segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uso da maconha começa cada vez mais cedo no Brasil


Em 2012, 62% dos usuários experimentaram a droga antes dos 18 anos; em 2006, o índice era de 40%.

SÃO PAULO, Brasil – Ele deu o primeiro trago em 2001, quando tinha 16 anos.
Desde então, por seis anos, o comunicador Vinícius Werner, 27, fumou maconha todos os dias. Em todo o Brasil, 1,5 milhão de adolescentes e adultos também usam o entorpecente diariamente.

Como Werner, 62% dos usuários brasileiros tiveram contato com maconha antes de completar 18 anos, de acordo com o segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

E a tendência é de alta. Em 2006, quando foi realizado o primeiro estudo, o índice era de 40%, segundo a Unifesp.

“Quanto mais cedo ocorre o consumo da droga, maior é a chance do desenvolvimento de dependência”, explica a psiquiatra Clarice Sandi Madruga, coordenadora do levantamento.

Realizado em 149 municípios, o estudo ouviu 4.607 pessoas a partir dos 14 anos que responderam a um questionário sigiloso com mais de 800 perguntas sobre o uso de álcool e drogas.

Cerca de 8 milhões de brasileiros – 7% da população adulta – já experimentaram maconha ao menos uma vez na vida. Desse total, 3,4 milhões de pessoas (3%) utilizaram o narcótico no último ano.

Entre os menores de idade, mais de 600.000 já tiveram algum contato com o entorpecente ao longo da vida – 470.000 deles nos últimos 12 meses.

Tanto adultos quanto adolescentes têm acesso à droga comprando de alguém (60% dos casos) ou ganhando de algum amigo (35%). A diferença é que, enquanto os adultos conseguem maconha em locais públicos e pontos de venda, os menores de idade têm outro ponto de distribuição: a escola.

Efeitos da dependência

O Brasil não está entre os três maiores consumidores de maconha do mundo, segundo o levantamento da Unifesp. O percentual de indivíduos que utilizaram a droga no último ano chega a 14% no Canadá, 13% na Nova Zelândia, 10% nos Estados Unidos e no Reino Unido e 7% no Chile, na Argentina e no Brasil.

Mas a taxa de dependência entre os brasileiros se equipara à de outros países: 37% dos adultos que usam maconha são viciados – cerca de 1,3 milhão de pessoas, segundo o estudo da Unifesp.

Entre os fatores que indicam vício, estão a ansiedade pela falta da droga e a sensação de falta de controle.

A toxicomania é menor entre os adolescentes (menos de 10% entre usuários), mas é extremamente nociva à saúde desse grupo, já que a substância causa alterações irreversíveis no cérebro ainda em desenvolvimento, explica Clarice.

“O cérebro só termina de amadurecer perto dos 25 anos, por isso o uso de maconha antes disso aumenta as chances de desenvolvimento de outras doenças psiquiátricas, como depressão e transtornos de ansiedade”, completa Clarice.

O consumo precoce da maconha age sobre o sistema nervoso central diminuindo a atenção, a concentração, a memória e a capacidade de resolver conflitos, segundo a psiquiatra e neurocientista Ana Cecilia Marques, coordenadora do Departamento de Dependência em Álcool e Drogas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

“Estudos apontam que a taxa de dependência entre jovens que consomem álcool aos 16 anos varia de 6% a 8%. Se começaram aos 12 anos, o índice sobe para 10% a 12%”, aponta Ana Cecilia, ao lembrar que não há um estudo mais aprofundado sobre o uso precoce da maconha. “Esse percentual também é esperado para outras drogas, pois elas afetam o sistema límbico, que é o mesmo prejudicado pelo álcool.”

Como consequência do consumo precoce de entorpecentes, o usuário pode ter dificuldades para estudar, trabalhar e se relacionar com outras pessoas. Esses danos podem levar a depressão, ansiedade, além do desenvolvimento de esquizofrenia e outras neuroses, de acordo com Ana Cecilia.

Flexibilização

No Brasil, qualquer tipo de acesso à maconha é proibido: desde o uso medicinal até o cultivo para consumo próprio e a compra e venda da droga.

Nos últimos anos, porém, o debate sobre a possibilidade de descriminalizar ou legalizar a droga ganhou força. O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso é uma das personalidades que tem se manifestado a favor da mudança na legislação.

Em 2012, mais de 200 cidades sediaram a Marcha da Maconha, uma passeata realizada por defensores da regulamentação da erva.

“Estamos falando do fato de a proibição trazer muitíssimos problemas e não controlar o consumo de forma alguma, nem entre os adolescentes”, defende Alexandre de Castro, um dos organizadores da Marcha da Maconha em Belo Horizonte (MG).

Ainda assim, apenas 11% das pessoas entrevistadas no levantamento da Unifesp são favoráveis à legalização da maconha, enquanto 75% são contra.

“É muito difícil predizer como seria essa flexibilização num país como o Brasil, pois é complicado usar países pequenos como base para esta decisão", comenta Clarice. "Além do mais, é importante lembrar que o projeto de lei que está em votação é para todas as substâncias psicotrópicas e não só a maconha.”

A psquiatra lembra ainda que o aumento da disponibilidade de qualquer droga eleva seu consumo e que menos de 20% dos viciados procuram tratamento médico.
“Independente da discussão da lei, é inquestionável a necessidade de mais centros de atenção primária, principalmente de CAPS-AD (Centros de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas)”, defende Clarice.

Para Ana Cecilia, antes de discutir legalização de outras drogas, o governo deve garantir que menores não tenham acesso a entorpecentes hoje considerados legais.

“Eu só acredito em uma coisa: uma política que proteja a criança e o adolescente de drogas inclusive legais, como o álcool e o tabaco, que também são proibidas para menores de 18 anos”, afirma Ana Cecilia.

Disponível em: http://infosurhoy.com/cocoon/saii/xhtml/pt/features/saii/features/main/2012/11/07/feature-02

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O empenho não tem poder mágico


Motivação, empenho e força de vontade são fundamentais para iniciar o tratamento de vícios como álcool, drogas e compulsão para jogos. No entanto, não têm poder mágico. "A disposição para se tratar é crucial", diz a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Universidade Federal de São Paulo. "Mas, diferentemente de outros problemas, as doenças psiquiátncas alteram justamente a área do cérebro relacionada à força de vontade." As drogas agem no córtex pré-frontal, área relacionada a tomada de decisões. É comum que o dependente decida abandonar o vício e busque tratamento. Contudo, viciados desistem com mais facilidade. O problema: o histórico do consumo de drogas faz com que a motivação inaugural se torne instável. Quem nunca conheceu um fumante que decidiu largar o vício e o encontrou depois dando algumas tragadas? Não, não é a falta de força de vontade com sua ruidosa presença.
Um exemplo claro desse comportamento é o do alcoólatra que decide parar de beber. Ele consegue ficar sem um copo à mão por poucos dias, mas logo depois sente os efeitos da abstinência. A pressão arterial aumenta, há taquicardia, ansiedade e suor. Os sinais aparecem depois de três dias da retirada total do álcool no organismo. Por isso, o acompanhamento médico é indicado durante todo o processo. Podem-se utilizar medicamentos para controlar a ansiedade e os sintomas. Outra estratégia comum é trabalhar a motivação ao longo do tratamento, sempre ressaltando os prós e contras de abandonar o vício. "Uma minoria dos pacientes consegue se tratar sem a ajuda médica", diz Marques. No caso do alcoolismo, somente 10% das pessoas param de beber por conta própria. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Participação como entrevistadora no Programa Roda Vida:

“O país está se acabando em crack”


Rubem César Fernandes, diretor da ONG Viva Rio, fala sobre pesquisa que aponta o Brasil como o maior mercado de crack do mundo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Álcool na Gestação

O impacto da bebida alcoólica no organismo das  mulheres é diferente daquele que  ocorre no homem, e muito mais  deletério. Isso ocorre devido  a menor quantidade de água  presente no organismo das  mulheres, o que faz com que  o álcool seja distribuído e  metabolizado mais rapidamente,  assim como pela presença entre as mulheres de uma  quantidade bem menor de enzimas hepáticas que  metabolizarão essa substância. A mulher é muito mais  vulnerável ao álcool em todas as fases de sua vida.

Durante a gestação, o abuso de álcool pode levar a Síndrome Fetal pelo Álcool que é caracterizada por  retardo mental grave e outros problemas congênitos,  incluindo retardo de crescimento, anomalias faciais  e cardíacas. Uma vez que a quantidade de álcool  considerada segura durante a gestação ainda não se  encontra determinada, a abstinência é recomendada.

Uma criança que sofreu as consequências do etanol  durante o seu desenvolvimento no útero, apresenta  inúmeras limitações intelectuais, dificuldades nos testes  de aritmética e em seu desenvolvimento sócio-emocional,  assim como a alteração da memória e da atenção, que  repercutirão na sua vida escolar e social.

O álcool na gestação é a primeira causa não genética  de retardo mental, e que pode ser evitado. Mães que usam o álcool de forma pesada durante a  gestação tem chance duas vezes maior de ter filhos com  transtornos de personalidade e transtornos relacionados  ao uso de substâncias na adolescência. O uso do álcool  na gestação é um importante fator de risco para a  ocorrência de doenças psiquiátricas na prole em idade  adulta.

Observando tantas susceptibilidades na relação da  mulher com o álcool, é possível concluir que a prevenção  é o melhor caminho, pois as abordagens utilizadas para  aquelas  que fazem uso problemático na gestação ou em  outra fase da vida, além de complexas, podem apenas  minimizar e não resolver o resultado do uso na mulher  e o impacto em seus filhos. Prevenir é muito melhor que remediar!



domingo, 9 de setembro de 2012

Treinamento de enfermeiros é falho para cuidar de dependente químico


É o que afirmam especialistas sobre funcionários do Hospital Lacan, em São Bernardo, que sofrem ataques e ameaças de pacientes


Protesto em frente ao Lacan, onde uma funcionária já foi ameaçada de morte. Foto: Amanda Perobelli  

Especialistas em atendimento a dependentes químicos revelaram que os casos de agressão e ameaças infringidas a funcionários da ala destinada ao tratamento de dependentes químicos do Hospital Lacan, localizado em São Bernardo, podem estar ligados a falhas no treinamento do corpo de enfermagem. No último dia 21 de agosto, um grupo do corpo de enfermagem denunciou episódios de violência.

Desde o início do mês, cinco técnicos de enfermagem foram agredidos e ameaçados por internados. O último caso ocorreu no dia 17, quando uma trabalhadora foi ameaçada de morte com uma arma branca, fabricada por um interno. No caso mais grave, ocorrido em 2 de agosto, quatro funcionários foram amarrados, amordaçados, espancados e roubados por pacientes que fugiram em seguida. 

De acordo com os funcionários ouvidos pela reportagem – que não quiseram revelar as identidades por temerem represálias da direção do hospital –, as ameaças são constantes. “Não temos segurança para trabalhar, vivemos com medo”, afirmou uma técnica de enfermagem. A reivindicação é de que a segurança seja reforçada na unidade. Atualmente, apenas seguranças patrimoniais atuam no hospital.

A Associação Brasileira de Psiquiatria informou que não existe legislação específica que preveja seguranças dentro de clínicas e hospitais psiquiátricos. Para Ana Cecília Petta Roselli Marques, psiquiatra, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e conselheira consultiva da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), casos como os relatados no Hospital Lacan não são comuns nos centros de tratamento de dependentes químicos.

Jeito - “Os pacientes podem ficar agressivos durante as crises de abstinência e o corpo clínico deve conter o indivíduo física ou mecanicamente (com o uso de camisas de força). Depois é aplicado o medicamento e normalmente o paciente se acalma. Não há necessidade de seguranças dentro do hospital ou clínica para isso”, relatou.

Ana Cecília reforçou que uma equipe bem treinada e entrosada consegue notar as mudanças no comportamento dos pacientes, evitando situações perigosas e agindo com tranquilidade. No entanto, a agressividade demonstrada no caso do Lacan chamou a atenção da psiquiatra, com 30 anos de experiência na área. “Em toda minha carreira nunca vi esse tipo de situação. É preciso checar o diagnóstico destes pacientes, que parecem sofrer de transtorno de conduta. Nestes casos, esse tipo de hospital não é o ideal para a internação”, comentou.

Psicólogo afirma que violência é comum

O psicólogo Marcos Levi Gonçalves Mello, que também acumula 30 anos em atendimento a dependentes de drogas e álcool e já trabalhou no Lacan, afirmou que casos de violência por parte dos pacientes não são incomuns. “Isso pode acontecer, mas o ponto crucial é treinar permanentemente a equipe para atuar com firmeza e segurança. Normalmente, isso é negligenciado tanto na rede pública como particular”, lamentou.

Já a coordenadora do serviço de Saúde Mental de Diadema, Cibele de Toledo Neder, apontou o modelo de atendimento do Lacan como responsável pelos casos de violência. “Neste local usa-se a internação compulsória, quando o usuário é levado mesmo contra sua vontade. O hospital acaba se transformando uma espécie de cadeia, o que estimula agressões e rebeliões”, afirmou.

No modelo dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), não há atendimento sem autorização do dependente. “Fazemos um trabalho de abordagem e resgate da vida social, conscientizando sobre o uso das drogas e suas consequências. Por isso não temos casos de agressões nestes centros”, destacou Cibele.

Para sindicato, diretoria peca por omissão

O presidente do SindSaúde ABC (Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Privados de Saúde e Empresas que Prestam Serviços de Saúde e Atividades Afins do ABCDMRP), Valdir Tadeu David, informou que os funcionários do Hospital Lacan tentaram negociar com a diretoria, mas não houve resposta aos pedidos. “Os episódios de violência foram levados ao conhecimento da direção, mas nada é feito.”

Cerca de 100 funcionários, divididos em quatro turnos, trabalham no Hospital Lacan, que integra o Grupo Saúde Bandeirantes, instituição filantrópica de utilidade pública federal, estadual e municipal fundada em maio de 1975 e qualificada como Organização Social pelo governo do Estado de São Paulo. Procurado, o Grupo Saúde Bandeirantes não se manifestou sobre as denúncias dos funcionários.

Serviços - A instituição oferece serviços de internação para pacientes com dependência química, alcoolismo e transtornos mentais, tais como depressão, psicose, ansiedades, entre outras patologias. Também há atendimento ambulatorial, com consultas agendadas com psiquiatras e psicólogos.

Desde março de 2009 o Hospital Lacan conta com uma clínica pública para adultos dependentes químicos, com 30 leitos. Em abril deste ano, o governador Geraldo Alckmin inaugurou no Hospital Lacan o primeiro serviço especializado em tratamento de gestantes com dependência química do Estado.


Uma fortaleza contra o crack



Num casarão em forma de castelo, uma ONG ajuda moradores de rua e dependentes químicos a aprender um ofício e a reencontrar o rumo

Maria Eulina é uma das assistidas pelo Clube de Mães. A ONG oferece alimentação e oficinas técnicas a moradores de rua 

Boaventura tinha fome. Aos 17 anos, o rapaz saíra da casa dos pais, em Mato Grosso, e fora para são Paulo morar com uma tia. O plano inicial, completar o ensino médio e trabalhar, logo foi abandonado. "Minha família achava que eu estava estudando, mas passava o dia usando droga e me prostituindo", diz. Viciou-se em crack e morou nas ruas por três anos. Um dia, descobriu que serviam comida num casarão em formato de castelo, na Rua Apa, no centro de são Paulo. O Clube de mães chega a reunir 100 pessoas nos almoços de sábado. São moradores de rua, a maioria vinda da área próxima apelidada de Cracolândia. Sua fundadora, Maria Eulina Hilsenbeck, recebe quem vem em busca de comida e tenta oferecer algo mais. Conversa com vários dos visitantes e encaminha os interessados a albergues. Alguns passam a participar das oficinas promovidas pela ONG durante a semana.
Faz cinco anos que Boaventura entrou no almoço que, provavelmente, salvou sua vida. "Viciado em crack não quer nada com nada, mas a Maria Eulina me deixou entrar mesmo assim", diz. Eulina não se imagina agindo de outra forma. Ela criou o Clube em 1993, com a proposta de orientar as mães de áreas pobres e violentas. Logo passou a oferecer refeições grátis e cursos baratos aos interessados. Em 2009, a ONG foi obrigada a se reinventar, diante do avanço devastador do crack.
Eulina percebeu o poder destrutivo da nova droga desde o final dos anos 1990. Em 2005, a secretaria Nacional de Políticas Contra Drogas calculava que 1,29 milhão de pessoas já a experimentaram. "Vi crianças acendendo um cachimbo de crack na minha esquina", afirma Eulina. "Não podia deixar de me envolver, nem que fosse para salvar um ou dois."
O índice de sucesso na recuperação desses dependentes é baixo. O tratamento pede recursos, equipes multidisciplinares e atuação em rede de vários tipos de instituições, diz a psiquiatra Ana Cecilia Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). A síndrome de abstinência, se mal diagnosticada, pode causar demência. Entre os desafios antigos e graves com que já lidava - alcoolismo, abandono, falta de expectativas - e o novo, Eulina escolheu enfrentar o mais difícil. "O dependente de álcool, em alguns momentos, recobra a razão. O crack não dá trégua", diz.
Há três anos, o Clube passou a se dedicar apenas a moradores de rua. Fechou os demais cursos, pagos, e manteve apenas oficinas gratuitas para esse grupo, como as de costura. Elas resultam em sacolas, bolsas e brindes, feitos com material reciclado e vendido a empresas. McDonald’s e Pão de Açúcar estão entre os parceiros eventuais. A ONG conta com dois funcionários e dois voluntários, além de Eulina. Não tem condições de lidar com casos mais graves. Os que pedem são encaminhados para tratamento. Eulina calcula que, desde 2002, o Clube tenha ajudado 2 mil pessoas a deixar drogas variadas.
Deixar de ministrar cursos pagos teve consequências. O Clube deve R$ 48 mil. Eulina não se arrepende da decisão e considera o trabalho na ONG uma extensão de sua própria história. Ela nasceu no maranhão e foi para são Paulo aos 20 anos. Viveu dois anos nas ruas. Às vezes, escondia-se no Castelinho. O lugar estava abandonado desde 1937. Um dia, uma desconhecida ofereceu abrigo e emprego de assistente. No trabalho, Eulina conheceu o futuro marido, que a ajudou a reorganizar a vida. Ela decidiu ajudar quem precisava. O governo estadual admitiu a ONG no Castelinho em 1996.
Inquieta, Eulina se prepara para um novo desafio. Desde 1o de agosto, 20 pessoas que participaram das oficinas do Clube assumiram a coleta seletiva do mercado municipal Paulistano, o mercadão. A renda com as vendas será dividida entre os trabalhadores. A administração do mercado se encantou com o projeto. "Nos sete anos em que trabalho aqui, o Clube foi a única ONG que não me pediu mais nada - só trabalho", diz o supervisor de abastecimento José Roberto Graziani.
Boaventura, que chegou ao Clube em 2007 atrás de comida, participou das oficinas por sete meses. Foi encaminhado para tratamento. Tornou-se atendente na clínica de reabilitação e se matriculou num curso superior. Ele se mantém em tratamento até hoje. Eulina se lembra dele com orgulho: "Fico muito feliz de ver a vida deles decolando".

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As escolas que transformam ex-dependentes em terapeutas


Cursos utilizam a experiência com as drogas em técnicas de reabilitação. “Do fundo do poço nascem exemplos bons”, diz Mauro, que venceu o crack
Mauro já foi dependente químico e hoje trabalha na reabilitação de usuários. 'Do fundo do poço nascem exemplos bons'
Os dois heróis de Mauro estão mortos. O primeiro, um tio traficante, foi assassinado bem ao seu lado e deixou o cheiro de pólvora nas narinas do jovem por muitos anos. O segundo, um dependente químico em recuperação, perdeu a vida num acidente de carro antes de poder conviver com Mauro limpo, longe das drogas. Esta morte deixou vazio.

O fato de ter testemunhado os dois óbitos quando não tinha nem 19 anos também aparece entre os motivos para Mauro, hoje com 42, ter procurado formação específica para virar terapeuta. Hoje, ele ajuda a tratar pessoas que, assim como ele, tentam diariamente ficar longe do crack, da cocaína e do álcool.

Os três vícios o acompanharam por quase três décadas (desde os 14 anos) e, depois de uma coleção de perdas acumuladas no período, ele sonha um dia ser apontado como herói por ao menos um dos inúmeros pacientes que agora ajuda. Um herói que não vende mais drogas e que quer estar vivo para ver a transformação daqueles que passou a acompanhar.
"Eu quero ser exemplo de que é possível renascer, mesmo após anos de uma vida anulada pela dependência química", diz antes de começar as nove horas diárias de trabalho que exerce na Clínica Maia, há sete meses.
Os serviços de tratamento psiquiátrico passaram a enxergar em ex-dependentes como Mauro uma ferramenta importante para tratar pessoas que ainda estão envolvidas com drogas. Hoje, as clínicas utilizam esta mão de obra como "coringa" na terapia que mescla medicamentos, abstinência e abordagens psicológicas.
A Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract) detectou esta estratégia e criou cursos de capacitação específicos para a formação de ex-usuários em terapia holística.
Até o final do ano, devem ser capacitados para a função 900 ex-dependentes. Em 2011, foram 705 formados na instituição e, no ano anterior, 500. Outros centros acadêmicos, como o da Universidade Federal de São Paulo, também atuam nesta formação.
“Em média, 95% das pessoas que nos procuravam para a capacitação já haviam tido envolvimento com as drogas”, afirma Juliano da Silva Marfim, coordenador administrativo da Febract, e ele próprio uma confirmação da tendência.
“Eu mesmo, até virar terapeuta, fui paciente. Sou alcoólatra e estou limpo há 5 anos e 11 meses”, conta Marfim, 29 anos.
“Trabalhava em uma multinacional e depois que terminei o tratamento fui demitido. Atuar com os dependentes, após o treinamento específico, foi uma forma de voltar ao mercado e também ajudar os profissionais de saúde a traçar estratégias mais efetivas de recuperação. Por isso, o treinamento é tão importante.”
Segundo os médicos, os ex-dependentes fazem da vivência um “medicamento” importante para ampliar os índices de recuperação de viciados. As taxas que mensuram este renascimento ainda são modestas e não superam a casa dos 30%, de acordo com os levantamentos catalogados pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psciotrópicas (Cebrid).
Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou em seu último boletim que o consumo de drogas, especialmente a cocaína, é crescente no mundo todo. No Brasil, a Previdência Social também mapeou que as licenças trabalhistas para tratar a dependência, de profissionais de todas as áreas, está em ascensão.
O trabalho deles

A psiquiatra Ana Cecília Marques, conselheira da Associação Brasileira de Estudos sobre Drogas e Álcool (Abead), explica que a relevância da atuação dos ex-dependentes é expressada já no início do tratamento dos novatos.
“A motivação dos dependentes é instável nos primeiros meses. Tal recurso pode ser aplicado para ajudar a manejar uma doença tão complexa.”
A complexidade do tratamento, explica o coordenador Juliano Marfim, é que não existe um “tratamento universal” para o problema das drogas.
“Este é o grande desafio da capacitação dos ex-dependentes. O que mostramos nas aulas e nos estágios monitorados é que o que funcionou para eles pode não ter o mesmo efeito em outros. Por isso, eles precisam ter um conhecimento integral das técnicas. Para apresentar este leque de possibilidades às pessoas que chegam à reabilitação”, afirma.

Fundo do poço

Mauro confirma que uma das grandes dificuldades é constatar que a fórmula que o tirou da “vida miserável”, muitas vezes não se aplica aos jovens, tão parecidos com ele, que chegam à clínica.
“Às vezes dá raiva, sensação de impotência. Porque um cara cheio de potencial não segura, com todas as forças, a corda que você oferece a ele. Mas talvez ele precise de outra forma de resgate. É um trabalho longo e nos ajudamos os psiquiatras e os psicólogos nisso”.
Nestes sete meses em que virou terapeuta, ele diz que ainda se surpreende sobre como “o fundo do poço pode ser terreno fértil para nascer exemplos bons”.
“Eu estudei nos melhores colégios, tinha casa na praia, roupa de marca. Ganhei meu primeiro carro zero aos 18 anos e troquei por dois quilos de cocaína duas semanas depois. Deixei o conforto da minha casa para morar em um barraco na favela só para ficar mais próximo das drogas. Quem apostaria fichas em mim?”, questiona.
“Até eu duvidava. Mas estou aí. Mostrando que a vida não precisa acabar na dependência.”
A favela da zona sul paulistana onde Mauro morou e presenciou a morte de seus dois heróis ainda é frequentada por ele.
“Volto sempre lá com meu filho, que está com 8 anos, para conversar com as crianças e com os adolescentes. Gosto do que sou agora. E quero mostrar que não é preciso se espelhar no homem que eu já fui.”


Infográficos:



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool



Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.
Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.
Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.
A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.
“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.
O QUE O QUE JÁ SE SÁBIA SOBRE O ASSUNTO
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.

Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”

terça-feira, 5 de junho de 2012

Atendimento a dependentes aumentou 50% após operação


No entanto, rede pública não integra serviços necessários para manter viciado longe das drogas; 106 pacientes foram encaminhados para internação

Desde que começou a operação Centro Legal na Cracolândia, o número de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da região central de São Paulo aumentou em 50%, informa a Secretaria Municipal de Saúde. Os CAPS são unidades de portas abertas onde os dependentes se tratam sem ficarem internados. No caso dos pacientes encaminhados para internação, foram 106 nos primeiros quinze dias da operação, iniciada em 3 de janeiro.
A coordenadora de Saúde Mental do município, Rosangela Elias, explica que a internação geralmente é indicada para os pacientes que apresentam algum problema de saúde mental juntamente com a dependência, ou para aqueles em situação de risco, que não conseguem se afastar das drogas para iniciar um tratamento. “Os que não apresentam nenhum quadro clínico associado ao vício podem ser encaminhados para as comunidades terapêuticas conveniadas”, disse.
Segundo a secretaria, o município oferece atualmente 371 leitos somente para o tratamento de dependentes químicos, sendo 80 no Serviço de Atenção Integral ao Dependente (SAID) e 291 em comunidades terapêuticas.
Rosangela Elias reconhece que a rede de atendimento ainda não é perfeita, mas enfatiza que a prefeitura tem garantido vagas de internação para todos que procuram tratamento. Para reforçá-la, a secretaria está credenciando dez residências terapêuticas próximas aos CAPS, onde os pacientes que não tem emprego nem casa ficariam por um tempo determinado até conseguir estabilidade para seguir o tratamento fora das clínicas de internação.
Deficiências – A psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecilia Marques aponta que em São Paulo ainda há deficiência de vagas em leitos especializados para atendimento de viciados em crack, especialmente adolescentes e grávidas. Na sua avaliação, também falta uma integração entre os serviços de saúde e assistência social, além de haver poucas ações preventivas.

"Algumas pessoas não têm casa nem trabalho. Não adianta encaminhar para tratamento no CAPS sem oferecer recursos sociais mínimos para esses indivíduos", afirma. A psiquiatra explica que um viciado em crack precisa estar em tratamento contínuo por, no mínimo, doze meses. Entre os usuários de crack, a necessidade de internação para deixar o vício é três vezes maior que no caso dos alcóolatras, por exemplo.
Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/atendimento-a-dependentes-aumentou-50-apos-operacao

Ruas viram feira livre em novo reduto do crack em SP


SÃO PAULO, 4 Abr (Reuters) - Quando anoitece, um acende e apaga de isqueiros e fósforos denuncia que o crack está enraizado em redutos dos principais centros urbanos do país, apesar dos esforços ainda insuficientes para conter a epidemia da droga barata que "fissura".
Imagens captadas pela Reuters durante 24h em algumas das cidades sedes da Copa do Mundo de 2014 provam que ainda é preciso fazer muito para controlar o consumo desenfreado e público da droga.
Craqueiros inquietos, em uma cena que faz lembrar o burburinho das feiras livres, se agrupam em calçadas das ruas centrais da capital paulista na tentativa desesperada de obter uma "pedrinha".
O domingo no centro paulistano mostra sua cara como um dia normal de descanso, território ideal para os usuários de crack, que aproveitam o dia e se sentam em frente às portas do comércio local à espera do traficante ou do "aviãozinho", aquele que traz a droga de bicicleta. Quem já tem a sua, se vira de costas para a rua e, desafiando o vento, tenta acender o cachimbo improvisado.
A poucos metros da avenida São João, no centro antigo da cidade, há jovens, idosos, deficientes físicos de muleta e cadeira de rodas, mulheres grávidas e algumas crianças: o crack consome indiscriminadamente os moradores de rua.
Um homem passa e canta: "O crack é muito bom, não quero largar, olha como sou chique." Minutos depois, uma moça vestindo uma blusa com capuz cor-de-rosa, com olhar alucinado, comenta: "Não olhe pra mim, eu não sou bonita."
Impacientes, eles andam com a mão fechada para não deixar as pedras cair. Apesar do baixo valor -é possível comprar uma pedra por 2 reais- é um tesouro nas mãos de quem consome. Perambulando pela rua, às vezes escondem facas sob cobertores para se defenderem. Não mexem com quem passa, desde que não sejam incomodados na "boca de fumo".
Na mesma área, duas traficantes se misturam ao grupo -uma mulher de boné com dinheiro visível na mão e outra mais bem vestida que sai sorrateiramente com uma sacola de plástico, depois de alimentar "craqueiros" ávidos por mais uma fumada. Quem trafica geralmente não consome.
Os usuários desse subproduto da cocaína, que antes ficavam restritos a uma área da capital conhecida como Cracolândia, onde se concentravam em grande número, agora migraram para outras regiões do centro antigo, como as ruas próximas ao Largo do Arouche.
A dispersão veio depois que a Polícia Militar conduziu uma operação em janeiro para combater o tráfico de drogas, diminuir a criminalidade e recuperar áreas degradadas, com abordagens de pessoas, encaminhamentos, internações e apreensões de milhares de pedras de crack.
O problema apenas mudou de lugar. "A cracolândia não acabou", disse o dono de um hotel que fica no novo reduto dos usuários.
Para uma moradora da região, não há mais liberdade. "Dormir já não se dorme mais. Eles falam alto, brigam, gritam. A única coisa que nós não temos é liberdade de ir e vir... Eles estão numa situação que eu não sei como ainda respiram. Você olha nos olhos deles, eles estão definhando", afirmou Rose, que pediu para não ter seu nome divulgado.
O crack chega ao sistema nervoso central de 8 a 15 segundos, e a ação da droga não dura mais do que 10 minutos. É isso que faz o usuário ficar fissurado para querer consumir uma pedra atrás da outra -em um dia chegam a fumar até 15 pedras.
Os craqueiros andam olhando para o chão em busca do farelo que o outro pode ter deixado cair. Muitos estão descalços, com os pés calejados pelo constante vaivém. Os pedestres já não se importam, passam, desviam e seguem sua caminhada.
A migração dos usuários da Cracolândia paulistana fez muitos donos de lojas e estabelecimentos contratarem seguranças privados. Eles começam o trabalho à noite e, munidos de cassetetes de madeira, afugentam os grupos das portas e calçadas, mas sem atingi-los.
"Trabalho há cinco anos como segurança noturno e a situação tem piorado muito. A gente sozinho não consegue lidar com eles", afirmou José Maria, que temendo uma represália preferiu não revelar o seu sobrenome. Havia três seguranças para uma rua.
Já passa da meia-noite, em algumas horas a semana de trabalho está por começar na maior capital do país quando uma mulher com uma criança no colo, coberta por um xale, se aproxima do grupo que a essa altura já quase fecha a rua de tão numeroso. São cerca de 300 pessoas. Um menino, que aparenta ter no máximo 10 anos, empurrando um carrinho de boneca, pergunta: "Mãe, você tem troco pra ele?", após entregar ao cliente as pedras do crack.
A maioria carrega uma sacola com objetos que estão à venda para conseguir dinheiro para a droga. A polícia passou duas vezes em 15 minutos, mas sua ação limitou-se a espantar os usuários da rua que, sem outro destino, se aglomeram nas vias paralelas para depois voltarem em uma peregrinação sem fim. Desde 2006, usuários e dependentes não podem ser presos.
Alguns carros de luxo também param e em menos de cinco minutos deixam o local. Em pouco mais de meia hora, usuários tentam vender um gorro ao preço de 1 real e um par de tênis por 5 reais, bem abaixo do que realmente valem. Um deles chegou a oferecer à Reuters um celular avaliado em 500 reais por meros 100 reais.
A manhã chega, e as lojas começam a abrir as portas. A vida volta à normalidade, e os vestígios da feira noturna do crack só estão no chão -copos, papéis, bitucas de cigarro e garrafas plásticas.
Ali, a atividade que se vê na rua é ditada pelo tempo. Quando a tarde cai, tudo volta à mesma cadência, um ciclo vicioso do "acende e apaga" que ninguém tem conseguido driblar.
"É horário marcado, às 20h. O traficante vem, chega aí, fica no meio, e os 'noias' protegem. É sempre assim", disse a proprietária de um hotel, referindo-se à forma como os usuários são chamados.
VILÃO
Ainda se sabe pouco sobre o consumo do crack, que em São Paulo está em sua segunda onda -a primeira foi nos anos 1990 e desde então o número de usuários triplicou. O Ministério da Saúde estima o número de usuários de drogas em geral no país em 600 mil, embora algumas organizações e especialistas apontem para quase 1,2 milhão.
Combater o crack foi uma das promessas de campanha da presidente Dilma Rousseff, que lançou um plano de 4 bilhões de reais em dezembro que prevê a abertura de 13.518 novos leitos para usuários de drogas até 2014, com ações estruturadas em saúde, segurança pública e prevenção.
"Falta uma gestão do problema... falta direcionamento, nós não temos política nenhuma para as drogas no Brasil", disse a psiquiatra e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Roselli Marques.
No Brasil, não há dados oficiais sobre o montante de dinheiro que a indústria das drogas fatura, mas estimativas extraoficiais de diversas organizações mostram que esse número é de cerca de 1,5 bilhão de reais anualmente.
Embora o crack não renda muito para o traficante, porque é barato, ele causa uma dependência mais forte e duradoura que garante um mercado de consumo permanente.
"O traficante está ofertando a droga para o usuário recair e para os que não começaram começarem. Esse controle da oferta tem que existir... porque senão, não tem fim", disse Ana Cecília, que também é pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Drogas (Inpad).
Mais importante do que abordar, reprimir e encaminhar, é preciso discutir a assistência em longo prazo e a reinserção dos ex-usuários na sociedade para que não sejam novamente atraídos pela sedução que a droga oferece, defendeu Ana Cecília.
"É possível uma remissão parcial do vício com no mínimo 12 meses de tratamento intensivo. Mas e depois? A família vai querer o ex-usuário de volta? Ele tem para onde ir? Se voltar para a rua começa tudo de novo."
(Reportagem adicional de Paulo Whitaker)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Marcha: tratamento e reinserção social é destaque em um dos painéis do Seminário sobre crack


Para a especialista da Unidade de Pesquisa Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecilia, cada Município deve instituir uma rede de tratamento de acordo com suas necessidades.  Durante o segundo painel do Seminário Nacional: Os Municípios com Protagonistas no Enfrentamento ao Crack, a especialista destacou a importância do tratamento e reinserção social.

Para ela como não é possível ter um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em todos os Municípios brasileiros os prefeitos devem apostar em uma boa Atenção Básica para ajudar na questão do tratamento. “A dependência é uma doença totalmente tratável e políticas integrais na luta contra o problema devem ser prioridades em qualquer governo”, afirma a especialista.

Durante a apresentação que aconteceu no primeiro dia da XV Marcha, Ana Cecilia ainda destacou a importância de diferenciar o tratamento dos dependentes químicos adolescentes e adultos. “O tratamento do adolescente é diferente e mais que isso, se ele não for tratado a tempo, vai se tornar um caso grave”, alerta.

Parelhas

O painel ainda contou com o depoimento do prefeito do Município de Parelhas (RN), Francisco Medeiros. Ele trouxe boas práticas na área de reinserção social destacando o trabalho do CAPS municipal. “Nosso CAPS atende mais de 148 usuários por mês, a maioria com problemas com crack. Nossa equipe multidisciplinar tenta atender os 21 mil habitantes, pois na região do Seridó com 54 Municípios, só existe um CAPS 3 no Município de Caicó  que não consegue atender a demanda”, conta o prefeito.

O gestor municipal destaca ainda que os projetos de reinserção social trabalham com a capacitação dos usuários, com oficinas de trabalhos manuais, teatro e cursos técnicos. “O perfil do usuário é de 25 a 30 anos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, por isso precisam de apoio para se capacitar e se reinserir”, observa o gestor.