segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bom Retiro terá complexo para viciado em crack

Espaço tem condições de abrigar todos os dependentes da cracolândia, diz secretária
Em janeiro, a Prefeitura de São Paulo vai inaugurar um complexo de acolhida para usuários de crack a pouco mais de um quilômetro da cracolândia, no final da rua Prates, no Bom Retiro (centro).

Com 12 mil m² -área equivalente a três campos de futebol-, o local será o primeiro a agrupar equipamentos de assistência social e de saúde.
Terá centro de convivência com quadra poliesportiva, biblioteca e jogos, albergue para 120 pessoas, AMA (Assistência Médica Ambulatorial) e Caps-AD (Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas). O terreno era um antigo estacionamento de ônibus e já pertencia à prefeitura.
Entre reformas e construções, a Secretaria de Assistência Social diz ter investido no projeto cerca de R$ 5 milhões.
A AMA e o Caps terão 120 profissionais da saúde e 11 leitos para internação e observação. Funcionarão 24h.
Segundo a secretária Alda Marco Antônio, o centro de convivência terá capacidade para 1.200 pessoas. "Se todos da cracolândia quiserem vir, esse espaço tem condição".
Esse centro, afirma ela, tem o objetivo de atrair os usuários para um ambiente onde tenham contato com assistentes sociais e agentes de saúde, que tentarão identificá-los e convencê-los a permitir acompanhamento psicossocial.
A segunda etapa, explica, é convencê-los a dormir no albergue. Depois, com o dependente mais habituado a uma rotina de banho, refeição à mesa, TV, diz Alda, é possível entrar em contato com a família e tentar a reaproximação. Se a pessoa for de outra cidade, o Estado vai ajudar no contato.
Agentes da prefeitura farão um trabalho de aproximação e convencimento, para tentar levar usuários de crack até o local. A decisão tanto de entrar quanto de sair, a qualquer momento, é do usuário, diz Alda.
Mas os médicos do Caps têm a liberdade de decidir se o caso é de internação involuntária -quando o dependente é uma ameaça para a própria vida ou de outra pessoa. Basta que emitam laudo e comuniquem a Promotoria.
ILHA
Para a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras drogas, a ideia de uma "ilha do crack" assusta. "Não sou a favor de locais que estigmatizam. Isso pode virar um depósito [de viciados]."
Os recursos usados, defende ela, seriam mais bem aplicados no treinamento das equipes de CAPs e AMAs que já existem no entorno. Mas ela vê como positiva a criação de um albergue para usuários de crack, pois unidades comuns não costumam aceitá-los.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Epidemia do crack ganha plano de emergência

Diário de São Paulo - 08/12/2011

Governo Federal apresenta projeto de combate à droga, que já é a mais consumida no estado de São Paulo Reinaldo Chaves/Agência BOM DIA

O crack já é a droga ilícita mais consumida no Estado de São Paulo, em municípios de todos os portes. O governo federal lançou ontem  um novo plano nacional para o enfrentamento do crack, com ações importantes, porém, com propostas já apresentadas em outras oportunidades e também insuficientes para o Estado.

No primeiro semestre deste ano, a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack mostrou que em 79% dos municípios paulistas há falta de leitos hospitalares do SUS (Sistema Único de Saúde) destinados aos dependentes químicos.

O plano federal lançado ontem, chamado de “Crack, é possível vencer”, prevê investimentos de R$ 4 bilhões da União. Até 2014, o Ministério da Saúde repassará recursos para que estados e municípios criem 2.462 leitos. Muito pouco diante da magnitude do problema. O Ministério da Saúde não informou quantos leitos estão previstos para São Paulo.

Ana Cecília Marques, psiquiatra da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas), estima que no Estado de São Paulo há pelo menos 6 milhões de usuários de drogas. “A única pesquisa nacional abrangente, de 2007, feita pelo Cebrid [Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas], com dados só do álcool, mostra a necessidade de cerca de 200 mil leitos. Ou seja, temos no Estado um déficit gigantesco de leitos”, comenta.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, há 400 leitos de internação e só 68 CAPSad (Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas) no Estado.

Falta de gestão
Os CAPSad realizam tratamento ambulatorial com verba do governo federal. O governo estadual só capacita os profissionais que trabalham nestes locais.

A instalação de um CAPSad depende da apresentação de um projeto por parte do município. Ana Cecília conta que muitas vezes existe a verba federal para esse fim, mas as cidades não vão atrás. “Isso ocorre porque a maioria das cidades paulistas não possui dados precisos sobre as drogas, então nem conseguem pedir verbas. É um problema grave de gestão”, diz.

O governo estadual afirma que vai ampliar os leitos de internação. A meta é criar mais 400 até 2012 com investimento de R$ 200 milhões. Segundo a Secretaria de Saúde, é realizado um trabalho de mapeamento de áreas com mais necessidade de atendimento. A cidade de Botucatu e o Hospital das Clínicas de São Paulo foram os primeiros locais escolhidos.

Medida prevê sistema de informações
A presidente Dilma Rousseff e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) anunciaram ontem também que será feito um serviço de levantamento de dados para definir número de usuários e o funcionamento do consumo em locais de concentração do comércio de crack. Será criado ainda o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas)  sobre a situação da segurança pública no país.

Governo quer uso maior de bens do tráfico
Ontem também foi anunciado o envio ao Congresso do projeto de lei para agilizar o processo de alienação dos bens que são produto do tráfico de drogas. A mesma proposta vai dar mais agilidade no procedimento de destruição de drogas apreendidas.

Internação à força passa a ser aceita pelo governo
Um ponto polêmico da luta contra às drogas, a internação involuntária de usuários, foi abordado ontem em Brasília na apresentação do plano “Crack, é possível vencer”. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, serão criados 308 Consultórios de Rua, com médicos, psicólogos e enfermeiros, que farão busca ativa de dependentes e avaliarão se a internação pode ser voluntária (com o aval do usuário) ou involuntária (contra a vontade do paciente).

“A própria lei autoriza esse tipo de internação por medida de proteção à vida. Os Consultórios de Rua farão uma avaliação sobre o risco à vida da liberação do dependente químico”, disse o ministro, ontem, durante o evento.

Outra ação do governo será facilitar o acesso por telefone a informações sobre drogas. O atendimento telefônico VivaVoz, que auxilia e orienta usuários e familiares de dependentes, passará de 0800 para o número de três dígitos 132. Mais informações no site www.brasil.gov.br/enfrentandoocrack.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

AS REVELAÇÕES SOBRE O CÉREBRO ADOLESCENTE

Novas pesquisas decifram as transformações cerebrais que acontecem na adolescência, explicam comportamentos típicos e sugerem como lidar com eles.

O que faz uma garota de 14 anos passar o dia inteiro emudecida, trancada no quarto? Ou ir do riso à fúria em menos de um segundo? Pode ser realmente difícil entender a cabeça de um adolescente. Para ajudar nesta tarefa, a ciência está empreendendo um esforço fantástico. Nos Estados Unidos, ele está sendo capitaneado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH). O órgão – um dos mais respeitados do mundo – está patrocinando uma linha de estudos focada na busca de informações para compreender o que está por trás das oscilações de humor e comportamentos de risco que marcam a adolescência. E as informações trazidas pelos estudos realizados até agora estão construindo uma nova visão da metamorfose sofrida pelos jovens. “O cérebro do adolescente não é um rascunho de um cérebro adulto. Ele foi primorosamente forjado por nossa história evolutiva para ter características diferenciadas do cérebro de crianças e de adultos”, disse à ISTOÉ o neurocientista americano Jay Giedd, pesquisador do NIMH e um pioneiro na investigação do cérebro adolescente.

Giedd e seus colegas estão redefinindo os conceitos da medicina sobre essa fase da vida. Para eles, os tropeços da adolescência são sinais de que o cérebro jovem está procurando se adaptar ao ambiente. Nos primeiros 13 anos de pesquisa, os cientistas estudaram mudanças cerebrais ocorridas do nascimento até a velhice, na saúde e na doença. Descobriram que a adolescência é marcada por um aumento das conexões entre diferentes partes do cérebro. É um processo de integração que continuará por toda a vida, melhorando o trabalho conjunto entre as partes.
 
As pesquisas revelaram ainda que, nessa etapa, dá-se o fortalecimento e amadurecimento de algumas redes de neurônios (as células nervosas que trocam informações entre si) e o abandono de outras, menos usadas. Os estudos mostraram também que a onda de maturidade se inicia nas partes mais profundas e antigas, próximas do tronco cerebral, como os centros da linguagem, e naquelas ligadas ao processamento de emoções como o medo. Depois, essa onda vai subindo rumo às áreas mais recentes do cérebro, ligadas ao pensamento complexo e à tomada de decisões. Entre elas estão o córtex pré-frontal, o sulco temporal superior e o córtex parietal superior, envolvidos na integração de informações enviadas por outras estruturas do órgão. Essa evolução explica, em parte, por que nesse período da vida a impulsividade e os sentimentos mais viscerais são manifestados com tanta facilidade, sem passar pelo filtro da razão.

Na tentativa de elucidar por que os jovens atravessam o período de crescimento como se estivessem em uma montanha-russa, um dos aspectos mais estudados é a tendência de se expor a riscos. No começo da empreitada científica para decifrar os segredos do cérebro adolescente, acreditava-se que a falta de noção do perigo iminente estivesse associada à falta de amadurecimento do córtex pré-frontal, área ligada à avaliação dos riscos que só atinge o desenvolvimento pleno por volta dos 20 anos. O avanço das pesquisas, porém, está demonstrando que por volta dos 15 anos os jovens conseguem perceber o risco da mesma forma e com a mesma precisão que um adulto.

Se sabem o que está acon­tecendo, por que os jovens se colocam em situações ameaçadoras? Embora as habilidades básicas necessárias para perceber os riscos estejam ativas, a capacidade de regular o comportamento de forma consistente com essas percepções não está totalmente madura. “Na adolescência, os indivíduos dão mais atenção para as recompensas em potencial vindas de uma escolha arriscada do que para os custos dessa decisão”, disse à ISTOÉ Laurence Steinberg, professor de psicologia da Universidade Temple, especializado em desenvolvimento adolescente e autor de “Os Dez Princípios Básicos para Educar seus Filhos”. Steinberg é um dos mais destacados estudiosos da adolescência na atualidade.

A afirmação do pesquisador está sustentada em exames de imagem que assinalam, no cérebro adolescente, uma intensa atividade em áreas ligadas à recompensa. Por recompensa, entenda-se a sensação prazerosa que invade o corpo e a mente após uma vitória, como ganhar no jogo ou ser reconhecido como o melhor pelo grupo. Esse processo coincide com alterações das quantidades de dopamina, um neurotransmissor (substância que faz a troca de mensagens entre os neurônios) muito importante na experiência do prazer ou recompensa. “Isso parece afetar o processo de antecipação do prêmio, de tal forma que os adolescentes se sentem mais animados do que os adultos quando percebem a possibilidade do ganho”, diz o psicólogo americano.

Ele também foi buscar na teoria da evolução a justificativa para o mecanismo cerebral que premia os jovens com sensações agradáveis por se arriscarem. “No passado, levavam vantagem sobre outros da espécie aqueles que se deslocavam e assumiam riscos em busca de um lugar com mais alimento”, pontua. “A busca por novidade e fortes emoções representaria, à luz da teoria da evolução, um sinal da capacidade de adaptação dos seres humanos a novos ambientes.” Nosso cérebro teria aprendido esse caminho e estaria reproduzindo-o até hoje. Descobertas ainda mais recentes mostram que a recompensa mexe profundamente com o cérebro. “Todas as áreas do cérebro são afetadas quando uma atitude é recompensada ou penalizada socialmente”, disse à ISTOÉ Timothy Vickery, um dos autores de um trabalho recente publicado na revista “Neuron”.  

Paralelamente à configuração cerebral, existem as contribuições do mundo contemporâneo para a tendência ao prazer imediato. “Talvez as dificuldades da vida futura e do mercado de trabalho, por exemplo, levem o jovem a uma situação de viver o prazer imediato. Daí a busca pela bebida, pela droga, pelo sexo e tudo o mais no sentido de se aproveitar a vida”, diz o hebiatra (médico especializado em adolescentes) Paulo César Pinho Ribeiro, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. De fato, por volta dos 15 anos, dá-se o pico da busca por emoções fortes. A psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira do Estudo de Álcool e Drogas, defende uma ação firme nesse momento. “Os pais devem assumir o seu papel e não deixar que os jovens fumem ou bebam”, diz.
O caminho para enfrentar essa questão é o diálogo. No Colégio Peretz, em São Paulo, a estratégia de conversar longamente sobre os riscos do consumo de álcool e drogas existe há dez anos. “A proposta é acompanhar os jovens e esclarecer as dúvidas que surgem durante esse período”, diz Evelina Holender, coordenadora do projeto.

A busca de emoções e o desejo de ser aceito e admirado pelos outros – duas características do adolescente – podem se converter numa mistura explosiva. O psicólogo Steinberg demonstrou claramente esse mecanismo com o auxílio de um jogo de videogame cuja proposta era dirigir um carro pela cidade no menor tempo possível. No percurso, os sinais mudavam de verde para amarelo quando o carrinho se aproximava. Se o competidor cruzasse o sinal antes de ele ficar vermelho, ganhava pontos. Se ficasse no meio da pista ou na faixa, perdiam-se muitos pontos. Ao disputarem os jogos a sós em uma sala, os jovens assumiram riscos na mesma proporção que os adultos. Mas com a presença de um ou mais amigos no ambiente houve mudança nos resultados. “Nessa circunstância, os adolescentes correram o dobro dos riscos dos adultos”, observou o pesquisador.

O papel do grupo na adolescência também está sendo examinado. “Por volta dos 15 anos, registra-se o pico de atividade dos neurônios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento de outras pessoas e que levam à sua repetição”, diz o neurologista Erasmo Barbante Casella, do Hospital Albert Einstein e do Instituto da Criança da Universidade de São Paulo. Esse é um dos motivos pelos quais os jovens adotam gestos e roupas similares. Além disso, há a grande necessidade de ser aceito pelos amigos e o peso terrível da rejeição. “É uma fase na qual a identidade não está absolutamente constituída, e o grupo acaba sendo o meio para experimentar e também uma lente pela qual o adolescente lê o mundo”, diz a psicóloga Joana Novaes, da PUC-Rio de Janeiro. Estudos apontam que há também uma grande quantidade de oxitocina, hormônio relacionado às ligações sociais e formação de vínculos, circulando no organismo, o que favoreceria a tendência de andar em turma.
Afora o prazer de correr perigo e dos altos e baixos humorais, a adolescência pode ser vista como uma fase de altíssima resiliência, que é a capacidade de se adaptar e sobreviver às dificuldades. Mas há desvantagens. O lado complicado é que o adolescente que passa por tantas transformações está mais vulnerável ao aparecimento de alterações como depressão, ansiedade e transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. Na semana passada, um estudo do NIMH feito com 10 mil jovens com idades entre 13 e 18 anos revelou que 12% apresentavam sintomas de fobia social, um transtorno de ansiedade que afasta os jovens do convívio. No estudo, 5% dos jovens confundiam os sintomas da alteração com timidez.

Ainda não se sabe qual é o impacto do grande volume de novas informações na conduta prática adotada por pais e profissionais ligados aos jovens, como professores e psicólogos. Mas já existem algumas mudanças em curso. Com base em algumas das descobertas, no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto da Criança, por exemplo, Casella procura orientar os pais a prestar mais atenção às companhias dos filhos. “Existe realmente uma tendência a copiar comportamentos. E os pais precisam interferir nisso”, diz o especialista.

É sabido também que o universo de possibilidades do cérebro adolescente será mais amplo se a criança tiver recebido suporte emocional e familiar, boa alimentação e acesso à educação. “Como na construção de uma casa, o resultado é melhor quando se tem bons alicerces. Por isso é importante estar atento ao desenvolvimento infantil”, disse à ISTOÉ o pediatra Jack Scho­noff, diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard (EUA). Quem passou por carências também tem uma espécie de segunda chance para acertar o passo do desenvolvimento na adolescência, embora com limitações. “Não é possível voltar atrás, mas dar os estímulos adequados ao adolescente irá ajudá-lo a chegar mais perto do seu potencial máximo”, disse Schonoff. Na semana passada, o especialista veio ao Brasil para lançar uma parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, envolvida em iniciativas para o desenvolvimento integral da criança.

Por mais que as crises se sucedam, se uma boa comunicação tiver sido cultivada ano após ano, haverá maior proximidade entre pais e filhos. “A crise é um sinal de saúde. O adolescente deve contestar e confrontar os pais, porque isso faz parte da reformulação pela qual ele está passando”, diz a psicanalista da infância Ana Maria Brayner Iencarelli, do Rio de Janeiro. Outra opção que se tem mostrado eficiente para auxiliar os adolescentes a atravessar esse período da vida são cursos que orientam sobre como criar coletivamente, planejar um evento, montar um show ou criar um blog, por exemplo. Não é por acaso que iniciativas estão se popularizando mundialmente. Pesquisas da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, referendam essa diretriz. “Adolescentes engajados em atividades que exigem criatividade aprendem a planejar e lidar com situações inesperadas”, diz Reed Larson, professor do departamento de Desenvolvimento Humano e Comunitário da universidade americana.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool

Morar sozinho está associado a um risco substancialmente aumentado de mortalidade relacionada ao álcool – independentemente do sexo, nível socioeconômico ou a causa específica da morte.
Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.
Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.
Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.
A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.
“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.
— O que já se sabia sobre o assunto
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.
Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”
Especialista: Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas
Envolvimento com o assunto: Autora de pesquisas sobre o consumo de álcool e outras drogas entre jovens brasileiros, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas e coordenadora do Departamento de Dependências da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)
— Conclusão
Ter relações sociais fora de casa é importante para o bem-estar de qualquer pessoa. Morar com a família ou ser casado pode ajudar a controlar um possível abuso do álcool e faz com que mais pessoas estejam atentas a um comportamento depressivo. Outros fatores de risco, porém, devem ser considerados antes de determinar se uma pessoa tem ou não risco de morrer em decorrência do abuso de álcool.
Por Natalia Cuminale


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escolas se unem para afastar alunos das drogas

Colégios particulares tradicionais da capital se reuniram ontem na I Jornada de Prevenção contra o Comportamento de risco nas Escolas Paulistanas, em busca de medidas para afastar seus estudantes do uso de álcool, cigarro e drogas ilícitas. Profissionais de seis instituições ouvidos pela reportagem afirmam que a facilidade de acesso a esses produtos em baladas, festas de 15 anos e até dentro de casa é crescente.
O problema enfrentado pelos colégios aparece também nas estatísticas oficiais do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que realizou um estudo sobre o tema divulgado pelo JT em dezembro de 2010: o uso de drogas ilícitas nas escolas particulares, no ano anterior à pesquisa, era de 13,6% – índice acima da taxa verificada na rede pública, de 9,9%.
A ideia de unir forças para combater o consumo de drogas entre os estudantes da cidade partiu do colégio I.L.Peretz. Ali, o trabalho de prevenção começa já no ensino infantil, com alunos de 4 anos. “Desde cedo, trabalhamos vários assuntos relacionados à saúde para que, quando estejam na adolescência, já tenham meio caminho andado”, diz a coordenadora do projeto Prev-Peretz, Evelina Holender.
Ela conta que já há alguns anos a escola vem estudando alternativas modernas para abordar o tema. “O que se fazia antigamente nas escolas, como convidar alguém para dar uma palestra sobre drogas uma vez por ano, por exemplo, não estava mais funcionando”, ressalta. Atualmente, o Peretz conta com a contribuição da psiquiatra Ana Cecília Marques, pesquisadora da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp (Uniad).
A psiquiatra passou a aplicar um questionário a cada dois anos para avaliar o quanto os alunos do Peretz estavam expostos ao álcool, ao tabaco e às drogas ilícitas. “Até pouco tempo, dizia-se que atividades de prevenção nas escolas não surtiam efeito. Passamos a trabalhar de maneira científica e agora estamos notando resultados importantes”, conta Evelina.
De 2005 até 2010, o colégio observou uma redução de 75% para 40% na parcela de alunos com menos de 18 anos que experimentaram álcool. Também diminuiu a porcentagem de alunos a partir do 8.º ano que consumiram álcool de maneira abusiva (mais de cinco doses de uma só vez): de 20 para 16%. O uso de tabaco caiu de 50% para 16% e a taxa de uso da maconha foi de 23% para 2%.
Para os educadores, a iniciação precoce ao álcool é a maior preocupação. O coordenador pedagógico César Pazinatto, responsável pelo Programa de Promoção de Saúde do Colégio Santo Américo, diz que as bebidas são as grandes vilãs – tanto pelo fácil acesso quanto por funcionarem como porta de entrada para outras drogas.
Na opinião do educador Armando José Capeletto, orientador do Colégio Santa Maria, atualmente a construção social da adolescência favorece a precocidade. “As crianças querem crescer logo e ir para as festas e baladas. Então, o que deveria acontecer mais tarde, acaba acontecendo aos 11, 12 anos”, acredita.
Violência e impulsividade
Para a terapeuta familiar e psicopedagoga Elizabeth Polity, diretora do Colégio Winnicott, bullying e violência também são comportamentos de risco que merecem atenção. “Essas questões que acompanhamos nos jornais de crianças portando armas de fogo, de brincadeiras que podem prejudicar os colegas, todos estão inseridos nesse contexto”, diz.
Elizabeth acrescenta que o aumento de uso de álcool e outras drogas pelos adolescentes tem a ver com a dificuldade que as crianças têm atualmente de lidar com sua impulsividade e de desenvolver um autocontrole. “Existe um bombardeamento incrível por parte da mídia, que promete uma vida cheia de prazer e alegria, sem nenhum compromisso. A própria família vive sob a égide do prazer e do medo de frustrar”, diz.
Para Elizabeth, esse é o ambiente propício para a adesão ao uso de substâncias químicas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Conselho Antidrogas promove 1º Seminário sobre Dependência Quimica

Indaiatuba sediará dia 5 de outubro, das 13h às 17h, no Auditório do Paço Municipal, o 1º Seminário sobre Dependência Química promovido pelo Conselho Municipal Antidrogas de Indaiatuba. O evento que tem o apoio da Prefeitura de Indaiatuba por meio da Secretaria de Saúde é direcionado para profissionais que trabalham direta ou indiretamente com dependência química como profissionais da saúde, educação e outras secretarias, religiosos, estudantes e representantes de ONGs.
A presidente do Comad-Indaiatuba e coordenadora do Caps Ad da Secretaria de Saúde, a Terapeuta Ocupacional Eliana da Rocha Palharim Quilici, explicou que objetivo principal do Seminário é sensibilizar os participantes sobre a importância da prevenção ao consumo de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. “Prevenção significa: Ato de se antecipar às conseqüências de uma ação, ou seja queremos transmitir informações sobre as melhores práticas de prevenção e como as políticas públicas sobre álcool e drogas se encaminham para isso”.
Eliana Quilici explicou que dependência química é uma doença crônica, complexa e de difícil tratamento. “O nosso município vem sofrendo com essa triste realidade, os usuários quando procuram o tratamento já estão muito comprometidos em várias áreas da vida, perdem trabalho, família, saúde e muitas vezes ficam dias pelas ruas. Queremos que com o trabalho preventivo essa situação possa começar a mudar. Sabemos que não é fácil e precisamos trabalhar com afinco e tenho certeza que esse evento vai ajudar a estimular os participantes a pensarem mais na prevenção”.
Durante o simpósio terá a palestra com tema “Prevenção ao uso indevido de drogas na sociedade” com Dra. Ana Cecília Petta Roselli Marques Médica Psiquiatra, pesquisadora do INPAD (Instituto de Pesquisa em Álcool e Drogas) Doutora em Ciências pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), Coordenadora do Departamento Multidisciplinar sobre Drogas da APM (SP) e Membro do Conselho Consultivo da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos Sobre Álcool e Drogas).

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Amy Winehouse pode ter morrido de abstinência, diz especialista

Logo após a morte da britânica Amy Winehouse, em 23 de julho passado, teorias sobre as causas do óbito começaram a aparecer.
Além da tese óbvia de uma overdose de drogas, havia a possibilidade, levantada pela família, de a cantora ter morrido por abstinência de álcool – ela teria decidido cortar a bebida radicalmente e não aos poucos, como recomendara um médico. A tese ganhou força nesta terça-feira, quando o porta-voz da família, Chris Goodman, divulgou os resultados do exame toxicológico feito no sangue e no tecido da cantora. Segundo o comunicado, não foram encontrados vestígios de droga no organismo de Amy, apenas álcool em quantidade insuficiente para causar a morte, que permanece inexplicada. De acordo com o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, é raro, mas a abstinência pode matar.

“Durante a abstinência, a pressão pode aumentar, a pessoa pode ter taquicardia, tremores, ficar ansiosa, suar frio”, diz Andrade. “O grau máximo da abstinência é chamado de delirium tremens, em que o paciente passa a ter crises convulsivas.” O Delirium tremens pode ocorrer quando uma pessoa interrompe o consumo de álcool depois de beber por muito tempo. A falta de alimentação também pode agravar a situação. Segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, é mais comum em pessoas que tomam entre 4 e 5 doses de vinho ou até oito doses de cerveja por dia - durante vários meses. De acordo com Ana Cecília Marques, da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, em torno de 5% dos pacientes podem desenvolver essa síndrome de abstinência grave.

Entre os sintomas, os pacientes podem sentir medo, sofrer alucinações, convulsões, dores no peito, febre e vômito. Em geral, esses sinais aparecem a partir de 72 horas após a retirada total do álcool do organismo. Estudos sugerem, porém, que eles podem ocorrer entre 7 e 10 dias após a última dose ingerida. Depois desse período, os sintomas pioraram progressivamente. “Quando essas pessoas param de beber, acontece um ‘caos químico’ no sistema nervoso central. Além de alucinações e convulsões, o paciente também apresenta alterações no sistema cardiovascular e no sistema respiratório”, diz Ana Cecília Marques. “Antes, o cérebro do paciente havia desenvolvido uma tolerância ao álcool. Sem ele, tudo deixa de funcionar como deveria. A pessoa pode morrer por falência.”

Arthur Guerra de Andrade explica que, em casos de crise de abstinência séria, o paciente deve procurar um serviço de emergência, onde será atendido numa Unidade de Terapia Intensiva que tratará os sintomas com medicamentos anticonvulsivos, calmantes, entre outros. Sem a ajuda de um médico, segundo Ana Cecília Marques, dificilmente o paciente sobrevive.

Para quem deseja parar de beber, os médicos indicam a interrupção total da bebida alcóolica. A decisão, porém, deve ser acompanhada de perto por um especialista, capaz de controlar sintomas de uma possível complicação, como é o caso da síndrome de abstinência grave. O pai de Amy, Mitch Winehouse, disse que sua filha lutava contra o álcool havia anos e, quando morreu, estava completando três semanas sem beber. O resultado do inquérito sobre a morte da cantora britânica deve ser conhecido no dia 26 de outubro.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Estresse e álcool: ligação perigosa

Tomar uma cervejinha para relaxar depois de um dia estressante de trabalho pode até parecer uma boa ideia. Mas, na medida em que o estresse altera as reações psíquicas e fisiológicas em relação ao álcool, a pessoa pode ser levada a beber além da conta e ainda ver seu problema tornar-se crônico.
Uma pesquisa da Universidade de Chicago, que será publicada na edição de outubro da revista científica Alcoholism: Clinical & Experimental Research, indica que a relação entre álcool e estresse é intensa e bidirecional: tanto o estresse pode estimular o aumento de consumo de álcool, como o álcool expõe quem o consume ao risco de desenvolver distúrbios permanentes de estresse.
Na opinião da psiquiatra Ana Cecília Marques, da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o estudo confirma uma ideia que vinha sendo sugerida por pesquisas anteriores. “Essa relação é realmente muito forte. Outros estudos mostram que as doenças que mais vêm associadas ao abuso de álcool ou alcoolismo são as dos transtornos de ansiedade”, comenta.
O estudo norte-americano submeteu 25 homens saudáveis, entre 18 e 32 anos, a duas tarefas: uma estressante e outra livre de estresse. Após cada atividade, os participantes recebiam uma dose de álcool por via intravenosa, equivalente a dois drinques. A reação variou de um indivíduo para outro. Nos participantes em que o álcool normalmente exercia um efeito estimulante, a presença do estresse diminuiu esse estímulo e aumentou a sensação de sedação.
Já nos homens que relataram não sentir estimulação por meio do álcool, o estresse diminuiu a sedação e aumentou a vontade de ingerir mais álcool. Em todos os participantes, o álcool injetado logo depois da situação estressante bloqueou o aumento do hormônio cortisol, fator diretamente relacionado ao estresse.
Segundo a autora do estudo, Emma Childs, os achados ilustram uma interação complexa entre estresse e álcool.
“O álcool diminui a resposta hormonal ao estresse, mas também estende a experiência negativa do evento”, afirma. Segundo ela, as respostas do estresse são benéficas porque ajudam o indivíduo a reagir contra eventos adversos. Assim, alterando o modo como o corpo lida com essa sensação, seria possível interferir no risco de desenvolver doenças relacionadas ao estresse. “Por outro lado, o estresse pode também mudar o modo como o álcool nos faz sentir, de forma que ficamos mais propensos a consumir mais álcool.”
Segundo o psiquiatra Vladmir Bernik, coordenador da Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, usar o álcool para amenizar o estresse é uma forma de fugir dos problemas. “Quando o indivíduo está inapto para lutar, ele foge, tanto usando ansiolíticos como consumindo álcool”. Para ele, a bebida tende a aliviar os sintomas psíquicos e físicos do estresse, mas quando existe um abuso, a substância interfere no ciclo do hipotálamo, no cérebro, e produz uma resposta paradoxal: em vez de relaxar, a pessoa passa a ter sintomas de ansiedade e depressão.
“Pessoas altamente estressadas usam a bebida como se fosse um remédio, pois ela desliga a chavinha da ansiedade”, diz Ana Cecília, da Unifesp. “Mas indivíduos dependentes podem apresentar distúrbios. Como a substância age nas mesmas vias do estresse, ela pode desregular essas vias.”

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Psiquiatra defende proibição de propaganda de álcool para reduzir consumo

A psiquiatra Ana Cecília Marques defendeu o aumento do preço das bebidas, a criação de mais taxas e impostos sobre esses produtos e a proibição da propaganda, a exemplo do que já foi feito com os cigarros. Ela também sugeriu o aumento da idade mínima para o consumo de bebidas alcoólicas de 18 para 21 anos, e a provação de leis que reduzam o horário de funcionamento dos bares.
As sugestões foram apresentadas na terça-feira (7) durante a audiência da comissão especial da Câmara que analisa as causas e consequências do consumo abusivo do álcool. Conforme informação apresentada na audiência, aproximadamente 10% da população brasileira são dependentes de bebidas em estágio avançado e sofrem de doenças causadas pelo exagero no consumo do álcool.
Membro da Associação Brasileira de Psiquiatra (ABP) e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (USP), a psiquiatra Ana Cecília Marques criticou a campanha do “amigo da vez” — aquele que fica sem ingerir álcool e dirige para os amigos beberem: “Considero nota zero’ o motorista da vez, porque só ele fica preservado. Os demais estão todos intoxicados, com impactos diversos, sobre si mesmos, muitas vezes em casa, porque podem produzir violência doméstica, entre outros tipos de problemas.”
Sobre a proposta apresentada pelo coordenador de Saúde Mental, Roberto Tykanori, Kinoshita, de se criar moradia social — subsidiada pelo governo — capacitando o dependente para que ele possa trabalhar e ter uma renda, Ana Cecília lembrou: “sem tratamento adequado para o doente, de nada adiantam casa e trabalho”.
A comissão especial sobre o consumo abusivo de álcool vai realizar conferências para debater o tema em cada região do País. Estão previstas audiências públicas em São Paulo (SP), Fortaleza (CE), Porto Alegre (RS) e Belém (PA). A primeira conferência regional acontecerá em 30 de junho na Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. O debate foi proposto pelo deputado Marcelo Aguiar (PSC-SP).
A psiquiatra Ana Cecília Marques elogiou a iniciativa da Câmara dos Deputados de criar uma comissão especial para discutir as causas e consequências do uso abusivo do álcool e acredita que essa idéia da comissão percorrer o país, “deve mexer com muita gente”. “Espero que a comissão reúna dados reais, confira a atual situação do Brasil e, em função desse trabalho, amplie nossos leis ou elabore leis melhores, assim como nos ajudem a redirecionar a política nacional sobre o álcool”, salientou.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Aumenta consumo de álcool entre mulheres



De acordo com pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, o porcentual da população adulta que consome álcool em excesso passou de 16,2% em 2006 para 18% em 2010. Os homens são a maioria entre os que bebem em excesso - 26,8% em 2010, contra 25,5% em 2006. Foi entre as mulheres, no entanto, que se deu o aumento mais expressivo: a taxa passou de 8,2 para 10,6% nos quatro anos.

O ministério considerou consumo excessivo de álcool cinco ou mais doses em uma mesma ocasião em um mês para os homens e quatro às mulheres. A pesquisa foi feita em todas as capitais por meio de 54 mil entrevistas telefônicas.


Moradora de São Caetano, A.N.Q. se enquadra entre as pesquisadas que consomem quatro ou mais doses de álcool em uma semana. “É o meu momento de relaxar. Bebo em casa, com meu marido, até mesmo porque depois não precisamos dirigir. Sexta, sábado e domingo são os meus dias, quando posso abandonar temporariamente as obrigações da semana”, relatou.


A são-caetanense acredita que beber apenas aos fins de semana não prejudica a saúde nem o trabalho. “Mantenho esse hábito há cerca de dois anos. Não descuido das minhas obrigações de mãe, profissional e esposa. É apenas para descontrair”, considerou.


De acordo com Ana Cecília Marques, psiquiatra e especialista em dependência química da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), o aumento no consumo de álcool pelas mulheres tem impactos importantes nas questões de saúde pública.


“O álcool é mais danoso ao organismo feminino, devido ao metabolismo. Doenças como cirrose, hipertensão, diabete e diversos cânceres atingem primeiro as mulheres”, declarou a especialista.


“Outro ponto fundamental é o papel que a mulher representa na sociedade. Alcoolizada, não cuida dos filhos, não se previne contra gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis e ainda assume o papel de vítima potencial para violência doméstica e abuso sexual”, concluiu.


Para a socióloga da Universidade Federal do ABC, Adriana Capuano de Oliveira, as propagandas de bebida no Brasil sempre associam o consumo de álcool com festas e celebrações. “Nos anos 70, a mulher expressou a sua independência fumando. Hoje, acontece o mesmo, mas com a bebida. Ela está divorciada, com problemas, mas tudo se resolve quando toma uma cerveja. É essa a mensagem falsa das peças publicitárias”, afirmou.


Adriana ressaltou que o ato de ingerir bebidas alco­ólicas também está associado com inclusão social. “Mais uma vez, temos as propagandas que associam vinhos, vodkas e cervejas com conquista, diversão. Todos querem fazer parte disso”, frisou.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O drinque das oito

Novelas do horário nobre exageram em cenas nas quais muitos personagens bebem muito. Para o autor de Viver a Vida, a ficção imita a realidade. Para especialistas, a ficção estimula.


Capítulo 1. O céu azul é de Búzios (RJ). À beira da piscina, copos nas mãos, amigos conversam alegremente. À noite, antes de sair para um desfile de moda, Marcos (José Mayer) se aproxima de uma mesa repleta de bebidas. Enche o copo. Ao fundo, o trânsito de suas filhas na sala. Em primeiro plano, por mais de dez segundos, a mesa coberta de garrafas é a estrela da cena. Em outro ambiente, festa regada a muita bebida, encontros descontraídos. Capítulo 2. Helena (Taís Araújo) e Marcos aparecem em longas tomadas, longas como suas taças de champanhe. Capítulo 3. O copo protagonista é o de Renata (Bárbara Paz). Capítulo 4. Duas médicas (Daniele Suzuki e Christine Fernandes) encerram a noite com vinho. Os gêmeos Miguel e Jorge (Mateus Solano) tomam cerveja com amigos na pizzaria. Sandra (Aparecida Petrowsky), irmã de Helena, grávida, vai no gargalo mesmo. Capítulo 5. Helena aparece chapada. Marcos, dessa vez, está em sua mesa de trabalho, o copo também. Numa reunião, regada a loira gelada, outros personagens discutem projetos de arquitetura, nem parece que trabalham. Betina (Letícia Spiller), prá lá de alegrinha, dá carona para Tereza (Lília Cabral), que de tão embriagada cai ao desembarcar. Dona Noêmia (Lolita Rodrigues), mãe de Marcos, é advertida duas vezes por sua dama de companhia para ir devagar com o champanhe. Seria exagero dizer que Viver a Vida é, antes de tudo, um porre?

Conhecido por abordar temas relevantes em suas tramas, o autor Manoel Carlos considera o alcoolismo um dos maiores flagelos sociais. “O álcool, para desgraça nossa, é droga lícita. Por essa razão tenho abordado o alcoolismo, de uma maneira ou de outra”, diz. O tema apareceu em Por Amor (1997), Laços de Família (2000), Mulheres Apaixonadas (2003), Páginas da Vida (2006). O novelista vem lendo durante os últimos anos sobre o crescente número de jovens, grande parte composto de mulheres, que se entregam ao vício, justificando-o como uma necessidade social. “Em Viver a Vida, a personagem será Renata. O nome que se dá a esse tipo de alcoolismo é drunkorexia. A jovem pensa que diminui, neutraliza ou elimina calorias do álcool deixando de se alimentar, para manter-se magra”, explica. “É um tremendo engano, já que estudos provam que o álcool engorda mais que os alimentos. Acho que a novela pode dar um alerta, sem precisar sem didática.”

Clima de tolerância

Especialistas, no entanto, veem com preocupação uma trama na qual muitos personagens bebem muito. Para começo de conversa, gera no público a falsa impressão de que a maioria das pessoas costuma beber. E não é verdade. Ilana Pinsky, coordenadora do ambulatório de adolescentes da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que metade da população brasileira não toma nada. Na outra metade, porém, 50%, ou seja, um quarto da população, têm algum distúrbio ligado ao álcool. Os dados são do 2º Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, de 2005. O estudo revelou que 12,3% das pessoas com idade entre 12 e 65 anos são portadoras de alcoolismo e cerca de 75% já beberam alguma vez na vida. Os resultados também indicam o consumo cada vez mais precoce e sugerem a necessidade de revisão das medidas de controle, prevenção e tratamento. 

“Esse excesso é ruim principalmente para adolescentes, que são induzidos a acreditar que todos bebem, que beber é normal, que a bebida não causa danos e é a responsável pela alegria em encontros de amigos. Convencer o público de que todos, ou quase todos, bebem só interessa aos fabricantes do setor”, diz Ilana. Outro complicador, segundo a especialista, é que as novelas sempre têm personagens problemáticos, violentos ou dependentes químicos. O público então tende a absolver os demais, “normais”, que podem beber à vontade. Afinal, não causam confusão, não dão vexame e são bem-sucedidos. “Um agravante relacionado a isso, que o folhetim não aborda, é que a maioria dos acidentes de carro acontece com quem não é alcoolista”, diz. Ou seja, é gente “normal”, que bebe socialmente e sempre acha que está sob controle. “Se querem tanto fazer marketing social, porque não mostram amigos discutindo sobre quem vai voltar dirigindo depois que beberem?”, sugere a psicóloga.

Ana Cecília Marques, coordenadora do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, explica que o alcoolismo é uma doença crônica, incurável, determinada por fatores biológicos e psicossociais. “Entre os aspectos psicossociais que desencadeiam o beber está a propaganda, que por meio de técnicas diversas, como colocar o produto para ser bem vendido em uma novela, influencia principalmente os adolescentes”, diz. Para ela, cenas que exibem álcool num contexto que envolve sonhos, desejos, fantasias e estilos de vida emocionalmente atraentes têm o mesmo efeito da propaganda, embora sejam peças de ficção. O consumidor é influenciado não apenas por anúncios comerciais – sempre com pessoas e estilos de vida associados a riqueza, prestígio, poder, aprovação social, sucesso, fama, beleza, sensualidade etc., como se fossem modelos a ser seguidos –, mas pela propagação e glamorização do hábito por meio da indústria cultural.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp, a propaganda do álcool busca, além de fazer com que os consumidores tenham preferência por determinada bebida, criar um clima social de tolerância, visando nitidamente aumentar o consumo. 

Coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, de Porto Alegre, e conselheiro da Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas (Abead), Sérgio de Paula Ramos observa que a mídia só consegue alavancar o consumo porque a indústria do álcool é uma grande financiadora e porque a lei é permissiva. Em 2007, o governo federal aprovou a Política Nacional sobre o Álcool. O Decreto nº 6.117 explicita a preocupação governamental com o alcoolismo e define ações para inibir e prevenir danos à saúde e situações de violência e criminalidade associadas ao uso de bebidas alcoólicas. Para isso sair do papel, porém, são necessárias várias medidas, como leis restritivas à propaganda. Um projeto apresentado pelo Executivo no começo do ano passado para limitar a propaganda, que deveria ser votado com urgência, sucumbiu ao lobby da indústria. Pela lei em vigor, só é considerada alcoólica a bebida com mais de 13º GL (Gay-Lussac). Cervejas e vinhos ficam de fora. Há também um projeto de lei do Senado que propõe a proibição de anúncios de bebidas. 

Alto teor de merchan

Sérgio de Paula Ramos conta que numa reunião da Organização Mundial da Saúde em Genebra, na Suíça, para discutir estratégias de redução do consumo de álcool, mostrou aos colegas de outros países slides de comerciais de bebidas produzidos no Brasil. “Eles ficaram boquiabertos, porque em nenhum lugar do mundo a publicidade de bebidas é tão intensa e escancarada”, diz. Segundo ele, a irresponsabilidade dos fabricantes e da mídia já ultrapassou os limites éticos e trouxe a percepção de que era possível ampliar o nicho de mercado ao colocar na mira adolescentes, crianças e idosos. “Não por acaso, pesquisas revelam pessoas de todas as idades bebendo cada vez mais”, diz. 

Ramos refuta o efeito conscientizador da novela: “Se a novela tem 100 capítulos, o personagem alcoolista bebe em 90 deles. Nos 10 finais ele se recupera. Mas não são mostradas cenas com as dificuldades enfrentadas durante o processo de recuperação”. A longa lista desses personagens inclui Zé da Feira (Eri Johnson, em Duas Caras, de Aguinaldo Silva); Heleninha Roitman (Renata Sorrah, em Vale Tudo, de Gilberto Braga); Santana (Vera Holtz, em Mulheres Apaixonadas); Orestes (Paulo José, em Por Amor); Bira (Eduardo Lago, em Páginas da Vida).

O psiquiatra ressalta ainda que, se a saúde pública não sensibiliza os gestores, o alcoolismo chama a atenção por suas consequências às contas públicas. O gasto nacional com saúde representa cerca de 7,6% do PIB, enquanto a indústria da bebida movimenta recursos equivalentes a 3,5%, segundo dados do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Bebidas. Será que a receita compensa as despesas com tratamento e doenças, problemas gerados pela violência doméstica, pagamentos de pensões devido a acidentes, tentativas e homicídios consumados etc.? Os gastos públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) com tratamento de dependentes de álcool e outras drogas em unidades extra-hospitalares, como os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad), atingiram, entre 2002 e junho de 2006, a cifra de R$ 37 milhões. No mesmo período, outros R$ 4 milhões foram gastos em procedimentos hospitalares de internações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas

Coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proad), vinculado à Unifesp, o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira desconhece estudos que associem novelas ao hábito de beber da população, mas acredita na influência. O glamour da mulher bonita e bem-sucedida segurando a taça de champanhe exerce o mesmo fascínio que, no passado, o cigarro exerceu no cinema. “Quanta gente não começou a fumar imitando divas e heróis dos filmes?” Silveira conta que conheceu na Europa iniciativas de produtores de cinema e vídeo que, antes de gravar e levar ao ar suas produções, submetem o roteiro à análise de especialistas. “É preciso ter a certeza de que aquela cena, da maneira como foi pensada, não levará mensagens destrutivas ao público”, diz. Manuel Carlos não discorda: “Todo o assunto (drunkorexia) foi levantado pelas minhas três pesquisadoras. Tenho todas as informações de que necessito”, garante. 

Criativo, simpático, extrovertido


O publicitário Hugo Leal tem 59 anos e está há 25 sem beber. Sua história, aliás, poderia ser resumida e apresentada no final de um capítulo de Viver a Vida. Começou aos 12 anos, quando ganhou um garrafão de vinho numa quermesse e o “enxugou” rapidamente com os amigos. Os meninos passaram mal, precisaram ser levados para casa. Hugo se sentiu “forte” para a bebida por não ter ficado ruim. Sob efeito do álcool, começou a perceber-se mais criativo. E mais simpático, bonito, desinibido, extrovertido...
Cursou matemática, filosofia e comunicação, sempre “bebaço”, como diz. Para ficar acordado à noite e manter os efeitos do álcool, juntou anfetamina e cocaína. Logo começou a escrever roteiros de filmes, vídeos, eventos, trabalhou em jornais e agências. Por causa da bebida – hoje ele sabe – sentia-se gênio e era líder em todo lugar que chegava. Começou a achar que podia tudo: já não pagava impostos, desobedecia regras e chutava o balde nas redações e por onde passasse. Virou frila e casou 11 vezes. Aos 31 anos tinha uma casa noturna, mas bebeu tudo o que faturou, e faliu. Não arranjou mais trabalho e vivia de bar em bar recitando poemas em troca de bebida. Chegou a achar que vida estável não era para ele. Achava-se um poeta. “Até que um dia, num bar, um cara falou: ‘Pode beber, mas nada de poesia!’” Bebeu calado.
A ficha começou a cair. Foi para casa chapado, como sempre, e a mulher anunciou que iria embora. Foi dormir sentindo-se um gênio incompreendido e acordou com a certeza de que era um doente. Foi para os Alcoólicos Anônimos e fez consigo um pacto de que sairia dessa. Chegou a passar mal por causa da falta do álcool no cérebro. Mas nunca precisou de ajuda médica. “Tenho de fazer por merecer estar vivo”, diz. Hoje trabalha, vive bem e dá palestras sobre sua história, alertando que as armadilhas do álcool estão por toda parte, até na novela das oito.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bares restringem “double drink”

O cerco ao consumo excessivo de bebida alcoólica ganhou um reforço inesperado em Curitiba. A Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar) lançou ações entre os associados para reduzir o incentivo ao consumo de álcool nos estabelecimentos da cidade. A medida foi bem aceita pelos empresários porque dá fim à concorrência desleal.
De acordo com o presidente da Abrabar, Fábio Aguayo, a associação decidiu criar medidas para fortalecer sua responsabilidade social diante dos problemas decorrentes do consumo excessivo de álcool. “Existem ideias proibitivas ao álcool, mas é preciso ter bom senso. Por isso, defendemos o não incentivo”, afirma.
Desde 1.º de março, a medida da Abrabar sugeriu aos estabelecimentos que tenham um único dia, entre domingo e quarta-feira, para colocar em prática as promoções, e que isso não seja feito de quinta a sábado. Além disso, a recomendação também sugere que os populares “double drinks” sejam oferecidos até, no máximo, as 20 horas.“Não queremos que o álcool seja a atração principal das casas. É o ambiente, a música, a boa comida que deve atrair o cliente, não as promoções open bar ou double drink, por exemplo”, explica Aguayo.

Segundo ele, além de não estimular o consumo excessivo de álcool, a medida tem efeitos também sobre a ação predatória que algumas promoções representam. “Essa atitude de quem dá mais não é concorrência sadia. Quem faz muita promoção de bebida, ou trabalha com produto falsificado ou que não está entrando na contabilidade”. Por isso, segundo ele, a decisão foi consenso entre os empresários.

Gustavo Costa é proprietário do Bar Devassa, que desde sua inauguração, não investiu nesse tipo de oferta. “Nós conversamos com os empresários do setor e percebemos que isso já não tem influência efetiva na atração de clientes. As promoções de bebidas se tornaram tão comuns na cidade que já não são vistas como um diferencial”, diz.

Quem apostava nas promoções também não sentiu qualquer impacto ao extinguir algumas delas. “O cliente que ganha uma bebida deixa de pagar para consumir. É uma estratégia de marketing que financeiramente não é interessante para nós”, conta Giocondo Villanova Artigas Neto, um dos proprietários dos bares Santa Marta, Taj, Es Vedra e Comenda.

ANÁLISE

Ações isoladas ajudam, mas não resolvem o problema

A redução da oferta de bebidas pode contribuir para a diminuição do consumo, avalia o psicólogo Naim Akel Filho, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. “Muita gente se torna dependente da bebida por oportunidade. Essas promoções dos bares estimulam o consumo abusivo, que é o estágio anterior à dependência”, opina. Para ele, o problema é especialmente grave na atual geração de jovens. “Essa geração tem uma enorme dificuldade em controlar impulsos. Quando a bebida é oferecida de forma vista como vantajosa pelo cliente, perde-se totalmente o controle do consumo”, explica.

Conter o consumo de bebidas tem sido o alvo de muitas iniciativas. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, tramitam mais de 200 propostas para estabelecer medidas que vão desde a proibição de anúncios de bebidas e festas “open bar” à instituição de sanções para quem vender bebidas alcoólicas para menores de 18 anos. Recentemente, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) protocolou projeto de lei para restringir a publicidade de cerveja em todo o Brasil.

Para a especialista em dependência química Ana Cecília Marques, que é pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do CNPq, essas ações são importantes, mas sozinhas não são capazes de afetar significativamente o consumo do álcool. “É preciso que essas ações façam parte de uma política. Medidas para reduzir o consumo associadas a campanhas na mídia e à fiscalização no trânsito, por exemplo, conseguem causar um impacto considerável”, diz.

Segundo ela, essas políticas são mais efetivas se forem pensadas de forma particular para cada lugar. “Algumas medidas funcionam em cidades pequenas, mas não em cidades grandes. Por isso, a aplicação dessas ações e leis é muito mais efetiva se for feita municipalmente”.