terça-feira, 19 de março de 2013

Alcoolismo atinge cerca de 5,8 milhões de pessoas no país


São Paulo - Histórico de consumo abusivo de álcool, síndrome de abstinência e manutenção do uso, mesmo com problemas físicos e sociais relacionados, é o tripé que caracteriza a dependência em álcool, segundo a psiquiatra Ana Cecília Marques, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O tratamento da doença, que atinge cerca de 5,8 milhões de pessoas no país, segundo o Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, de 2005, não é fácil: dura pelo menos um ano e meio em sua fase mais intensiva e tem índice de recaída de cerca de 50% nos primeiros 12 meses.
"Ele precisa preencher os três critérios. Um só não basta para se considerar dependente", destaca a psiquiatra. Ela explica que o consumo contínuo e abusivo leva a uma tolerância cada vez maior do usuário à bebida. "O corpo acostuma-se com o [álcool]. Ele resiste mais e, para obter o efeito que tinha no começo com uma lata de cerveja, precisará tomar cinco". A falta do álcool provoca uma série de sintomas graves, como elevação da pressão arterial, tremores, enjoo, vômito e, em alguns pacientes, até mesmo convulsão. Esse é o quadro da síndrome de abstinência.
O terceiro critério para caracterização da dependência alcoólica está ligado aos problemas de relacionamento e de saúde provocados pelo consumo abusivo. "O indivíduo tem problemas no trabalho por causa da bebida. Ele perde o dia de trabalho mas, mesmo assim, bebe de novo". A professora destaca que, além da questão profissional, devem ser considerados diversos aspectos da vida do paciente, como problemas familiares, afetivos, econômicos, entre outros.
Em relação às outras drogas, a psiquiatra informou que o tratamento da dependência de álcool se diferencia principalmente na primeira fase, que dura em média dois meses. "Cada substância tem uma forma de atuar no cérebro, portanto, vai exigir, principalmente na primeira fase do tratamento, diferentes procedimentos farmacológicos para que a gente consiga promover a estabilização do paciente", explica.
De acordo com a médica, o álcool se enquadra na categoria de substâncias psicotrópicas depressoras, juntamente com os inalantes, o clorofórmio, o éter e os calmantes. Há também as drogas estimulantes, como a cocaína, a cafeína e a nicotina, e as perturbadoras do sistema nervoso central, como a maconha e o LSD.
"Na segunda e terceira fases, o tratamento entra em uma etapa mais semelhante, que é quando você vai se aprofundar no diagnóstico e preparar o individuo para não ter recaída", acrescenta.
A segunda fase do tratamento, a chamada estabilização, quando se trabalha a prevenção da recaída, dura, em média, de oito a dez meses. Nessa etapa, são percebidas e tratadas as doenças correlatas adquiridas pelo consumo do álcool e, então, o paciente é preparado para readquirir o controle sobre droga. "A dependência é a doença da perda do controle sobre o consumo de determinada substância. [É feito um trabalho] para que ele volte a se controlar, a entender esse processo e readquirir a autonomia. Não é mais a droga que manda nele".
A psiquiatra destaca que, nesse processo, a recaída é entendida como algo normal e que não invalida o tratamento. "Ele pode ter uma recaída e não é que o tratamento não esteja no caminho certo ou que ele não queira se tratar. Faz parte da doença, é um episódio de agudização dessa doença crônica que é a dependência do álcool. Faz parte recair", esclarece.
Na terceira etapa, que dura cerca de seis meses, ocorre o "desmame da tutela do tratamento". "Ele está manejando essa nova autonomia. Ele volta para as avaliações com menos frequência". Por fim, o paciente passa a ir ao médico com maiores intervalos entre as consultas. "Ele segue em tratamento como qualquer indivíduo que tem doença crônica. Pelo menos uma vez por ano, ele passa pelo médico. A bem da verdade, [no tratamento dessas] doenças crônicas, a gente não dá alta".
Levantamento feito em 2005 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Unifesp, e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), mostra que o uso do álcool prevalece entre os homens em todas as faixas etárias. Mais de 80% deles declararam fazer uso de álcool. Entre as mulheres, o percentual cai para 68,3%.
No que diz respeito à dependência, eles também estão na frente. O índice de dependentes do sexo masculino (19,5%) é quase três vezes o do sexo feminino (6,9%). A faixa etária de 18 a 24 anos, por sua vez, apresenta os maiores índices, com 27,4% de dependentes entre os homens e 12,1% entre as mulheres.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Brasil: Classe média luta contra o crack


PIEDADE, Brasil – Corinthiano roxo, Emerson Medeiros, 42 anos, planejava ir ao Japão para acompanhar seu time no Mundial de Clubes da FIFA, em dezembro.

Mas acabou vendo o jogo pela TV de uma clínica de reabilitação em Piedade, interior do estado de São Paulo. Medeiros luta contra o vício do crack.
Enquanto o uso de cocaína e seus derivados diminui gradativamente nos países mais desenvolvidos, aumenta em países emergentes como o Brasil, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Cerca de 6 milhões de brasileiros experimentaram cocaína e derivados pelo menos uma vez na vida, segundo pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Deste total, 2 milhões fumaram crack, oxi ou merla. Esses números fazem do Brasil o maior consumidor mundial de crack e o segundo maior de cocaína e derivados.

“A pesquisa da Unifesp representa a população brasileira como um todo, porque o levantamento foi realizada em todas as regiões”, diz a pesquisadora Clarice Madruga, coordenadora do estudo da Unifesp.

A pesquisa foi feita em domicílios de 149 municípios com 4.607 indivíduos de 14 anos ou mais, mas sem estratificação por classe social. Dependentes que vivem nas ruas não foram incluídos no estudo.

Em números absolutos, o Sudeste concentra 46% dos usuários de cocaína e derivados do país, ou seja, 1,4 milhões de indivíduos da região consumiram a droga no último ano.
O crack não mais é vendido apenas nas cracolândias brasileiras. Em condomínios fechados de bairros de classe média e média alta, como a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o entorpecente é entregue por motoboys, como se fosse pizzas e produtos farmacêuticos.

A pesquisa da Unifesp revelou que 78% dos entrevistados consideram fácil conseguir cocaína e derivados, inclusive o crack.
“O fácil acesso faz com que mais indivíduos consumam a droga”, diz a psiquiatra e neurocientista Ana Cecília Marques, coordenadora do Departamento de Dependência em Álcool e Drogas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). “A dependência é uma doença multicausal, que vai desde a condição socioeconômica até um transtorno psíquico.”

Para combater o problema, o governo federal lançou em 2011 o programa “Crack, é Possível Vencer”, que terá investimentos de R$ 4 bilhões até 2014.
O programa prevê internação compulsória em casos extremos, em que o paciente corre risco de vida. Em 21 de janeiro, o governo de São Paulo iniciou a internação compulsória no estado.
Com autorização da família, os viciados em crack são encaminhados para centros terapêuticos para receber o tratamento. Em casos considerados mais graves, a internação pode ocorrer sem permissão dos familiares, desde que seja determinada por um juiz.

Crack na classe média

Novidade na rede pública, a internação compulsória é prática comum nas clínicas privadas.
Este foi o caso de Tiago Ferraz, 29.
Em abril de 2012, ele se internou voluntariamente na Clínica Viva de Piedade, após trocar o laptop e o celular do pai por 20 pedras de crack.
Quatro meses depois, recebeu alta. Mas, no terceiro dia longe da clínica, roubou um relógio, pares de tênis, camisas de clubes de futebol e até vinhos para comprar crack.
Acabou sendo levado de volta à clínica, dessa vez à força, numa ambulância chamada pelo pai.

Ferraz experimentou o crack pela primeira vez em 2004, quando morava em São José dos Campos (SP), a 93 km da cidade de São Paulo.
Dois anos depois, ele se mudou para Sorocaba (SP) e ingressou no curso de geografia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Logo começou a usar o “mesclado” – mistura da maconha com o crack.

“Comecei a frequentar uma linha de trem, onde fica a cracolândia de Sorocaba”, lembra Ferraz, que é filho de um jornalista e de uma funcionária pública.
Para comprar a droga, Ferraz sacava dinheiro com o cartão de crédito, o que gerou uma dívida de R$ 5.000 com o banco.

“Como costumam dizer, uma pedra é muito e 100 é pouco para quem é dependente”, diz Ferraz, que recebeu alta de sua segunda internação em 20 de dezembro. “Dessa vez, não vou voltar ao crack, nem ao álcool ou maconha. Recuperei expectativas, laços familiares e tracei objetivos. Quero voltar a estudar.”

Clínica Viva: 80% são viciados em crack

Em sete anos de atividade, 2.000 pessoas passaram pela clínica de Piedade, que fica a 100 km de São Paulo. Dos 95 leitos disponíveis, 75 estão ocupados.
Quando foi inaugurada, a clínica abrigava pacientes que sofriam de alcoolismo, em sua maioria. Hoje, cerca de 80% tratam o vício do crack.

Entre adolescentes e idosos, todos os internos da clínica são de classe média. O crack não é mais exclusividade da população marginalizada.
“Os familiares chegam aqui desesperados. Tem uma hora em que o paciente comete furtos até dentro de casa”, diz Verângelo Soares, administrador da clínica.
Muitas destas famílias que tomam a iniciativa de internar têm dificuldade em aceitar a dependência.

A família pode até atrapalhar o tratamento ao omitir informações, diz o psicólogo Claudio Roberto Alexandre, líder da equipe técnica da Clínica Viva em Piedade. Para evitar esse tipo de problema, Alexandre explica que o processo inicial é convencer o dependente de que ele necessita de cuidados para depois conscientizar os próprios parentes.

Apesar da Clínica Viva não divulgar valores, um ex-paciente informou sob a condição de anonimato que seus parentes pagaram cerca de R$ 5.000 por mês pela internação.
“Há uma tendência a negar ou minimizar o uso do crack, até por conta do estereótipo que existe em torno dos dependentes”, diz Alexandre. “Eles se perguntam: ‘Meu filho tem tudo em casa, por que se viciaria?’”

Emerson Medeiros, o torcedor do Corinthians, diz que seus pais já fizeram essa mesma pergunta diversas vezes.
Ele vem de uma família de classe média e começou a usar crack, aos 19 anos, com amigos.
Aos 29, foi internado na Clínica Viva pela primeira vez.
Oito meses depois, recebeu alta e, com ajuda da família, comprou um caminhão para fazer fretes.

Mas Medeiros acabou sucumbindo à droga. Em 2010, ele vendeu o veículo para sustentar a dependência.
“Eu não estava vendo saída. Se não fizesse algo, ia morrer logo”, diz Medeiros, que voltou para a clínica em outubro. “Foi escolha minha.”

Disponível em: http://infosurhoy.com/cocoon/saii/xhtml/pt/features/saii/features/main/2013/02/07/feature-01


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Na quebrada dos fim de linha


‘Estamos falando de dependentes com vulnerabilidade 100%, que demandam intervenção complexa e intensiva', diz a psiquiatra Ana Cecília Marques

 

Uma overdose de polêmica tomou conta de São Paulo nos últimos dias por causa de medidas do programa de incentivo à internação de dependentes químicos, bancado pelo governo do Estado.
No meio desse caminho, tinha uma pedra: o crack. De um lado, viu-se o drama dos aprisionados pela droga e dos familiares desesperados por ajuda. De outro, muita controvérsia em torno da internação forçada - vista ou como política de saúde pública ou como "limpeza urbana" dos frequentadores das cracolândias.
Leia abaixo a entrevista com Ana Cecília Marques:
Dra. Ana Cecília, nessa semana o governo paulista iniciou o programa de incentivo à internação de dependentes de crack. Como a sra. vê a adoção da internação compulsória?

O crack é o principal desafio para nós, especialistas em drogas. É uma droga com alto potencial para sensibilizar o cérebro, ligando a chave do "quero mais". Nisso, há diversos fatores a considerar. Primeiro: o crack ativa um mecanismo compulsivo de consumo - o padrão binge - e por isso é muito difícil controlar e propor tratamentos. Segundo: o crack não é a única substância consumida pelos dependentes, pois muitos são poliusuários - misturam crack com álcool, maconha, tabaco - e é preciso fazer uma desintoxicação detalhada nesses casos. Terceiro: nossas ações de tratamento atuais, como observei na cracolândia por dois anos, não são adequadas. Tentamos tratar esses dependentes como tratamos usuários de outras drogas, mas é muito diferente. O crack é singular. Assim, tentamos intervenções ineficazes, pois a síndrome de abstinência é totalmente adversa. E quarto: quem está no crack já está muito mal, quer dizer, já perdeu vários vínculos com a sociedade e a família. Nem todos, claro. Mas há um distanciamento da família, mesmo os que moram sob o mesmo teto, pois o crack cria uma espécie de isolamento. Isso porque o indivíduo perde os poderes cognitivos e o próprio pensamento fica comprometido. E, assim, certamente se afasta da família. Por isso é tão difícil tratar quem está na rua, quem já não tem mais laços com ninguém. Então, considero que a internação compulsória pode ajudar esses indivíduos em situação de rua. Faria toda a diferença ter um lugar para se desintoxicar e aprender sobre a própria dependência química. Mas a questão é o que vem depois.
O que deveria vir depois?

Precisamos de uma rede. Não adianta só internar. Em determinado momento, o dependente sairá da internação, não é? E aí? Aonde irá? Quem irá ajudá-lo a cuidar dessa doença crônica depois? Afinal, estamos falando de uma doença crônica, quer dizer, incurável. O tratamento só atinge a estabilização da doença - aí se incluem crackeiros, fumantes, maconheiros, etc. O indivíduo precisa se tratar ao longo da vida. Precisa da família no entorno. E de recursos para ter uma vida humana, uma vida "normal".
Isso não estigmatiza o dependente?

Lógico que não. O hipertenso é estigmatizado? O diabético é estigmatizado? Não. Ninguém que tem uma doença crônica é estigmatizado. E, na minha opinião, dependência não se trata apenas com uma abordagem simples. É preciso uma rede de cuidados - recuperar o corpo e a mente, voltar a trabalhar. Após o tratamento, precisamos garantir o acesso aos medicamentos, à dieta, aos exames complementares. Se não tivermos isso, não adianta internar. E a questão é que não estamos preparados para isso. Não temos nem médicos especialistas para se dedicar ao dependente, que dirá uma equipe multidisciplinar especializada para abordar a família e promover a reinserção do dependente na sociedade.
Em termos realistas, como está essa rede atualmente em São Paulo?

Ainda está muito frágil. Na verdade, ainda precisa ser reorganizada regionalmente, ampliando os recursos para as microrregiões de São Paulo, ampliando o treinamento de equipes multidisciplinares. A bem da verdade, essa rede ainda precisa ser montada. E ainda não conheço nenhum levantamento nacional que registre um modelo de tratamento ideal no Brasil.
O programa paulista diz que a internação compulsória visa apenas à ‘exceção da exceção’. Focando uma parcela tão pequena dos dependentes de crack, o que se pode esperar dessa iniciativa?

Estamos falando dos "fim de linha", dos "vulnerabilidade 100%", dos desprovidos de qualquer chance de viver. Se um desses dependentes tiver uma convulsão na rua, ele morre. E quem é esse cara? É um zumbi. Também há adolescentes, crianças, gestantes, jovens, e outros adultos com transtornos mentais graves. Não sei ao certo o que se espera dessa iniciativa, teria que me teletransportar para a mente de um desses políticos e juristas para responder isso. Mas penso que a medida pode salvar vidas, sim. Sou médica, logo devo falar a partir do meu lugar. E se a Justiça e o governo entraram em campo, vejo benefícios. Não faria como uma medida única. Também não digo que se deva internar todo mundo, afinal essa iniciativa é para uma minoria.
O governador Geraldo Alckmin se surpreendeu com as internações nesses primeiros dias. A procura realmente superou as expectativas?

Eu já esperava muitas internações, pois é a amostra populacional mais vulnerável e mais grave, que demanda uma intervenção complexa e intensiva. A diferença é que sou médica especialista. E ele é o governador, um gestor público que precisa lidar com bandidos, construções, drogas, rodovias etc. Ele vê o macro, eu vejo o micro.
Também ocorreram internações voluntárias e buscas pelo programa.

É positivo, mas só se tiver avaliação e orientação para cada caso. Pois nem todo mundo que procura o Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas) realmente precisa de internação. A medida criou uma expectativa, mas é preciso frisar que a internação é indicada para uma minoria. O diferencial é que essa amostra (da cracolândia) provavelmente precisaria ser internada, na maioria.
Outros especialistas criticam a medida argumentando que a internação compulsória é um sistema de isolamento social, não de tratamento. O que a sra. pensa disso?

Discordo. Não é isso. É preciso entender que esses indivíduos já perderam tudo. Queremos dar alguma dignidade a eles, para decidirem mudar de vida. Internados, eles vão sair da dor da síndrome de abstinência, vão ter novas chances. E eles não têm mais autonomia para decidir se devem ser internados ou não. A droga altera a capacidade de crítica desses indivíduos. O crack age no córtex pré-frontal, que constantemente analisa a realidade e forma o pensamento. Com a dependência, essa capacidade está comprometida. E estamos falando de dependência grave, que já provocou sequelas no cérebro. Ainda mais na rua, esses dependentes não têm mais vínculos sociais. Eles precisam dessa oportunidade para receber um bom tratamento, para poder olhar o outro lado da história.
A internação forçada (involuntária ou compulsória) traz bons resultados?

Nem sempre, mas não por causa da internação. Falta o resto. Isso é importante: internação não é tratamento. É um pedacinho do tratamento. Para nós, tratamento quer dizer internar e desintoxicar. Para outros, quer dizer ambulatório, naqueles Caps-AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) desatualizados. Nós analisamos a efetividade de um tratamento após dois anos. Só então poderemos dizer se deu certo ou não. E cada caso é um caso.
Há diferenças entre o Cratod (iniciativa estadual) e os Caps (iniciativa municipal)?

Sim. Há mais profissionais especializados e treinados no Cratod. É o primeiro centro de referência da cidade, mas não sei como está funcionando atualmente. Trabalhei no Caps-AD da Sé de 2009 ao fim de 2010. Eu não tinha cargo de atendimento clínico, mas, por diversos momentos, precisei vestir o avental e atender as pessoas. Não podia ficar sentada na minha cadeirinha, pois senti que estava diante de uma guerra mesmo. Na cracolândia, tentamos ajustar nossas intervenções, mas precisávamos de mais recursos e mais medidas. Por exemplo, precisaríamos compor e treinar mais equipes multidisciplinares. Na época, também tentamos mudar o modelo, para conseguir atender mais pessoas. Partimos de um modelo com baixíssima taxa de adesão - com atendimentos mais individualizados e sem o protocolo "porta aberta", isto é, as pessoas precisavam agendar consultas e esperar. Implementamos a ideia da "porta aberta" e, assim, as pessoas eram recebidas por uma equipe clínica com psicólogo, enfermeiro e assistente social. Outra mudança: antes as pessoas eram atendidas e ficavam no Caps, com atendimento intensivo por até oito horas - se não melhorassem, eram encaminhadas ao pronto-socorro. Decidimos botar todo mundo para dentro, nos moldes de um hospital-dia para pacientes agudos. E sugeríamos internação para quem não tinha casa. Assim, tivemos muita adesão. Era interessante, pois muitos passaram a bater a nossa porta, buscando tratamento, já querendo parar com a droga. Estávamos propondo um modelo de transição, pois, na minha opinião, o modelo do Caps-AD não funciona para crack. Mas, depois disso, o convênio com a Unifesp foi desfeito. Até hoje não sei por quê.
Em visita a São Paulo, o atual prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, disse que pretende implementar na capital colombiana uma medida de ‘oferta controlada de drogas’. Isso daria certo no Brasil?

Conheço a medida. Inglaterra e outros países europeus contam ou contaram com ela. Não daria certo no Brasil. Sou totalmente contra, pois o País não tem uma política de drogas que garanta essa medida. Para termos uma medida de vanguarda como essa - querer imitar a Inglaterra, imagine a pretensão desse colombiano -, precisaríamos da política inglesa, além de campanhas preventivas, centros controlados por pesquisadores e muitos médicos, equipes especializadas. No Brasil, viraria a casa da mãe joana. Não tem nada a ver. O Brasil não tem nada a ver com Holanda, Inglaterra, Portugal, com nenhum país que testou essa política. Não temos uma política assim até agora, pois o País nem sequer entende o que é a dependência de drogas. Estamos vivendo a segunda onda da epidemia do crack no Brasil - a primeira aconteceu na década de 1990. O crack atrai pelo apelo psicotrópico, a matéria-prima (a cocaína) e o preço. E está fora de controle: não temos campanhas de prevenção, nem modelos de tratamento, nem controle da oferta. A sociedade precisa parar para enfrentar o fenômeno. A política precisa passar a tratar o crack como doença crônica, com campanhas e programas específicos. E não temos isso. Mas, na minha opinião, não cabe política de redução de danos para nenhuma droga. Atualmente, essa medida é feita para a heroína, por exemplo, com a prima irmã (a metadona). No caso do crack, não conheço nenhuma medida alternativa. Fazer o quê? Dar meia pedra de crack? Só conheço tratamento, com abstinência, para desativar o mecanismo compulsivo. Talvez Dartiu (Xavier) conheça outra medida, pergunte a ele...
Se não temos campanhas, controle e modelos, não estamos começando pelo final? Quer dizer, com um programa de internação compulsória sem ter feito o básico antes?

Não temos nada, nem ações, nem campanhas. Precisamos de uma política de drogas pensada para as diferentes regiões, e com os países vizinhos também. Mas não podemos bancar o macaco. Para dar certo, precisamos elaborar nosso próprio modelo, considerando nossas realidades, nossos recursos e nossas necessidades. Precisamos de um comitê para articular o levantamento de recursos e das políticas municipais que estão dando certo - e adaptá-las, pois as diretrizes nacionais não valem para todas as regiões. Mas, antes de tudo, é preciso garantir o desejo político para isso. No ano passado, conversei com 4 mil prefeitos na Confederação Nacional dos Municípios, em Brasília. Eles dizem que 80% das cidades estão tomadas pelo crack. Quer dizer, todo político deve desejar uma política para dar fim ao crack. O presidente, o governador, o prefeito, todos precisam querer mudar esse quadro.
Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,na-quebrada-dos-fim-de-linha,989157,0.htm

Empresas investem no combate à dependência química



Um operador de máquinas da Goodyear começou a cheirar cola aos 13 anos. Pouco tempo depois conheceu a maconha e, aos 28 anos, virou usuário de cocaína. Exaurido pelos problemas causados pela dependência química, ele decidiu mudar o estilo de vida. E foi na empresa que encontrou o apoio necessário para dar fim ao vício. A ajuda partiu de um programa de combate à dependência química, o Prosa G, implantado na fábrica da Goodyear em Americana (SP). Como o operador de máquinas, quem decide participar do projeto, que tem duração de dois anos, recebe acompanhamento médico e psicológico.

Durante o primeiro ano, o apoio é estendido aos familiares e a etapa final do tratamento incluiu 30 dias de internação em uma clínica especializada, além de todo suporte posterior.

Outro funcionário da Goodyear, da área de construção de pneus, abandonou a dependência ao álcool, engrossando a lista dos quase 60 colaboradores que o programa já reabilitou desde sua implementação, em 2005. Ele conta que já conhecia o programa por meio das palestras na empresa, mas só aceitou a ajuda quando percebeu que a dependência afetava sua rotina, inclusive durante o expediente. “Eu deixei de ser responsável, não tinha compromisso com o trabalho, não cumpria todas as normas e tinha deixado até de usar alguns equipamentos de segurança”, afirma. Hoje, aos 37 anos, não sente saudade da vida que levava anteriormente.

Para o gerente de Recursos Humanos da Goodyear de Americana, José Carlos Marzochi, o segredo da eficiência no combate ao abuso do álcool e entorpecentes no ambiente de trabalho é um programa voltado tanto para os interesses da companhia quanto dos colaborares e de seus familiares. “O assunto exige atenção especial das áreas de Medicina do Trabalho, Assistência Social e RH das organizações que buscam melhoria contínua”, diz Marzochi. Ele lembra que o consumo de drogas está diretamente relacionado a acidentes de trabalho, queda de produtividade, absenteísmo e deterioração das relações sociais e familiares. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 71% dos usuários de drogas ilícitas em todo mundo estão empregados e fazem parte do mercado de trabalho. Os profissionais ouvidos pela reportagem destacam que, se não fosse o apoio recebido da empresa, não teriam abandonado o vício. “Voltei a sonhar”, ressalta o operador de máquinas, que se diz ainda mais feliz por ter estabelecido um elo mais forte com a filha.

Redução do fumo

Já o programa antitabagismo da ArcelorMittal, em Tubarão (SC), conseguiu reduzir de 34% para zero o número de fumantes entre seus 4,8 mil colaboradores. Desde o início, em 1993, a produtora de aço contabilizou uma economia de R$ 30 milhões com despesas médicas. Aberta para os contratados e também para os terceirizados, a iniciativa espera, além do benefício financeiro, contribuir para que nenhum desses profissionais tenha futuramente uma das 53 doenças a que estão mais expostos os dependentes do cigarro.

O programa surgiu após a realização de uma pesquisa, em 1992, que mapeou o número de fumantes, há quanto tempo fumavam e qual o interesse em parar com o vício. O tratamento inclui a formação de grupos de apoio, palestras educativas, acompanhamento médico e uso de medicamentos, exames periódicos e implantação de áreas restritas para o fumo.

Segundo o gerente de Saúde e Medicina da ArcelorMittal, Fernando Ronchi, a primeira turma contou com 20 empregados que aderiram imediatamente. O programa foi ganhando força na medida em que os resultados eram percebidos pelos colegas. “O tratamento é realizado em grupo, em que cada empregado conta suas experiências, aflições e constrangimentos, além de refletir sobre a importância de parar de fumar”, afirma Ronchi. Quem precisa de suporte medicamentoso conta com uma equipe multidisciplinar que garante todas as orientações e suporte. “As reuniões acontecem a cada quatro semanas, durante seis meses”, acrescenta o gerente, complementando que o controle passa a ser feito posteriormente por meio dos exames periódicos.

Um programa antitabagista também faz parte da política da Dow Brasil. A iniciativa visa melhorar a qualidade de vida dos profissionais e já resultou em redução considerável do percentual de tabagistas na empresa. No início do projeto, em 1995, 24% dos colaboradores eram fumantes; em 2012, apenas 5% deles fumavam. Lucio Ribeiro, coordenador dos Serviços de Saúde da companhia, explica que quem adere à iniciativa tem, além de toda a estrutura de apoio, subsídio de 80% na compra dos medicamentos necessários para abandonar o vício. “Acreditamos que os investimentos em iniciativas como essa são ínfimos comparados ao retorno”, diz ele, referindo-se aos benefícios tanto para a empresa quanto para o colaborador.

Apesar dos resultados satisfatórios, as empresas que dão suporte aos dependentes ou que têm projetos nesse sentido são exceções no Brasil, segundo a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecilia Roselli Marques. Preocupada com as consequências do trabalho sob efeito de substâncias químicas, Ana é favorável a políticas empresariais sobre drogas e a adoção de testes toxicológicos obrigatórios no ambiente de trabalho, principalmente em atividades que colocam a vida de outras pessoas em risco, como operadores de máquinas. Uma ideia da gravidade são os dados do Ministério da Saúde, que registram que o álcool é responsável por 50% do absenteísmo – terceira causa de faltas ao trabalho – e licenças médicas – três vezes mais que outras doenças. O abuso de álcool também reduz em até 67% a capacidade produtiva do funcionário e é responsável por cerca de 25% dos acidentes de trabalho. “As empresas precisam encarar a dependência química de frente, como uma doença e sem preconceitos”, afirma Ana Cecilia.

No Brasil, exceto a Lei 12.619/12 – que obriga o motorista profissional a submeter-se a exames toxicológicos – não existe nenhuma previsão legal para a realização desses testes por parte do empregador, explica Giancarlo Borba, advogado especializado em direito trabalhista. Livre para decidir se deve ou não submeter a equipe ao procedimento, Borba alerta para outros detalhes. “É importantíssimo que seja esclarecido que o exame será feito por profissionais especializados, usando métodos confiáveis e que o resultado permanecerá em total sigilo”, afirma ele, que completa: “Além disso, deve se deixar claro que o resultado admite contraprova”.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Renda e drogas estão em alta



Polícia flagra maior circulação de LSD, ecstasy e outras substâncias caras

Quanto mais conhecido na balada, mais fácil fica encontrar o caminho para a "vibe (vibração)perfeita". Mas, além da influência, também é preciso ter dinheirono bolso: R$ 50 é o valor mínimo que se paga por uma noite de alucinações e sensações de euforia. E não falta por aí quem queira comprar o prazer em forma de remédio. Com o aumento da renda do mineiro, cresce também o consumo de substâncias entorpecentes mais caras, como o ecstasy, o LSD e outras drogas sintéticas.

Dados da Polícia Federal (PF) mostram que, no ano passado, foram apreendidos 92.883 comprimidos de ecstasy no Estado, número 135,7 vezes superior ao retido pela corporação em 2010 (684 unidades). A presença do LSD também se multiplicou nos flagrantes da PF, passando de 2.370 micropontos (pequenos quadrados com cerca de seis milímetros) encontrados em 2010 para 24.860 em 2011, o equivalente a dez vezes mais.

"O aumento se deve ao número maior tanto de operações da polícia como de uso por parte da população, que está investindo mais nas drogas caras", afirma o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF, João Geraldo. O balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF) 
também mostra crescimento de apreensões de LSD, ecstasy e outras drogas sintéticas. 

Em 2011, 322 unidades desse tipo de substância foram parar nos depósitos da corporação, contra 36 em 2010. Em contrapartida, os flagrantes de cocaína e crack, que têm menor preço, tiveram queda (veja quadro abaixo).

Para o presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Joaquim Melo, há uma tendência das classes média e alta em trocar a cocaína e o crack pelas drogas sintéticas. "Elas vêm da Europa e estão na moda. Não digo que já viraram uma epidemia, mas, se continuar no ritmo que estão, vão virar", declara Melo.

O delegado João Geraldo explica que há um status envolvendo as drogas sintéticas. "É muito mais fácil dizer que está usando ecstasy do que cocaína, que parece mais viciante", diz Geraldo. No entanto, a psiquiatra e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecilia Roselli Marques afirma que o impacto do ecstasy é mais devastador do que o da cocaína. "Ele é derivado da anfetamina, que destrói os neurônios", explica. O LSD, segundo ela, também causa dependência, e seus efeitos ainda são pouco estudados.

Os malefícios, porém, não impedem o publicitário Renato (nome fictício), 29, de usar o ecstasy a cada 15 dias. "Costumo comprar três comprimidos na balada, mais um alucinógeno. Gasto cerca de R$ 300 por noite, mas vale a pena, a vibe é perfeita".

Consumo vai além das raves e atinge eventos de axé e de sertanejo

Com o aumento da procura pelas drogas sintéticas, o consumo não está apenas restrito a raves, como são chamadas as longas festas de música eletrônica. Segundo o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal, João Geraldo, o ecstasy e o LSD já chegaram também aos eventos que tocam músicas sertaneja e axé. 

"Os produtos ainda são comuns em festas privadas. Do jeito que está, é possível prever uma epidemia de ecstasy no Brasil, assim como estamos vendo com o crack", afirma o delegado. Um estudo feito pelo Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) revela que a idade média para se começar a usar ecstasy é de 20,5 anos, e o LSD, 19,5. 

O publicitário Renato (nome fictício), 29, conta que experimentou o ecstasy pela primeira vez há dois anos, na balada de música eletrônica que frequentava. "Eu já tinha ouvido falar dos efeitos e procurei quem vendesse. Não foi difícil, mas é preciso ter bastantes contatos", relata. Ele diz que gosta de usá-lo com um alucinógeno para dar uma "vibe" melhor. "Só não misturo com álcool para manter o controle. Chego a ficar 24 horas fritando (ligado)". (LC)





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Estudo aponta origens do vício


Cresce em consultórios e clínicas número de dependentes de drogas, álcool, sexo, comida e outros males.
Na Paraíba, 435.988 pessoas (11,5% da população) são viciadas em tabaco. O álcool faz o segundo maior número de dependentes no Estado, com uma média de 376 mil viciados. As drogas ilícitas já escravizam milhares de paraibanos: crack (111 mil pessoas) maconha (112 mil) e cocaína (75.330). Além disso, cresce nos consultórios e clínicas o número de pessoas procurando ajuda porque não conseguem mais parar de trabalhar, comer, comprar, fazer sexo, se exercitar ou navegar na Internet. Ainda existe a ‘dependência cruzada’, quando uma pessoa
tem dois ou mais vícios ao mesmo tempo. Especialistas alertam que tudo começa com uma sensação de prazer ou de preenchimento de um vazio e vira doença.
Por que as pessoas se viciam? Pesquisas e estudiosos dizem que qualquer ser humano é um alvo em potencial do mal. A chave pode estar na genética (risco é de 30%), na mente (30%), no meio social (30%) e até na falta de religiosidade (10%), de acordo com a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Roselli. E há cura? “Não, mas o tratamento adequado pode levar o indivíduo a controlar sua doença e à remissão total”, afirma Ana Cecília.
A psiquiatra explica que o tratamento pode ser feito com medicamentos (antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina) e com outros métodos, como grupos de ajuda, clínicas de reabilitação e terapias espirituais. “Independente do método, o tratamento é baseado na desintoxicação, prevenção de recaídas, tratamento das complicações, tratamento da família e manutenção da abstinência”, esclareceu.
Disponível em: http://www.abead.com.br/imgs/file/Correio_da_Paraiba.pdf

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uso da maconha começa cada vez mais cedo no Brasil


Em 2012, 62% dos usuários experimentaram a droga antes dos 18 anos; em 2006, o índice era de 40%.

SÃO PAULO, Brasil – Ele deu o primeiro trago em 2001, quando tinha 16 anos.
Desde então, por seis anos, o comunicador Vinícius Werner, 27, fumou maconha todos os dias. Em todo o Brasil, 1,5 milhão de adolescentes e adultos também usam o entorpecente diariamente.

Como Werner, 62% dos usuários brasileiros tiveram contato com maconha antes de completar 18 anos, de acordo com o segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

E a tendência é de alta. Em 2006, quando foi realizado o primeiro estudo, o índice era de 40%, segundo a Unifesp.

“Quanto mais cedo ocorre o consumo da droga, maior é a chance do desenvolvimento de dependência”, explica a psiquiatra Clarice Sandi Madruga, coordenadora do levantamento.

Realizado em 149 municípios, o estudo ouviu 4.607 pessoas a partir dos 14 anos que responderam a um questionário sigiloso com mais de 800 perguntas sobre o uso de álcool e drogas.

Cerca de 8 milhões de brasileiros – 7% da população adulta – já experimentaram maconha ao menos uma vez na vida. Desse total, 3,4 milhões de pessoas (3%) utilizaram o narcótico no último ano.

Entre os menores de idade, mais de 600.000 já tiveram algum contato com o entorpecente ao longo da vida – 470.000 deles nos últimos 12 meses.

Tanto adultos quanto adolescentes têm acesso à droga comprando de alguém (60% dos casos) ou ganhando de algum amigo (35%). A diferença é que, enquanto os adultos conseguem maconha em locais públicos e pontos de venda, os menores de idade têm outro ponto de distribuição: a escola.

Efeitos da dependência

O Brasil não está entre os três maiores consumidores de maconha do mundo, segundo o levantamento da Unifesp. O percentual de indivíduos que utilizaram a droga no último ano chega a 14% no Canadá, 13% na Nova Zelândia, 10% nos Estados Unidos e no Reino Unido e 7% no Chile, na Argentina e no Brasil.

Mas a taxa de dependência entre os brasileiros se equipara à de outros países: 37% dos adultos que usam maconha são viciados – cerca de 1,3 milhão de pessoas, segundo o estudo da Unifesp.

Entre os fatores que indicam vício, estão a ansiedade pela falta da droga e a sensação de falta de controle.

A toxicomania é menor entre os adolescentes (menos de 10% entre usuários), mas é extremamente nociva à saúde desse grupo, já que a substância causa alterações irreversíveis no cérebro ainda em desenvolvimento, explica Clarice.

“O cérebro só termina de amadurecer perto dos 25 anos, por isso o uso de maconha antes disso aumenta as chances de desenvolvimento de outras doenças psiquiátricas, como depressão e transtornos de ansiedade”, completa Clarice.

O consumo precoce da maconha age sobre o sistema nervoso central diminuindo a atenção, a concentração, a memória e a capacidade de resolver conflitos, segundo a psiquiatra e neurocientista Ana Cecilia Marques, coordenadora do Departamento de Dependência em Álcool e Drogas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

“Estudos apontam que a taxa de dependência entre jovens que consomem álcool aos 16 anos varia de 6% a 8%. Se começaram aos 12 anos, o índice sobe para 10% a 12%”, aponta Ana Cecilia, ao lembrar que não há um estudo mais aprofundado sobre o uso precoce da maconha. “Esse percentual também é esperado para outras drogas, pois elas afetam o sistema límbico, que é o mesmo prejudicado pelo álcool.”

Como consequência do consumo precoce de entorpecentes, o usuário pode ter dificuldades para estudar, trabalhar e se relacionar com outras pessoas. Esses danos podem levar a depressão, ansiedade, além do desenvolvimento de esquizofrenia e outras neuroses, de acordo com Ana Cecilia.

Flexibilização

No Brasil, qualquer tipo de acesso à maconha é proibido: desde o uso medicinal até o cultivo para consumo próprio e a compra e venda da droga.

Nos últimos anos, porém, o debate sobre a possibilidade de descriminalizar ou legalizar a droga ganhou força. O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso é uma das personalidades que tem se manifestado a favor da mudança na legislação.

Em 2012, mais de 200 cidades sediaram a Marcha da Maconha, uma passeata realizada por defensores da regulamentação da erva.

“Estamos falando do fato de a proibição trazer muitíssimos problemas e não controlar o consumo de forma alguma, nem entre os adolescentes”, defende Alexandre de Castro, um dos organizadores da Marcha da Maconha em Belo Horizonte (MG).

Ainda assim, apenas 11% das pessoas entrevistadas no levantamento da Unifesp são favoráveis à legalização da maconha, enquanto 75% são contra.

“É muito difícil predizer como seria essa flexibilização num país como o Brasil, pois é complicado usar países pequenos como base para esta decisão", comenta Clarice. "Além do mais, é importante lembrar que o projeto de lei que está em votação é para todas as substâncias psicotrópicas e não só a maconha.”

A psquiatra lembra ainda que o aumento da disponibilidade de qualquer droga eleva seu consumo e que menos de 20% dos viciados procuram tratamento médico.
“Independente da discussão da lei, é inquestionável a necessidade de mais centros de atenção primária, principalmente de CAPS-AD (Centros de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas)”, defende Clarice.

Para Ana Cecilia, antes de discutir legalização de outras drogas, o governo deve garantir que menores não tenham acesso a entorpecentes hoje considerados legais.

“Eu só acredito em uma coisa: uma política que proteja a criança e o adolescente de drogas inclusive legais, como o álcool e o tabaco, que também são proibidas para menores de 18 anos”, afirma Ana Cecilia.

Disponível em: http://infosurhoy.com/cocoon/saii/xhtml/pt/features/saii/features/main/2012/11/07/feature-02