segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As escolas que transformam ex-dependentes em terapeutas


Cursos utilizam a experiência com as drogas em técnicas de reabilitação. “Do fundo do poço nascem exemplos bons”, diz Mauro, que venceu o crack
Mauro já foi dependente químico e hoje trabalha na reabilitação de usuários. 'Do fundo do poço nascem exemplos bons'
Os dois heróis de Mauro estão mortos. O primeiro, um tio traficante, foi assassinado bem ao seu lado e deixou o cheiro de pólvora nas narinas do jovem por muitos anos. O segundo, um dependente químico em recuperação, perdeu a vida num acidente de carro antes de poder conviver com Mauro limpo, longe das drogas. Esta morte deixou vazio.

O fato de ter testemunhado os dois óbitos quando não tinha nem 19 anos também aparece entre os motivos para Mauro, hoje com 42, ter procurado formação específica para virar terapeuta. Hoje, ele ajuda a tratar pessoas que, assim como ele, tentam diariamente ficar longe do crack, da cocaína e do álcool.

Os três vícios o acompanharam por quase três décadas (desde os 14 anos) e, depois de uma coleção de perdas acumuladas no período, ele sonha um dia ser apontado como herói por ao menos um dos inúmeros pacientes que agora ajuda. Um herói que não vende mais drogas e que quer estar vivo para ver a transformação daqueles que passou a acompanhar.
"Eu quero ser exemplo de que é possível renascer, mesmo após anos de uma vida anulada pela dependência química", diz antes de começar as nove horas diárias de trabalho que exerce na Clínica Maia, há sete meses.
Os serviços de tratamento psiquiátrico passaram a enxergar em ex-dependentes como Mauro uma ferramenta importante para tratar pessoas que ainda estão envolvidas com drogas. Hoje, as clínicas utilizam esta mão de obra como "coringa" na terapia que mescla medicamentos, abstinência e abordagens psicológicas.
A Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract) detectou esta estratégia e criou cursos de capacitação específicos para a formação de ex-usuários em terapia holística.
Até o final do ano, devem ser capacitados para a função 900 ex-dependentes. Em 2011, foram 705 formados na instituição e, no ano anterior, 500. Outros centros acadêmicos, como o da Universidade Federal de São Paulo, também atuam nesta formação.
“Em média, 95% das pessoas que nos procuravam para a capacitação já haviam tido envolvimento com as drogas”, afirma Juliano da Silva Marfim, coordenador administrativo da Febract, e ele próprio uma confirmação da tendência.
“Eu mesmo, até virar terapeuta, fui paciente. Sou alcoólatra e estou limpo há 5 anos e 11 meses”, conta Marfim, 29 anos.
“Trabalhava em uma multinacional e depois que terminei o tratamento fui demitido. Atuar com os dependentes, após o treinamento específico, foi uma forma de voltar ao mercado e também ajudar os profissionais de saúde a traçar estratégias mais efetivas de recuperação. Por isso, o treinamento é tão importante.”
Segundo os médicos, os ex-dependentes fazem da vivência um “medicamento” importante para ampliar os índices de recuperação de viciados. As taxas que mensuram este renascimento ainda são modestas e não superam a casa dos 30%, de acordo com os levantamentos catalogados pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psciotrópicas (Cebrid).
Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou em seu último boletim que o consumo de drogas, especialmente a cocaína, é crescente no mundo todo. No Brasil, a Previdência Social também mapeou que as licenças trabalhistas para tratar a dependência, de profissionais de todas as áreas, está em ascensão.
O trabalho deles

A psiquiatra Ana Cecília Marques, conselheira da Associação Brasileira de Estudos sobre Drogas e Álcool (Abead), explica que a relevância da atuação dos ex-dependentes é expressada já no início do tratamento dos novatos.
“A motivação dos dependentes é instável nos primeiros meses. Tal recurso pode ser aplicado para ajudar a manejar uma doença tão complexa.”
A complexidade do tratamento, explica o coordenador Juliano Marfim, é que não existe um “tratamento universal” para o problema das drogas.
“Este é o grande desafio da capacitação dos ex-dependentes. O que mostramos nas aulas e nos estágios monitorados é que o que funcionou para eles pode não ter o mesmo efeito em outros. Por isso, eles precisam ter um conhecimento integral das técnicas. Para apresentar este leque de possibilidades às pessoas que chegam à reabilitação”, afirma.

Fundo do poço

Mauro confirma que uma das grandes dificuldades é constatar que a fórmula que o tirou da “vida miserável”, muitas vezes não se aplica aos jovens, tão parecidos com ele, que chegam à clínica.
“Às vezes dá raiva, sensação de impotência. Porque um cara cheio de potencial não segura, com todas as forças, a corda que você oferece a ele. Mas talvez ele precise de outra forma de resgate. É um trabalho longo e nos ajudamos os psiquiatras e os psicólogos nisso”.
Nestes sete meses em que virou terapeuta, ele diz que ainda se surpreende sobre como “o fundo do poço pode ser terreno fértil para nascer exemplos bons”.
“Eu estudei nos melhores colégios, tinha casa na praia, roupa de marca. Ganhei meu primeiro carro zero aos 18 anos e troquei por dois quilos de cocaína duas semanas depois. Deixei o conforto da minha casa para morar em um barraco na favela só para ficar mais próximo das drogas. Quem apostaria fichas em mim?”, questiona.
“Até eu duvidava. Mas estou aí. Mostrando que a vida não precisa acabar na dependência.”
A favela da zona sul paulistana onde Mauro morou e presenciou a morte de seus dois heróis ainda é frequentada por ele.
“Volto sempre lá com meu filho, que está com 8 anos, para conversar com as crianças e com os adolescentes. Gosto do que sou agora. E quero mostrar que não é preciso se espelhar no homem que eu já fui.”


Infográficos:



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool



Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.
Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.
Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.
A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.
“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.
O QUE O QUE JÁ SE SÁBIA SOBRE O ASSUNTO
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.

Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”

terça-feira, 5 de junho de 2012

Atendimento a dependentes aumentou 50% após operação


No entanto, rede pública não integra serviços necessários para manter viciado longe das drogas; 106 pacientes foram encaminhados para internação

Desde que começou a operação Centro Legal na Cracolândia, o número de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da região central de São Paulo aumentou em 50%, informa a Secretaria Municipal de Saúde. Os CAPS são unidades de portas abertas onde os dependentes se tratam sem ficarem internados. No caso dos pacientes encaminhados para internação, foram 106 nos primeiros quinze dias da operação, iniciada em 3 de janeiro.
A coordenadora de Saúde Mental do município, Rosangela Elias, explica que a internação geralmente é indicada para os pacientes que apresentam algum problema de saúde mental juntamente com a dependência, ou para aqueles em situação de risco, que não conseguem se afastar das drogas para iniciar um tratamento. “Os que não apresentam nenhum quadro clínico associado ao vício podem ser encaminhados para as comunidades terapêuticas conveniadas”, disse.
Segundo a secretaria, o município oferece atualmente 371 leitos somente para o tratamento de dependentes químicos, sendo 80 no Serviço de Atenção Integral ao Dependente (SAID) e 291 em comunidades terapêuticas.
Rosangela Elias reconhece que a rede de atendimento ainda não é perfeita, mas enfatiza que a prefeitura tem garantido vagas de internação para todos que procuram tratamento. Para reforçá-la, a secretaria está credenciando dez residências terapêuticas próximas aos CAPS, onde os pacientes que não tem emprego nem casa ficariam por um tempo determinado até conseguir estabilidade para seguir o tratamento fora das clínicas de internação.
Deficiências – A psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecilia Marques aponta que em São Paulo ainda há deficiência de vagas em leitos especializados para atendimento de viciados em crack, especialmente adolescentes e grávidas. Na sua avaliação, também falta uma integração entre os serviços de saúde e assistência social, além de haver poucas ações preventivas.

"Algumas pessoas não têm casa nem trabalho. Não adianta encaminhar para tratamento no CAPS sem oferecer recursos sociais mínimos para esses indivíduos", afirma. A psiquiatra explica que um viciado em crack precisa estar em tratamento contínuo por, no mínimo, doze meses. Entre os usuários de crack, a necessidade de internação para deixar o vício é três vezes maior que no caso dos alcóolatras, por exemplo.
Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/atendimento-a-dependentes-aumentou-50-apos-operacao

Ruas viram feira livre em novo reduto do crack em SP


SÃO PAULO, 4 Abr (Reuters) - Quando anoitece, um acende e apaga de isqueiros e fósforos denuncia que o crack está enraizado em redutos dos principais centros urbanos do país, apesar dos esforços ainda insuficientes para conter a epidemia da droga barata que "fissura".
Imagens captadas pela Reuters durante 24h em algumas das cidades sedes da Copa do Mundo de 2014 provam que ainda é preciso fazer muito para controlar o consumo desenfreado e público da droga.
Craqueiros inquietos, em uma cena que faz lembrar o burburinho das feiras livres, se agrupam em calçadas das ruas centrais da capital paulista na tentativa desesperada de obter uma "pedrinha".
O domingo no centro paulistano mostra sua cara como um dia normal de descanso, território ideal para os usuários de crack, que aproveitam o dia e se sentam em frente às portas do comércio local à espera do traficante ou do "aviãozinho", aquele que traz a droga de bicicleta. Quem já tem a sua, se vira de costas para a rua e, desafiando o vento, tenta acender o cachimbo improvisado.
A poucos metros da avenida São João, no centro antigo da cidade, há jovens, idosos, deficientes físicos de muleta e cadeira de rodas, mulheres grávidas e algumas crianças: o crack consome indiscriminadamente os moradores de rua.
Um homem passa e canta: "O crack é muito bom, não quero largar, olha como sou chique." Minutos depois, uma moça vestindo uma blusa com capuz cor-de-rosa, com olhar alucinado, comenta: "Não olhe pra mim, eu não sou bonita."
Impacientes, eles andam com a mão fechada para não deixar as pedras cair. Apesar do baixo valor -é possível comprar uma pedra por 2 reais- é um tesouro nas mãos de quem consome. Perambulando pela rua, às vezes escondem facas sob cobertores para se defenderem. Não mexem com quem passa, desde que não sejam incomodados na "boca de fumo".
Na mesma área, duas traficantes se misturam ao grupo -uma mulher de boné com dinheiro visível na mão e outra mais bem vestida que sai sorrateiramente com uma sacola de plástico, depois de alimentar "craqueiros" ávidos por mais uma fumada. Quem trafica geralmente não consome.
Os usuários desse subproduto da cocaína, que antes ficavam restritos a uma área da capital conhecida como Cracolândia, onde se concentravam em grande número, agora migraram para outras regiões do centro antigo, como as ruas próximas ao Largo do Arouche.
A dispersão veio depois que a Polícia Militar conduziu uma operação em janeiro para combater o tráfico de drogas, diminuir a criminalidade e recuperar áreas degradadas, com abordagens de pessoas, encaminhamentos, internações e apreensões de milhares de pedras de crack.
O problema apenas mudou de lugar. "A cracolândia não acabou", disse o dono de um hotel que fica no novo reduto dos usuários.
Para uma moradora da região, não há mais liberdade. "Dormir já não se dorme mais. Eles falam alto, brigam, gritam. A única coisa que nós não temos é liberdade de ir e vir... Eles estão numa situação que eu não sei como ainda respiram. Você olha nos olhos deles, eles estão definhando", afirmou Rose, que pediu para não ter seu nome divulgado.
O crack chega ao sistema nervoso central de 8 a 15 segundos, e a ação da droga não dura mais do que 10 minutos. É isso que faz o usuário ficar fissurado para querer consumir uma pedra atrás da outra -em um dia chegam a fumar até 15 pedras.
Os craqueiros andam olhando para o chão em busca do farelo que o outro pode ter deixado cair. Muitos estão descalços, com os pés calejados pelo constante vaivém. Os pedestres já não se importam, passam, desviam e seguem sua caminhada.
A migração dos usuários da Cracolândia paulistana fez muitos donos de lojas e estabelecimentos contratarem seguranças privados. Eles começam o trabalho à noite e, munidos de cassetetes de madeira, afugentam os grupos das portas e calçadas, mas sem atingi-los.
"Trabalho há cinco anos como segurança noturno e a situação tem piorado muito. A gente sozinho não consegue lidar com eles", afirmou José Maria, que temendo uma represália preferiu não revelar o seu sobrenome. Havia três seguranças para uma rua.
Já passa da meia-noite, em algumas horas a semana de trabalho está por começar na maior capital do país quando uma mulher com uma criança no colo, coberta por um xale, se aproxima do grupo que a essa altura já quase fecha a rua de tão numeroso. São cerca de 300 pessoas. Um menino, que aparenta ter no máximo 10 anos, empurrando um carrinho de boneca, pergunta: "Mãe, você tem troco pra ele?", após entregar ao cliente as pedras do crack.
A maioria carrega uma sacola com objetos que estão à venda para conseguir dinheiro para a droga. A polícia passou duas vezes em 15 minutos, mas sua ação limitou-se a espantar os usuários da rua que, sem outro destino, se aglomeram nas vias paralelas para depois voltarem em uma peregrinação sem fim. Desde 2006, usuários e dependentes não podem ser presos.
Alguns carros de luxo também param e em menos de cinco minutos deixam o local. Em pouco mais de meia hora, usuários tentam vender um gorro ao preço de 1 real e um par de tênis por 5 reais, bem abaixo do que realmente valem. Um deles chegou a oferecer à Reuters um celular avaliado em 500 reais por meros 100 reais.
A manhã chega, e as lojas começam a abrir as portas. A vida volta à normalidade, e os vestígios da feira noturna do crack só estão no chão -copos, papéis, bitucas de cigarro e garrafas plásticas.
Ali, a atividade que se vê na rua é ditada pelo tempo. Quando a tarde cai, tudo volta à mesma cadência, um ciclo vicioso do "acende e apaga" que ninguém tem conseguido driblar.
"É horário marcado, às 20h. O traficante vem, chega aí, fica no meio, e os 'noias' protegem. É sempre assim", disse a proprietária de um hotel, referindo-se à forma como os usuários são chamados.
VILÃO
Ainda se sabe pouco sobre o consumo do crack, que em São Paulo está em sua segunda onda -a primeira foi nos anos 1990 e desde então o número de usuários triplicou. O Ministério da Saúde estima o número de usuários de drogas em geral no país em 600 mil, embora algumas organizações e especialistas apontem para quase 1,2 milhão.
Combater o crack foi uma das promessas de campanha da presidente Dilma Rousseff, que lançou um plano de 4 bilhões de reais em dezembro que prevê a abertura de 13.518 novos leitos para usuários de drogas até 2014, com ações estruturadas em saúde, segurança pública e prevenção.
"Falta uma gestão do problema... falta direcionamento, nós não temos política nenhuma para as drogas no Brasil", disse a psiquiatra e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Roselli Marques.
No Brasil, não há dados oficiais sobre o montante de dinheiro que a indústria das drogas fatura, mas estimativas extraoficiais de diversas organizações mostram que esse número é de cerca de 1,5 bilhão de reais anualmente.
Embora o crack não renda muito para o traficante, porque é barato, ele causa uma dependência mais forte e duradoura que garante um mercado de consumo permanente.
"O traficante está ofertando a droga para o usuário recair e para os que não começaram começarem. Esse controle da oferta tem que existir... porque senão, não tem fim", disse Ana Cecília, que também é pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Drogas (Inpad).
Mais importante do que abordar, reprimir e encaminhar, é preciso discutir a assistência em longo prazo e a reinserção dos ex-usuários na sociedade para que não sejam novamente atraídos pela sedução que a droga oferece, defendeu Ana Cecília.
"É possível uma remissão parcial do vício com no mínimo 12 meses de tratamento intensivo. Mas e depois? A família vai querer o ex-usuário de volta? Ele tem para onde ir? Se voltar para a rua começa tudo de novo."
(Reportagem adicional de Paulo Whitaker)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Marcha: tratamento e reinserção social é destaque em um dos painéis do Seminário sobre crack


Para a especialista da Unidade de Pesquisa Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecilia, cada Município deve instituir uma rede de tratamento de acordo com suas necessidades.  Durante o segundo painel do Seminário Nacional: Os Municípios com Protagonistas no Enfrentamento ao Crack, a especialista destacou a importância do tratamento e reinserção social.

Para ela como não é possível ter um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em todos os Municípios brasileiros os prefeitos devem apostar em uma boa Atenção Básica para ajudar na questão do tratamento. “A dependência é uma doença totalmente tratável e políticas integrais na luta contra o problema devem ser prioridades em qualquer governo”, afirma a especialista.

Durante a apresentação que aconteceu no primeiro dia da XV Marcha, Ana Cecilia ainda destacou a importância de diferenciar o tratamento dos dependentes químicos adolescentes e adultos. “O tratamento do adolescente é diferente e mais que isso, se ele não for tratado a tempo, vai se tornar um caso grave”, alerta.

Parelhas

O painel ainda contou com o depoimento do prefeito do Município de Parelhas (RN), Francisco Medeiros. Ele trouxe boas práticas na área de reinserção social destacando o trabalho do CAPS municipal. “Nosso CAPS atende mais de 148 usuários por mês, a maioria com problemas com crack. Nossa equipe multidisciplinar tenta atender os 21 mil habitantes, pois na região do Seridó com 54 Municípios, só existe um CAPS 3 no Município de Caicó  que não consegue atender a demanda”, conta o prefeito.

O gestor municipal destaca ainda que os projetos de reinserção social trabalham com a capacitação dos usuários, com oficinas de trabalhos manuais, teatro e cursos técnicos. “O perfil do usuário é de 25 a 30 anos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, por isso precisam de apoio para se capacitar e se reinserir”, observa o gestor.

Addicts embody cocaine boom in Brazil's "cracklands"


(Reuters) - When night falls, street crack marketplaces open for business.

The gritty transactions of the drug trade take over in city neighborhoods that hum with legitimate commerce by day. Throngs of stupefied buyers crowd around dealers before skulking away behind the telltale glow of cigarette lighters.
These are not the images that Brazil wants to project.
Proud of growing prosperity and the millions of new consumers elbowing into the country's broadening middle class, Brazil's leaders prefer snapshots of new houses, new cars and the crane-dotted cityscapes of Latin America's biggest economy.
Along with the progress, though, has come a surge in drug use.
Demand for cocaine has soared along with the economy over the past decade and fueled an abundant supply of crack now ensnaring thousands of new addicts. Legions of the addicted roam city centers across Brazil, many of them venues chosen to showcase Brazil's ascendance during the 2014 World Cup of soccer and the Olympic Games in 2016.
Reuters photographers recently spent 24 hours in eight of those cities chronicling their "cracklands," as the neighborhoods have come to be known. They went from the decrepit center of Sao Paulo, South America's biggest city, to the waterfront slums of Rio de Janeiro. From the Amazonian capital of Manaus, to the colonial tourist hub of Salvador.
In each, swarms of crack users have converted entire swaths of central neighborhoods into nocturnal encampments doubling as open-air crack marketplaces.
The images reflect what sociologists, health experts and law enforcement officials say is a rapidly growing problem that puts Brazil squarely in the center of the international drug trade. Demand for cocaine has grown among Brazilians, and in recent years the country has become a crucial path for transit of the drug as it travels from source countries in the Andes to markets in Europe and beyond.
According to the United Nations 2011 World Drug Report, seizures of cocaine in Brazil have soared, from 8 metric tons of the drug in 2004 to 24 metric tons in 2009. Cocaine seized in Europe, the study said, is increasingly found to have passed through Brazil - totaling 1.5 metric tons of the confiscations in 2009, more than five times as much as in 2005.
POLICIES NEW AND FEW
The drugs staying in the country have caught Brazil unprepared, police and policymakers say.
Aside from the crime increase that accompanies a bustling drug trade, Brazil's already overburdened health system has insufficient resources to treat and rehabilitate the growing number of addicts.
"There is a lack of management and focus on the problem," said Ana Cecilia Roselli Marques, a psychiatrist and board member of the Brazilian Association for the Study of Alcohol and Other Drugs. "There is no real drug policy at all in Brazil."
The government, in fact, has little idea just how many users there are. A health ministry estimate suggests 600,000 illegal drug users exist in the country of 190 million people, but some non-governmental groups believe the number is at least double that.
President Dilma Rousseff pledged from the moment she won office in late 2009 to tackle the scourge head on.
"We cannot rest," she said in her election-night speech, "while crack reigns within cracklands."
Last December, she announced a 4 billion-real ($2.19 billion) plan to help crack addicts, calling for widespread education and prevention programs, and more than 13,000 new beds in hospitals and treatment centers by 2014.
Meanwhile, local leaders have been trying to clean up the cracklands with moves that have been criticized as showy but fruitless.
In January, Sao Paulo mayor Gilberto Kassab ordered police to clear the crack zone - walking distance from City Hall - in a dramatic days-long showdown that led to dozens of arrests, the confiscation of thousands of crack rocks and the razing of buildings alleged to serve as drug dens.
Critics blast such efforts as mere cosmetics, noting the temporary displacement of the addicts to nearby areas during the crackdown and their speedy return as soon it stopped.
"CRACKLAND ISN'T FINISHED"
During a recent Sunday night visit by Reuters to Sao Paulo's crackland, the trade proceeded unperturbed. Despite the occasional presence of a token police patrol car, whose occupants limited their activities to shooing away assembled users in the middle of the street, the commerce and smoking lasted throughout the night.
"Crackland isn't finished," said a hotel owner in the area, who asked not to be named, dismissing the recent crackdown.
Nearby, dozens of users clustered around dealers, squatted behind makeshift pipes or roamed around, eyes to the ground, searching for dropped drugs or valuables to barter or help purchase their next fix. Those who had already scored walked with clenched fists so as not to drop their rocks.
The crowd, which swelled to as many as 300 people during the night, was a motley collection of age, gender and status: an addict mother trailed by a toddler; a man in a wheelchair; a pregnant teen. A few times, a luxury car passed through, its passengers there for a quick score.
Because of the rapid, but brief high - and crack's highly addictive nature - addicts sometimes smoke more than a dozen times a day. Though an individual hit is cheap, selling for as little as 2 reais ($1.10), or about the price of a candy bar, long-time users say they are willing to lose everything in exchange for another high.
"Crack is really good and I don't want to quit," sang one user as he walked by a Reuters reporter. Another offered a cut-rate deal on a cell phone for some quick cash.
By sunrise, with the sound of shop shutters lifting, the crowd began to disperse. Just as predictably, though, the reverse will happen come sunset.
"The hours are fixed," said another crackland business owner, who also asked not to be named. "The dealer will come, stand there in the middle and the users all gather around. It's always the same."
($1 = 1.81 reais)

(Additional reporting by Paulo Whitaker; Writing by Paulo Prada; Editing by Todd Benson and Frances Kerry)

domingo, 20 de maio de 2012

SUS gasta R$ 1,8 bilhão por ano com dependentes



Recursos foram para o atendimento de 3 milhões de usuários de drogas

O governo federal gastou R$ 1,8 bilhão por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) no atendimento de 3 milhões de dependentes químicos somente no ano passado. O dinheiro foi destinado para a Rede de Atenção Psicossocial, responsável pelas ações voltadas para usuários de drogas e álcool no país. Esse montante representa 2,5% do Orçamento do governo federal para a área da saúde.

Do total de R$ 1,8 bilhão, 34% foram usados em internações e atendimentos hospitalares. Outros R$ 490 milhões foram gastos no custeio de 2,5 mil leitos exclusivos para o tratamento de dependentes químicos.

Em dez anos, o Ministério da Saúde diz ter triplicado o volume de recursos destinados para a rede de atendimento. Em 2002, a verba era de R$ 619 milhões. Para este ano, a previsão é de que chegue a R$ 2,1 bilhões. 

Para a psiquiatra Ana Cecilia Marques, conselheira da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), a falta de uma política antidrogas efetiva por parte do governo federal impede avaliar os resultados obtidos com os recursos liberados.
Segundo ela, antes de elevar os investimentos, é preciso mapear o dependente. “Um histórico é o primeiro passo. Ele permitirá levantar onde é preciso um novo leito ou um programa de acompanhamento familiar. É preciso montar o perfil do doente para combater a doença.”

O crack na mira 

O aumento nos investimentos é parte do Plano Nacional de Combate ao Crack, que receberá um aporte direto de R$ 350 milhões – a meta do governo é destinar R$ 2 bilhões para o tratamento de dependentes da droga até 2014.

O foco principal são os centros de aglomeração de viciados, como a Cracolândia, que concentra dependentes de crack. Com essa verba, o governo promete abrir 13,5 mil novos leitos. Hoje, o SUS tem cerca de 9 mil leitos para dependentes químicos, divididos entre hospitais psiquiátricos, prontos-socorros e Caps (Centros de Atendimento Psicossocial).

A psiquiatra Ana Cecilia diz que concentrar os gastos em novos Caps é ir na contramão da ciência. “Estamos criando um país de doentes. É preciso investir na prevenção e adotar uma política de combate à oferta de drogas.” 

Durante visita à Cracolândia em janeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o aumento nos investimentos do governo e a política de internações é parte do programa que está em andamento.

Segundo o ministro, o governo não tem uma visão “reducionista” em suas medidas antidrogas. “Buscamos unir planejamento e recursos”, diz.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Estado reduz esforços na busca aos usuários de crack nas ruas

Após o governo federal anunciar, em dezembro de 2011, o investimento de R$ 4 bilhões para frear a epidemia de crack no Brasil, o governo mineiro foi na contramão e suspendeu uma de suas principais iniciativas de combate à droga: as abordagens de rua feitas pelo programa Aliança pela Vida. Lançado há oito meses, a ação do Estado ficou metade desse período sem realizar sequer um mutirão de acolhimento aos dependentes químicos que aceitam tratamento.

Quatro meses também foi o tempo que o governo mineiro demorou para solicitar à União parte da verba bilionária destinada ao enfrentamento ao crack. O projeto, necessário para a liberação do recurso, só foi apresentado em 4 de abril, sendo que o dinheiro estava disponível desde 7 de dezembro.

Sobre a demora, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) informou que está dentro do prazo estabelecido pelo governo federal. Já sobre o Aliança pela Vida, a justificativa é que as abordagens foram suspensas para um período de "reavaliação do programa", que foi retomado no último dia 28 de abril, com novo formato. A pasta informou ainda que outras ações do Aliança pela Vida não foram interrompidas, como as campanhas de prevenção, com entrega de materiais educativos, e o SOS Drogas, que presta atendimento telefônico por meio do 155.

A primeira ação após o período de interrupção ocorreu no bairro Vila Sumaré, na região Noroeste da capital, e teve como novidade apresentações de música, recreação e palestras. Porém, pouco se fez no que se refere à internação. A Seds informou que, na ocasião, 18 pessoas manifestaram interesse em se internar e receberam encaminhamento e orientações. No entanto, o órgão não soube comunicar quantos, de fato, iniciaram o tratamento, o que, na opinião de especialistas, demonstra a falta de acompanhamento dos casos.

O resultado completo é que, em oito meses de existência, o Aliança pela Vida acolheu 196 usuários de crack para internação. Desse total, 57% permaneceram em tratamento. Isso considerando os 178 atendidos em 2011 (veja quadro) e os 18 deste ano, após a pausa nas ações.

A falta de continuidade da iniciativa, de acordo com a conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Tetta Roselli, desestimula os próprios usuários. "Muitos querem e procuram socorro, mas não encontram atendimento adequado e permanecem no vício", afirmou. 

Sobre a periodicidade dos atendimentos de rua a partir de agora, o Estado informou que elas serão mensais, fazendo valer a prerrogativa de "continuidade e sistematização" das ações. No entanto, a Seds não soube dizer ainda quando e onde ocorrerão abordagens em cracolândias de Minas.

O governo mineiro também resiste em adotar a prática da internação involuntária, que é aquela feita sem o consentimento do dependente. Só acontece no Estado a internação voluntária, com a aceitação do paciente, ou a compulsória, por determinação da Justiça.

ANÁLISE
‘Não adianta ação de marketing’
A suspensão das abordagens de rua feitas por meio do programa Aliança pela Vida aconteceram no mesmo momento em que se observou o aumento da violência em Minas, com um crescimento de 16,3% no índice de homicídios no Estado. Na opinião de especialistas, o crack tem relação direta com o fenômeno e precisa ser combatido com ações contínuas de repressão ao tráfico e tratamento aos usuários. 

"Não adianta fazer ação de marketing e suspender a iniciativa quando acaba o interesse da mídia", afirmou o cientista político Guaracy Mingardi, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública. O programa mineiro, lançado em agosto passado, foi a aposta do governo no combate à droga. Após quatro meses de atuação, as abordagens de rua foram suspensas. "É preciso fazer um movimento permanente de prevenção, assim como foi feito com a nicotina, diminuindo muito o número de fumantes. Além de acabar com as rotas de entrada da droga", completou.

Para a psiquiatra Ana Cecilia Tetta Roselli, antes de fazer a busca ativa aos usuários nas ruas, é necessário primeiro melhorar o tratamento. "Estamos falando de uma doença crônica e complexa que só é estabilizada após pelo menos 12 meses de tratamento intensivo. O paciente precisará de acompanhamento anual e para a vida toda", orientou. Em Minas, o período de internação dos usuários dura em média 6 meses.

Segundo o psiquiatra Maurício Viotti, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a cada dez dependentes internados, apenas dois conseguem se recuperar. "Ainda assim, já é alguma coisa. É preciso tentar", afirmou.

No entanto, alguns dependentes se dizem desamparados há anos. É o caso do servente de pedreiro Aguinaldo Resende, 25, que há pelo menos 13 anos usa a droga. Nesse tempo todo, ele afirma que apenas uma vez foi abordado por uma assistente social. Na terça passada, 25, ele estava sentado em uma calçada suja na cracolândia do complexo da Lagoinha, na região Noroeste, visivelmente drogado. "Se tivesse ajuda, é claro que eu aceitaria", disse. (LC)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tratamento contra vício de crack ainda desafia a medicina

Resultados positivos entre dependentes da droga são verificados, em média, em só um terço dos pacientes. / Profissionais de saúde questionam o que pode ser considerado eficaz quando o assunto é a recuperação do usuário.
Cláudia Collucci (Folha de São Paulo)

Não existe um tratamento único e ideal para o crack. Medicamentos e terapias carecem de mais evidências científicas, e o resultado final é pouco animador: só um terço dos doentes "se cura".
O vácuo terapêutico é apenas mais um ponto nebuloso quando se fala da dependência química. O próprio conceito de um tratamento eficaz ainda é motivo de debates.
"O que é eficácia? Tenho dependente que já passou por tratamento e que continua usando drogas eventualmente. Mas tem vida familiar, profissional, social. Um outro alcançou a abstinência, mas não trabalha, não sai de casa. Qual teve mais sucesso?", questiona André Malbergier, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Desde 3 de janeiro, quando começou a mais recente operação policial na região conhecida como cracolândia, no centro paulistano, 80 dependentes foram internados.
Segundo a prefeitura, de julho de 2009, quando, conjuntamente a outra operação da PM, agentes de saúde passaram a atuar na área, até o início da atual operação foram quase 3.000 internações.
Os resultados em São Paulo se assemelham aos registrados em outros locais do mundo: a porcentagem de viciados que conclui o tratamento não chega a 35%.
RECAÍDAS
Há consenso de que recaídas integram o processo. Após um ano de tratamento, 60% dos pacientes têm recaída.
"A meta é abstinência, mas recaídas não significam voltar tudo para trás. É como tratar diabético ou hipertenso", diz a psiquiatra Ana Cecilia Roselli Marques, da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas).
É o que também pensa o professor Richard Mattick, referência mundial em estudos de álcool e drogas. "As pessoas querem uma cura, mas nós não vamos conseguir isso para a grande maioria. Temos métodos para manejá-la, como outras doenças crônicas."
Cura, aliás, é palavra em desuso entre especialistas. "Preferimos falar em abstinência estável", diz o psiquiatra Marcelo Ribeiro, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e um dos organizadores do livro "O tratamento do usuário do crack". Segundo ele, o processo de desintoxicação é só o começo de um tratamento longo que estará fadado ao fracasso se não houver suporte psicossocial associado. "E estamos falando de pessoas que, em geral, já romperam todos os laços sociais", afirma.
DIRETRIZ
No ano passado, a Sociedade Brasileira de Psiquiatria lançou uma diretriz que define como os médicos devem tratar os usuários de crack.
Entre as orientações, há a indicação de tratamento de desintoxicação imediato e de múltiplas ações terapêuticas.
As recomendações gerais são baseadas em experiências nacionais e internacionais, mas poucos serviços públicos de saúde as aplicam.
São Paulo chegou a adotar as diretrizes em um projeto-piloto desenvolvido na cracolândia, mas depois recuou.
Ana Cecilia Marques, que fez parte do projeto, lamenta. "Tínhamos dobrado a taxa de adesão ao tratamento. Tudo voltou à estaca zero. Os tratamentos atuais não seguem as boas práticas."
Rosangela Elias, coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, nega que tenha havido prejuízo. "Há várias metodologias. Não há certo ou errado. Temos equipes qualificadas."
Outro ponto de divergência é sobre as internações involuntárias (sem o consentimento do paciente). Há grupos contrários à iniciativa, mas os que defendem esse recurso encontram respaldo.
A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera a opção em casos de risco à vida do dependente químico. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também já se posicionou favorável à medida.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Grávidas do crack

Operação expõe o drama de dezenas de mulheres que consomem a droga com seus filhos na barriga; medicina ainda não mapeou as sequelas nas crianças.

CLÁUDIA COLLUCCI, ROGÉRIO PAGNAN

Fotos Fabio Braga/Folhapress


Lilian pode dar à luz a qualquer momento. 
Faz um mês que Lucas deixou de usar sedativos. Ao nascer, o franzino bebê, agora com quatro meses, era agitado, chorava muito, sofria tremores e taquicardia, sintomas da abstinência.


Lucas é filho de uma usuária de crack e "consumiu" a droga durante os sete meses de vida uterina. Nasceu prematuro, com apenas 1,8 kg.

Também apresenta atraso no desenvolvimento e deficiência motora, o que dificulta a amamentação. Os médicos não sabem se as sequelas de Lucas serão permanentes.

O impacto do crack na gestação tem sido objeto de vários estudos nas últimas três décadas, mas ainda há controvérsia sobre os efeitos a longo prazo na criança.

A questão é: como separar as sequelas da droga de outros fatores também presentes na vida da gestante dependente, como alcoolismo, tabagismo e desnutrição?

"Não há dúvida de que pode haver efeitos devastadores. Mas não podemos definir o quanto é do crack, isoladamente, e o quanto está relacionado a maus hábitos que a gestante desenvolveu por conta da dependência", diz a médica Silvia Regina Piza Jorge, chefe da clínica de pré-natal da Santa Casa de São Paulo.


A operação policial iniciada em 3 de janeiro jogou luz sobre as dezenas de grávidas dependentes que perambulam pelo centro paulistano atrás da droga -são pelo 20, segundo a PM e a prefeitura, só na área da cracolândia.

Os bebês dessas mulheres tendem a nascer prematuros e com atraso de desenvolvimento. Também têm mais chances de apresentar sequelas neurológicas, retardo mental, deficit de aprendizagem e hiperatividade.


A preocupação dos especialistas é que os bebês não fiquem estigmatizados. "Não se deve criar uma expectativa negativa sobre o futuro desses bebês. Um ambiente afetuoso, estimulante e acolhedor é essencial para desenvolver o potencial de qualquer criança", diz o psiquiatra infantil Ronaldo Rosa.

ABORTO
Grávidas usuárias de crack sofrem mais riscos de aborto, hemorragias e de descolamento de placenta. A situação é agravada porque a maioria delas não faz o pré-natal.

"São pacientes em uma grave situação de vulnerabilidade social, com rompimento de laços com a família e com a comunidade", diz Corintio Mariani Neto, diretor da maternidade estadual Leonor Mendes de Barros.
"É uma aberração. A gente não vê essa situação em outros países do mundo", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, referindo-se às grávidas da cracolândia.

Estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com dez grávidas que vivem na cracolândia, obtido com exclusividade pela Folha, mostra que apenas duas estão fazendo o pré-natal.
Todas elas engravidaram na região central de São Paulo. No mês passado, quando foram feitas as entrevistas da Unifesp, sete estavam entre o quarto e o sexto mês de gestação. Apenas uma concluiu o ensino fundamental.

Cinco das gestantes sabem quem é o pai do filho: parceiros do crack. Oito já tinham filhos e três haviam sofrido abortos anteriores. Seis grávidas fumavam até dez pedras por dia. As demais chegavam a consumir 20 pedras.
Metade das gestantes financia o consumo de crack pedindo esmola e ou trocando sexo pela droga.


Segundo o psiquiatra Marcelo Ribeiro, coordenador do estudo, metade das grávidas aceitaria tratamento para dependência química, mas grande parte (sete) acha que consegue parar sem a necessidade de internação.
Se a cracolândia acabasse, para onde você iria?, perguntaram os pesquisadores. Todas responderam: para outra cracolândia ou para qualquer outro lugar que tenha crack.

Seis em dez viciados passaram por tratamento

Seis em cada dez dependentes de crack da região central de São Paulo já passaram por tratamento, mas estão novamente nas ruas usando a droga.
É o que revela uma pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com 170 usuários da cracolândia, feita no mês passado.
Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores, o trabalho revela uma "cronificação" da dependência. Entre os entrevistados, 42% são usuários de longa data -entre 10 e 20 anos.
Na visão dos psiquiatras, o alto índice de recaídas não é uma surpresa. Dados da literatura indicam que 50% dos dependentes do crack recaem no primeiro ano.
Além da dificuldade natural em tratar o doente (a síndrome da abstinência é intensa, e muitos desistem do tratamento), a qualidade da terapia oferecida é questionada por especialistas.
"Os tratamentos são desatualizados, não adotam as boas práticas recomendadas pela medicina baseada em evidência", afirma a psiquiatra Ana Cecília Roselli Marques, da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas).
Marques participou de um projeto-piloto na cracolândia por 12 meses, mas, no final, a prefeitura rompeu a parceria com os pesquisadores.
A proposta de terapia envolvia várias frentes. A primeira era tratar, além da dependência ao crack, os vários problemas de saúde associados à droga, como outros distúrbios psiquiátricos, desnutrição e alterações cardíacas.
"O ideal seria ter um modelo de hospital-dia, onde a pessoa passaria o dia e depois iria para uma moradia assistida. O que não dá é para ele voltar para a rua", afirma.
Depois dessa fase, que dura três semanas, começa o treinamento para evitar as recaídas, que vai durar de seis a oito meses. A terceira fase é de manutenção. "É como qualquer doente crônico, tem que ser cuidado o resto da vida", diz Marques.
Segundo Rosangela Elias, coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, o município dispõe de equipes e de serviços qualificados no enfrentamento e tratamento do crack.
"Não existe milagre. O processo vai do tratamento à reinserção social. Quem dá emprego para uma pessoa que ficou cinco anos morando na cracolândia?"