovens adotam gestos e roupas similares. Além disso, há a grande necessidade de ser aceito pelos amigos e o peso terrível da rejeição. “É uma fase na qual a identidade não está absolutamente constituída, e o grupo acaba sendo o meio para experimentar e também uma lente pela qual o adolescente lê o mundo”, diz a psicóloga Joana Novaes, da PUC-Rio de Janeiro. Estudos apontam que há também uma grande quantidade de oxitocina, hormônio relacionado às ligações sociais e formação de vínculos, circulando no organismo, o que favoreceria a tendência de andar em turma.
Afora o prazer de correr perigo e dos altos e baixos humorais, a adolescência pode ser vista como uma fase de altíssima resiliência, que é a capacidade de se adaptar e sobreviver às dificuldades. Mas há desvantagens. O lado complicado é que o adolescente que passa por tantas transformações está mais vulnerável ao aparecimento de alterações como depressão, ansiedade e transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. Na semana passada, um estudo do NIMH feito com 10 mil jovens com idades entre 13 e 18 anos revelou que 12% apresentavam sintomas de fobia social, um transtorno de ansiedade que afasta os jovens do convívio. No estudo, 5% dos jovens confundiam os sintomas da alteração com timidez.

Ainda não se sabe qual é o impacto do grande volume de novas informações na conduta prática adotada por pais e profissionais ligados aos jovens, como professores e psicólogos. Mas já existem algumas mudanças em curso. Com base em algumas das descobertas, no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto da Criança, por exemplo, Casella procura orientar os pais a prestar mais atenção às companhias dos filhos. “Existe realmente uma tendência a copiar comportamentos. E os pais precisam interferir nisso”, diz o especialista.

É sabido também que o universo de possibilidades do cérebro adolescente será mais amplo se a criança tiver recebido suporte emocional e familiar, boa alimentação e acesso à educação. “Como na construção de uma casa, o resultado é melhor quando se tem bons alicerces. Por isso é importante estar atento ao desenvolvimento infantil”, disse à ISTOÉ o pediatra Jack Scho­noff, diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard (EUA). Quem passou por carências também tem uma espécie de segunda chance para acertar o passo do desenvolvimento na adolescência, embora com limitações. “Não é possível voltar atrás, mas dar os estímulos adequados ao adolescente irá ajudá-lo a chegar mais perto do seu potencial máximo”, disse Schonoff. Na semana passada, o especialista veio ao Brasil para lançar uma parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, envolvida em iniciativas para o desenvolvimento integral da criança.

Por mais que as crises se sucedam, se uma boa comunicação tiver sido cultivada ano após ano, haverá maior proximidade entre pais e filhos. “A crise é um sinal de saúde. O adolescente deve contestar e confrontar os pais, porque isso faz parte da reformulação pela qual ele está passando”, diz a psicanalista da infância Ana Maria Brayner Iencarelli, do Rio de Janeiro. Outra opção que se tem mostrado eficiente para auxiliar os adolescentes a atravessar esse período da vida são cursos que orientam sobre como criar coletivamente, planejar um evento, montar um show ou criar um blog, por exemplo. Não é por acaso que iniciativas estão se popularizando mundialmente. Pesquisas da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, referendam essa diretriz. “Adolescentes engajados em atividades que exigem criatividade aprendem a planejar e lidar com situações inesperadas”, diz Reed Larson, professor do departamento de Desenvolvimento Humano e Comunitário da universidade americana.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool

Morar sozinho está associado a um risco substancialmente aumentado de mortalidade relacionada ao álcool – independentemente do sexo, nível socioeconômico ou a causa específica da morte.
Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.
Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.
Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.
A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.
“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.
— O que já se sabia sobre o assunto
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.
Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”
Especialista: Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas
Envolvimento com o assunto: Autora de pesquisas sobre o consumo de álcool e outras drogas entre jovens brasileiros, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas e coordenadora do Departamento de Dependências da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)
— Conclusão
Ter relações sociais fora de casa é importante para o bem-estar de qualquer pessoa. Morar com a família ou ser casado pode ajudar a controlar um possível abuso do álcool e faz com que mais pessoas estejam atentas a um comportamento depressivo. Outros fatores de risco, porém, devem ser considerados antes de determinar se uma pessoa tem ou não risco de morrer em decorrência do abuso de álcool.
Por Natalia Cuminale