quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Empresas investem no combate à dependência química



Um operador de máquinas da Goodyear começou a cheirar cola aos 13 anos. Pouco tempo depois conheceu a maconha e, aos 28 anos, virou usuário de cocaína. Exaurido pelos problemas causados pela dependência química, ele decidiu mudar o estilo de vida. E foi na empresa que encontrou o apoio necessário para dar fim ao vício. A ajuda partiu de um programa de combate à dependência química, o Prosa G, implantado na fábrica da Goodyear em Americana (SP). Como o operador de máquinas, quem decide participar do projeto, que tem duração de dois anos, recebe acompanhamento médico e psicológico.

Durante o primeiro ano, o apoio é estendido aos familiares e a etapa final do tratamento incluiu 30 dias de internação em uma clínica especializada, além de todo suporte posterior.

Outro funcionário da Goodyear, da área de construção de pneus, abandonou a dependência ao álcool, engrossando a lista dos quase 60 colaboradores que o programa já reabilitou desde sua implementação, em 2005. Ele conta que já conhecia o programa por meio das palestras na empresa, mas só aceitou a ajuda quando percebeu que a dependência afetava sua rotina, inclusive durante o expediente. “Eu deixei de ser responsável, não tinha compromisso com o trabalho, não cumpria todas as normas e tinha deixado até de usar alguns equipamentos de segurança”, afirma. Hoje, aos 37 anos, não sente saudade da vida que levava anteriormente.

Para o gerente de Recursos Humanos da Goodyear de Americana, José Carlos Marzochi, o segredo da eficiência no combate ao abuso do álcool e entorpecentes no ambiente de trabalho é um programa voltado tanto para os interesses da companhia quanto dos colaborares e de seus familiares. “O assunto exige atenção especial das áreas de Medicina do Trabalho, Assistência Social e RH das organizações que buscam melhoria contínua”, diz Marzochi. Ele lembra que o consumo de drogas está diretamente relacionado a acidentes de trabalho, queda de produtividade, absenteísmo e deterioração das relações sociais e familiares. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 71% dos usuários de drogas ilícitas em todo mundo estão empregados e fazem parte do mercado de trabalho. Os profissionais ouvidos pela reportagem destacam que, se não fosse o apoio recebido da empresa, não teriam abandonado o vício. “Voltei a sonhar”, ressalta o operador de máquinas, que se diz ainda mais feliz por ter estabelecido um elo mais forte com a filha.

Redução do fumo

Já o programa antitabagismo da ArcelorMittal, em Tubarão (SC), conseguiu reduzir de 34% para zero o número de fumantes entre seus 4,8 mil colaboradores. Desde o início, em 1993, a produtora de aço contabilizou uma economia de R$ 30 milhões com despesas médicas. Aberta para os contratados e também para os terceirizados, a iniciativa espera, além do benefício financeiro, contribuir para que nenhum desses profissionais tenha futuramente uma das 53 doenças a que estão mais expostos os dependentes do cigarro.

O programa surgiu após a realização de uma pesquisa, em 1992, que mapeou o número de fumantes, há quanto tempo fumavam e qual o interesse em parar com o vício. O tratamento inclui a formação de grupos de apoio, palestras educativas, acompanhamento médico e uso de medicamentos, exames periódicos e implantação de áreas restritas para o fumo.

Segundo o gerente de Saúde e Medicina da ArcelorMittal, Fernando Ronchi, a primeira turma contou com 20 empregados que aderiram imediatamente. O programa foi ganhando força na medida em que os resultados eram percebidos pelos colegas. “O tratamento é realizado em grupo, em que cada empregado conta suas experiências, aflições e constrangimentos, além de refletir sobre a importância de parar de fumar”, afirma Ronchi. Quem precisa de suporte medicamentoso conta com uma equipe multidisciplinar que garante todas as orientações e suporte. “As reuniões acontecem a cada quatro semanas, durante seis meses”, acrescenta o gerente, complementando que o controle passa a ser feito posteriormente por meio dos exames periódicos.

Um programa antitabagista também faz parte da política da Dow Brasil. A iniciativa visa melhorar a qualidade de vida dos profissionais e já resultou em redução considerável do percentual de tabagistas na empresa. No início do projeto, em 1995, 24% dos colaboradores eram fumantes; em 2012, apenas 5% deles fumavam. Lucio Ribeiro, coordenador dos Serviços de Saúde da companhia, explica que quem adere à iniciativa tem, além de toda a estrutura de apoio, subsídio de 80% na compra dos medicamentos necessários para abandonar o vício. “Acreditamos que os investimentos em iniciativas como essa são ínfimos comparados ao retorno”, diz ele, referindo-se aos benefícios tanto para a empresa quanto para o colaborador.

Apesar dos resultados satisfatórios, as empresas que dão suporte aos dependentes ou que têm projetos nesse sentido são exceções no Brasil, segundo a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecilia Roselli Marques. Preocupada com as consequências do trabalho sob efeito de substâncias químicas, Ana é favorável a políticas empresariais sobre drogas e a adoção de testes toxicológicos obrigatórios no ambiente de trabalho, principalmente em atividades que colocam a vida de outras pessoas em risco, como operadores de máquinas. Uma ideia da gravidade são os dados do Ministério da Saúde, que registram que o álcool é responsável por 50% do absenteísmo – terceira causa de faltas ao trabalho – e licenças médicas – três vezes mais que outras doenças. O abuso de álcool também reduz em até 67% a capacidade produtiva do funcionário e é responsável por cerca de 25% dos acidentes de trabalho. “As empresas precisam encarar a dependência química de frente, como uma doença e sem preconceitos”, afirma Ana Cecilia.

No Brasil, exceto a Lei 12.619/12 – que obriga o motorista profissional a submeter-se a exames toxicológicos – não existe nenhuma previsão legal para a realização desses testes por parte do empregador, explica Giancarlo Borba, advogado especializado em direito trabalhista. Livre para decidir se deve ou não submeter a equipe ao procedimento, Borba alerta para outros detalhes. “É importantíssimo que seja esclarecido que o exame será feito por profissionais especializados, usando métodos confiáveis e que o resultado permanecerá em total sigilo”, afirma ele, que completa: “Além disso, deve se deixar claro que o resultado admite contraprova”.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Renda e drogas estão em alta



Polícia flagra maior circulação de LSD, ecstasy e outras substâncias caras

Quanto mais conhecido na balada, mais fácil fica encontrar o caminho para a "vibe (vibração)perfeita". Mas, além da influência, também é preciso ter dinheirono bolso: R$ 50 é o valor mínimo que se paga por uma noite de alucinações e sensações de euforia. E não falta por aí quem queira comprar o prazer em forma de remédio. Com o aumento da renda do mineiro, cresce também o consumo de substâncias entorpecentes mais caras, como o ecstasy, o LSD e outras drogas sintéticas.

Dados da Polícia Federal (PF) mostram que, no ano passado, foram apreendidos 92.883 comprimidos de ecstasy no Estado, número 135,7 vezes superior ao retido pela corporação em 2010 (684 unidades). A presença do LSD também se multiplicou nos flagrantes da PF, passando de 2.370 micropontos (pequenos quadrados com cerca de seis milímetros) encontrados em 2010 para 24.860 em 2011, o equivalente a dez vezes mais.

"O aumento se deve ao número maior tanto de operações da polícia como de uso por parte da população, que está investindo mais nas drogas caras", afirma o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF, João Geraldo. O balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF) 
também mostra crescimento de apreensões de LSD, ecstasy e outras drogas sintéticas. 

Em 2011, 322 unidades desse tipo de substância foram parar nos depósitos da corporação, contra 36 em 2010. Em contrapartida, os flagrantes de cocaína e crack, que têm menor preço, tiveram queda (veja quadro abaixo).

Para o presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Joaquim Melo, há uma tendência das classes média e alta em trocar a cocaína e o crack pelas drogas sintéticas. "Elas vêm da Europa e estão na moda. Não digo que já viraram uma epidemia, mas, se continuar no ritmo que estão, vão virar", declara Melo.

O delegado João Geraldo explica que há um status envolvendo as drogas sintéticas. "É muito mais fácil dizer que está usando ecstasy do que cocaína, que parece mais viciante", diz Geraldo. No entanto, a psiquiatra e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecilia Roselli Marques afirma que o impacto do ecstasy é mais devastador do que o da cocaína. "Ele é derivado da anfetamina, que destrói os neurônios", explica. O LSD, segundo ela, também causa dependência, e seus efeitos ainda são pouco estudados.

Os malefícios, porém, não impedem o publicitário Renato (nome fictício), 29, de usar o ecstasy a cada 15 dias. "Costumo comprar três comprimidos na balada, mais um alucinógeno. Gasto cerca de R$ 300 por noite, mas vale a pena, a ‘vibe é perfeita".

Consumo vai além das raves e atinge eventos de axé e de sertanejo

Com o aumento da procura pelas drogas sintéticas, o consumo não está apenas restrito a raves, como são chamadas as longas festas de música eletrônica. Segundo o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal, João Geraldo, o ecstasy e o LSD já chegaram também aos eventos que tocam músicas sertaneja e axé. 

"Os produtos ainda são comuns em festas privadas. Do jeito que está, é possível prever uma epidemia de ecstasy no Brasil, assim como estamos vendo com o crack", afirma o delegado. Um estudo feito pelo Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) revela que a idade média para se começar a usar ecstasy é de 20,5 anos, e o LSD, 19,5. 

O publicitário Renato (nome fictício), 29, conta que experimentou o ecstasy pela primeira vez há dois anos, na balada de música eletrônica que frequentava. "Eu já tinha ouvido falar dos efeitos e procurei quem vendesse. Não foi difícil, mas é preciso ter bastantes contatos", relata. Ele diz que gosta de usá-lo com um alucinógeno para dar uma "vibe" melhor. "Só não misturo com álcool para manter o controle. Chego a ficar 24 horas ‘fritando (ligado)’". (LC)





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Estudo aponta origens do vício


Cresce em consultórios e clínicas número de dependentes de drogas, álcool, sexo, comida e outros males.
Na Paraíba, 435.988 pessoas (11,5% da população) são viciadas em tabaco. O álcool faz o segundo maior número de dependentes no Estado, com uma média de 376 mil viciados. As drogas ilícitas já escravizam milhares de paraibanos: crack (111 mil pessoas) maconha (112 mil) e cocaína (75.330). Além disso, cresce nos consultórios e clínicas o número de pessoas procurando ajuda porque não conseguem mais parar de trabalhar, comer, comprar, fazer sexo, se exercitar ou navegar na Internet. Ainda existe a ‘dependência cruzada’, quando uma pessoa
tem dois ou mais vícios ao mesmo tempo. Especialistas alertam que tudo começa com uma sensação de prazer ou de preenchimento de um vazio e vira doença.
Por que as pessoas se viciam? Pesquisas e estudiosos dizem que qualquer ser humano é um alvo em potencial do mal. A chave pode estar na genética (risco é de 30%), na mente (30%), no meio social (30%) e até na falta de religiosidade (10%), de acordo com a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecília Roselli. E há cura? “Não, mas o tratamento adequado pode levar o indivíduo a controlar sua doença e à remissão total”, afirma Ana Cecília.
A psiquiatra explica que o tratamento pode ser feito com medicamentos (antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina) e com outros métodos, como grupos de ajuda, clínicas de reabilitação e terapias espirituais. “Independente do método, o tratamento é baseado na desintoxicação, prevenção de recaídas, tratamento das complicações, tratamento da família e manutenção da abstinência”, esclareceu.
Disponível em: http://www.abead.com.br/imgs/file/Correio_da_Paraiba.pdf

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uso da maconha começa cada vez mais cedo no Brasil


Em 2012, 62% dos usuários experimentaram a droga antes dos 18 anos; em 2006, o índice era de 40%.

SÃO PAULO, Brasil – Ele deu o primeiro trago em 2001, quando tinha 16 anos.
Desde então, por seis anos, o comunicador Vinícius Werner, 27, fumou maconha todos os dias. Em todo o Brasil, 1,5 milhão de adolescentes e adultos também usam o entorpecente diariamente.

Como Werner, 62% dos usuários brasileiros tiveram contato com maconha antes de completar 18 anos, de acordo com o segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

E a tendência é de alta. Em 2006, quando foi realizado o primeiro estudo, o índice era de 40%, segundo a Unifesp.

“Quanto mais cedo ocorre o consumo da droga, maior é a chance do desenvolvimento de dependência”, explica a psiquiatra Clarice Sandi Madruga, coordenadora do levantamento.

Realizado em 149 municípios, o estudo ouviu 4.607 pessoas a partir dos 14 anos que responderam a um questionário sigiloso com mais de 800 perguntas sobre o uso de álcool e drogas.

Cerca de 8 milhões de brasileiros – 7% da população adulta – já experimentaram maconha ao menos uma vez na vida. Desse total, 3,4 milhões de pessoas (3%) utilizaram o narcótico no último ano.

Entre os menores de idade, mais de 600.000 já tiveram algum contato com o entorpecente ao longo da vida – 470.000 deles nos últimos 12 meses.

Tanto adultos quanto adolescentes têm acesso à droga comprando de alguém (60% dos casos) ou ganhando de algum amigo (35%). A diferença é que, enquanto os adultos conseguem maconha em locais públicos e pontos de venda, os menores de idade têm outro ponto de distribuição: a escola.

Efeitos da dependência

O Brasil não está entre os três maiores consumidores de maconha do mundo, segundo o levantamento da Unifesp. O percentual de indivíduos que utilizaram a droga no último ano chega a 14% no Canadá, 13% na Nova Zelândia, 10% nos Estados Unidos e no Reino Unido e 7% no Chile, na Argentina e no Brasil.

Mas a taxa de dependência entre os brasileiros se equipara à de outros países: 37% dos adultos que usam maconha são viciados – cerca de 1,3 milhão de pessoas, segundo o estudo da Unifesp.

Entre os fatores que indicam vício, estão a ansiedade pela falta da droga e a sensação de falta de controle.

A toxicomania é menor entre os adolescentes (menos de 10% entre usuários), mas é extremamente nociva à saúde desse grupo, já que a substância causa alterações irreversíveis no cérebro ainda em desenvolvimento, explica Clarice.

“O cérebro só termina de amadurecer perto dos 25 anos, por isso o uso de maconha antes disso aumenta as chances de desenvolvimento de outras doenças psiquiátricas, como depressão e transtornos de ansiedade”, completa Clarice.

O consumo precoce da maconha age sobre o sistema nervoso central diminuindo a atenção, a concentração, a memória e a capacidade de resolver conflitos, segundo a psiquiatra e neurocientista Ana Cecilia Marques, coordenadora do Departamento de Dependência em Álcool e Drogas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

“Estudos apontam que a taxa de dependência entre jovens que consomem álcool aos 16 anos varia de 6% a 8%. Se começaram aos 12 anos, o índice sobe para 10% a 12%”, aponta Ana Cecilia, ao lembrar que não há um estudo mais aprofundado sobre o uso precoce da maconha. “Esse percentual também é esperado para outras drogas, pois elas afetam o sistema límbico, que é o mesmo prejudicado pelo álcool.”

Como consequência do consumo precoce de entorpecentes, o usuário pode ter dificuldades para estudar, trabalhar e se relacionar com outras pessoas. Esses danos podem levar a depressão, ansiedade, além do desenvolvimento de esquizofrenia e outras neuroses, de acordo com Ana Cecilia.

Flexibilização

No Brasil, qualquer tipo de acesso à maconha é proibido: desde o uso medicinal até o cultivo para consumo próprio e a compra e venda da droga.

Nos últimos anos, porém, o debate sobre a possibilidade de descriminalizar ou legalizar a droga ganhou força. O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso é uma das personalidades que tem se manifestado a favor da mudança na legislação.

Em 2012, mais de 200 cidades sediaram a Marcha da Maconha, uma passeata realizada por defensores da regulamentação da erva.

“Estamos falando do fato de a proibição trazer muitíssimos problemas e não controlar o consumo de forma alguma, nem entre os adolescentes”, defende Alexandre de Castro, um dos organizadores da Marcha da Maconha em Belo Horizonte (MG).

Ainda assim, apenas 11% das pessoas entrevistadas no levantamento da Unifesp são favoráveis à legalização da maconha, enquanto 75% são contra.

“É muito difícil predizer como seria essa flexibilização num país como o Brasil, pois é complicado usar países pequenos como base para esta decisão", comenta Clarice. "Além do mais, é importante lembrar que o projeto de lei que está em votação é para todas as substâncias psicotrópicas e não só a maconha.”

A psquiatra lembra ainda que o aumento da disponibilidade de qualquer droga eleva seu consumo e que menos de 20% dos viciados procuram tratamento médico.
“Independente da discussão da lei, é inquestionável a necessidade de mais centros de atenção primária, principalmente de CAPS-AD (Centros de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas)”, defende Clarice.

Para Ana Cecilia, antes de discutir legalização de outras drogas, o governo deve garantir que menores não tenham acesso a entorpecentes hoje considerados legais.

“Eu só acredito em uma coisa: uma política que proteja a criança e o adolescente de drogas inclusive legais, como o álcool e o tabaco, que também são proibidas para menores de 18 anos”, afirma Ana Cecilia.

Disponível em: http://infosurhoy.com/cocoon/saii/xhtml/pt/features/saii/features/main/2012/11/07/feature-02

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O empenho não tem poder mágico


Motivação, empenho e força de vontade são fundamentais para iniciar o tratamento de vícios como álcool, drogas e compulsão para jogos. No entanto, não têm poder mágico. "A disposição para se tratar é crucial", diz a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Universidade Federal de São Paulo. "Mas, diferentemente de outros problemas, as doenças psiquiátncas alteram justamente a área do cérebro relacionada à força de vontade." As drogas agem no córtex pré-frontal, área relacionada a tomada de decisões. É comum que o dependente decida abandonar o vício e busque tratamento. Contudo, viciados desistem com mais facilidade. O problema: o histórico do consumo de drogas faz com que a motivação inaugural se torne instável. Quem nunca conheceu um fumante que decidiu largar o vício e o encontrou depois dando algumas tragadas? Não, não é a falta de força de vontade com sua ruidosa presença.
Um exemplo claro desse comportamento é o do alcoólatra que decide parar de beber. Ele consegue ficar sem um copo à mão por poucos dias, mas logo depois sente os efeitos da abstinência. A pressão arterial aumenta, há taquicardia, ansiedade e suor. Os sinais aparecem depois de três dias da retirada total do álcool no organismo. Por isso, o acompanhamento médico é indicado durante todo o processo. Podem-se utilizar medicamentos para controlar a ansiedade e os sintomas. Outra estratégia comum é trabalhar a motivação ao longo do tratamento, sempre ressaltando os prós e contras de abandonar o vício. "Uma minoria dos pacientes consegue se tratar sem a ajuda médica", diz Marques. No caso do alcoolismo, somente 10% das pessoas param de beber por conta própria. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Participação como entrevistadora no Programa Roda Vida:

“O país está se acabando em crack”


Rubem César Fernandes, diretor da ONG Viva Rio, fala sobre pesquisa que aponta o Brasil como o maior mercado de crack do mundo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Álcool na Gestação

O impacto da bebida alcoólica no organismo das  mulheres é diferente daquele que  ocorre no homem, e muito mais  deletério. Isso ocorre devido  a menor quantidade de água  presente no organismo das  mulheres, o que faz com que  o álcool seja distribuído e  metabolizado mais rapidamente,  assim como pela presença entre as mulheres de uma  quantidade bem menor de enzimas hepáticas que  metabolizarão essa substância. A mulher é muito mais  vulnerável ao álcool em todas as fases de sua vida.

Durante a gestação, o abuso de álcool pode levar a Síndrome Fetal pelo Álcool que é caracterizada por  retardo mental grave e outros problemas congênitos,  incluindo retardo de crescimento, anomalias faciais  e cardíacas. Uma vez que a quantidade de álcool  considerada segura durante a gestação ainda não se  encontra determinada, a abstinência é recomendada.

Uma criança que sofreu as consequências do etanol  durante o seu desenvolvimento no útero, apresenta  inúmeras limitações intelectuais, dificuldades nos testes  de aritmética e em seu desenvolvimento sócio-emocional,  assim como a alteração da memória e da atenção, que  repercutirão na sua vida escolar e social.

O álcool na gestação é a primeira causa não genética  de retardo mental, e que pode ser evitado. Mães que usam o álcool de forma pesada durante a  gestação tem chance duas vezes maior de ter filhos com  transtornos de personalidade e transtornos relacionados  ao uso de substâncias na adolescência. O uso do álcool  na gestação é um importante fator de risco para a  ocorrência de doenças psiquiátricas na prole em idade  adulta.

Observando tantas susceptibilidades na relação da  mulher com o álcool, é possível concluir que a prevenção  é o melhor caminho, pois as abordagens utilizadas para  aquelas  que fazem uso problemático na gestação ou em  outra fase da vida, além de complexas, podem apenas  minimizar e não resolver o resultado do uso na mulher  e o impacto em seus filhos. Prevenir é muito melhor que remediar!



domingo, 9 de setembro de 2012

Treinamento de enfermeiros é falho para cuidar de dependente químico


É o que afirmam especialistas sobre funcionários do Hospital Lacan, em São Bernardo, que sofrem ataques e ameaças de pacientes


Protesto em frente ao Lacan, onde uma funcionária já foi ameaçada de morte. Foto: Amanda Perobelli  

Especialistas em atendimento a dependentes químicos revelaram que os casos de agressão e ameaças infringidas a funcionários da ala destinada ao tratamento de dependentes químicos do Hospital Lacan, localizado em São Bernardo, podem estar ligados a falhas no treinamento do corpo de enfermagem. No último dia 21 de agosto, um grupo do corpo de enfermagem denunciou episódios de violência.

Desde o início do mês, cinco técnicos de enfermagem foram agredidos e ameaçados por internados. O último caso ocorreu no dia 17, quando uma trabalhadora foi ameaçada de morte com uma arma branca, fabricada por um interno. No caso mais grave, ocorrido em 2 de agosto, quatro funcionários foram amarrados, amordaçados, espancados e roubados por pacientes que fugiram em seguida. 

De acordo com os funcionários ouvidos pela reportagem – que não quiseram revelar as identidades por temerem represálias da direção do hospital –, as ameaças são constantes. “Não temos segurança para trabalhar, vivemos com medo”, afirmou uma técnica de enfermagem. A reivindicação é de que a segurança seja reforçada na unidade. Atualmente, apenas seguranças patrimoniais atuam no hospital.

A Associação Brasileira de Psiquiatria informou que não existe legislação específica que preveja seguranças dentro de clínicas e hospitais psiquiátricos. Para Ana Cecília Petta Roselli Marques, psiquiatra, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e conselheira consultiva da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), casos como os relatados no Hospital Lacan não são comuns nos centros de tratamento de dependentes químicos.

Jeito - “Os pacientes podem ficar agressivos durante as crises de abstinência e o corpo clínico deve conter o indivíduo física ou mecanicamente (com o uso de camisas de força). Depois é aplicado o medicamento e normalmente o paciente se acalma. Não há necessidade de seguranças dentro do hospital ou clínica para isso”, relatou.

Ana Cecília reforçou que uma equipe bem treinada e entrosada consegue notar as mudanças no comportamento dos pacientes, evitando situações perigosas e agindo com tranquilidade. No entanto, a agressividade demonstrada no caso do Lacan chamou a atenção da psiquiatra, com 30 anos de experiência na área. “Em toda minha carreira nunca vi esse tipo de situação. É preciso checar o diagnóstico destes pacientes, que parecem sofrer de transtorno de conduta. Nestes casos, esse tipo de hospital não é o ideal para a internação”, comentou.

Psicólogo afirma que violência é comum

O psicólogo Marcos Levi Gonçalves Mello, que também acumula 30 anos em atendimento a dependentes de drogas e álcool e já trabalhou no Lacan, afirmou que casos de violência por parte dos pacientes não são incomuns. “Isso pode acontecer, mas o ponto crucial é treinar permanentemente a equipe para atuar com firmeza e segurança. Normalmente, isso é negligenciado tanto na rede pública como particular”, lamentou.

Já a coordenadora do serviço de Saúde Mental de Diadema, Cibele de Toledo Neder, apontou o modelo de atendimento do Lacan como responsável pelos casos de violência. “Neste local usa-se a internação compulsória, quando o usuário é levado mesmo contra sua vontade. O hospital acaba se transformando uma espécie de cadeia, o que estimula agressões e rebeliões”, afirmou.

No modelo dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), não há atendimento sem autorização do dependente. “Fazemos um trabalho de abordagem e resgate da vida social, conscientizando sobre o uso das drogas e suas consequências. Por isso não temos casos de agressões nestes centros”, destacou Cibele.

Para sindicato, diretoria peca por omissão

O presidente do SindSaúde ABC (Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Privados de Saúde e Empresas que Prestam Serviços de Saúde e Atividades Afins do ABCDMRP), Valdir Tadeu David, informou que os funcionários do Hospital Lacan tentaram negociar com a diretoria, mas não houve resposta aos pedidos. “Os episódios de violência foram levados ao conhecimento da direção, mas nada é feito.”

Cerca de 100 funcionários, divididos em quatro turnos, trabalham no Hospital Lacan, que integra o Grupo Saúde Bandeirantes, instituição filantrópica de utilidade pública federal, estadual e municipal fundada em maio de 1975 e qualificada como Organização Social pelo governo do Estado de São Paulo. Procurado, o Grupo Saúde Bandeirantes não se manifestou sobre as denúncias dos funcionários.

Serviços - A instituição oferece serviços de internação para pacientes com dependência química, alcoolismo e transtornos mentais, tais como depressão, psicose, ansiedades, entre outras patologias. Também há atendimento ambulatorial, com consultas agendadas com psiquiatras e psicólogos.

Desde março de 2009 o Hospital Lacan conta com uma clínica pública para adultos dependentes químicos, com 30 leitos. Em abril deste ano, o governador Geraldo Alckmin inaugurou no Hospital Lacan o primeiro serviço especializado em tratamento de gestantes com dependência química do Estado.


Uma fortaleza contra o crack



Num casarão em forma de castelo, uma ONG ajuda moradores de rua e dependentes químicos a aprender um ofício e a reencontrar o rumo

Maria Eulina é uma das assistidas pelo Clube de Mães. A ONG oferece alimentação e oficinas técnicas a moradores de rua 

Boaventura tinha fome. Aos 17 anos, o rapaz saíra da casa dos pais, em Mato Grosso, e fora para são Paulo morar com uma tia. O plano inicial, completar o ensino médio e trabalhar, logo foi abandonado. "Minha família achava que eu estava estudando, mas passava o dia usando droga e me prostituindo", diz. Viciou-se em crack e morou nas ruas por três anos. Um dia, descobriu que serviam comida num casarão em formato de castelo, na Rua Apa, no centro de são Paulo. O Clube de mães chega a reunir 100 pessoas nos almoços de sábado. São moradores de rua, a maioria vinda da área próxima apelidada de Cracolândia. Sua fundadora, Maria Eulina Hilsenbeck, recebe quem vem em busca de comida e tenta oferecer algo mais. Conversa com vários dos visitantes e encaminha os interessados a albergues. Alguns passam a participar das oficinas promovidas pela ONG durante a semana.
Faz cinco anos que Boaventura entrou no almoço que, provavelmente, salvou sua vida. "Viciado em crack não quer nada com nada, mas a Maria Eulina me deixou entrar mesmo assim", diz. Eulina não se imagina agindo de outra forma. Ela criou o Clube em 1993, com a proposta de orientar as mães de áreas pobres e violentas. Logo passou a oferecer refeições grátis e cursos baratos aos interessados. Em 2009, a ONG foi obrigada a se reinventar, diante do avanço devastador do crack.
Eulina percebeu o poder destrutivo da nova droga desde o final dos anos 1990. Em 2005, a secretaria Nacional de Políticas Contra Drogas calculava que 1,29 milhão de pessoas já a experimentaram. "Vi crianças acendendo um cachimbo de crack na minha esquina", afirma Eulina. "Não podia deixar de me envolver, nem que fosse para salvar um ou dois."
O índice de sucesso na recuperação desses dependentes é baixo. O tratamento pede recursos, equipes multidisciplinares e atuação em rede de vários tipos de instituições, diz a psiquiatra Ana Cecilia Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). A síndrome de abstinência, se mal diagnosticada, pode causar demência. Entre os desafios antigos e graves com que já lidava - alcoolismo, abandono, falta de expectativas - e o novo, Eulina escolheu enfrentar o mais difícil. "O dependente de álcool, em alguns momentos, recobra a razão. O crack não dá trégua", diz.
Há três anos, o Clube passou a se dedicar apenas a moradores de rua. Fechou os demais cursos, pagos, e manteve apenas oficinas gratuitas para esse grupo, como as de costura. Elas resultam em sacolas, bolsas e brindes, feitos com material reciclado e vendido a empresas. McDonald’s e Pão de Açúcar estão entre os parceiros eventuais. A ONG conta com dois funcionários e dois voluntários, além de Eulina. Não tem condições de lidar com casos mais graves. Os que pedem são encaminhados para tratamento. Eulina calcula que, desde 2002, o Clube tenha ajudado 2 mil pessoas a deixar drogas variadas.
Deixar de ministrar cursos pagos teve consequências. O Clube deve R$ 48 mil. Eulina não se arrepende da decisão e considera o trabalho na ONG uma extensão de sua própria história. Ela nasceu no maranhão e foi para são Paulo aos 20 anos. Viveu dois anos nas ruas. Às vezes, escondia-se no Castelinho. O lugar estava abandonado desde 1937. Um dia, uma desconhecida ofereceu abrigo e emprego de assistente. No trabalho, Eulina conheceu o futuro marido, que a ajudou a reorganizar a vida. Ela decidiu ajudar quem precisava. O governo estadual admitiu a ONG no Castelinho em 1996.
Inquieta, Eulina se prepara para um novo desafio. Desde 1o de agosto, 20 pessoas que participaram das oficinas do Clube assumiram a coleta seletiva do mercado municipal Paulistano, o mercadão. A renda com as vendas será dividida entre os trabalhadores. A administração do mercado se encantou com o projeto. "Nos sete anos em que trabalho aqui, o Clube foi a única ONG que não me pediu mais nada - só trabalho", diz o supervisor de abastecimento José Roberto Graziani.
Boaventura, que chegou ao Clube em 2007 atrás de comida, participou das oficinas por sete meses. Foi encaminhado para tratamento. Tornou-se atendente na clínica de reabilitação e se matriculou num curso superior. Ele se mantém em tratamento até hoje. Eulina se lembra dele com orgulho: "Fico muito feliz de ver a vida deles decolando".

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As escolas que transformam ex-dependentes em terapeutas


Cursos utilizam a experiência com as drogas em técnicas de reabilitação. “Do fundo do poço nascem exemplos bons”, diz Mauro, que venceu o crack
Mauro já foi dependente químico e hoje trabalha na reabilitação de usuários. 'Do fundo do poço nascem exemplos bons'
Os dois heróis de Mauro estão mortos. O primeiro, um tio traficante, foi assassinado bem ao seu lado e deixou o cheiro de pólvora nas narinas do jovem por muitos anos. O segundo, um dependente químico em recuperação, perdeu a vida num acidente de carro antes de poder conviver com Mauro limpo, longe das drogas. Esta morte deixou vazio.

O fato de ter testemunhado os dois óbitos quando não tinha nem 19 anos também aparece entre os motivos para Mauro, hoje com 42, ter procurado formação específica para virar terapeuta. Hoje, ele ajuda a tratar pessoas que, assim como ele, tentam diariamente ficar longe do crack, da cocaína e do álcool.

Os três vícios o acompanharam por quase três décadas (desde os 14 anos) e, depois de uma coleção de perdas acumuladas no período, ele sonha um dia ser apontado como herói por ao menos um dos inúmeros pacientes que agora ajuda. Um herói que não vende mais drogas e que quer estar vivo para ver a transformação daqueles que passou a acompanhar.
"Eu quero ser exemplo de que é possível renascer, mesmo após anos de uma vida anulada pela dependência química", diz antes de começar as nove horas diárias de trabalho que exerce na Clínica Maia, há sete meses.
Os serviços de tratamento psiquiátrico passaram a enxergar em ex-dependentes como Mauro uma ferramenta importante para tratar pessoas que ainda estão envolvidas com drogas. Hoje, as clínicas utilizam esta mão de obra como "coringa" na terapia que mescla medicamentos, abstinência e abordagens psicológicas.
A Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract) detectou esta estratégia e criou cursos de capacitação específicos para a formação de ex-usuários em terapia holística.
Até o final do ano, devem ser capacitados para a função 900 ex-dependentes. Em 2011, foram 705 formados na instituição e, no ano anterior, 500. Outros centros acadêmicos, como o da Universidade Federal de São Paulo, também atuam nesta formação.
“Em média, 95% das pessoas que nos procuravam para a capacitação já haviam tido envolvimento com as drogas”, afirma Juliano da Silva Marfim, coordenador administrativo da Febract, e ele próprio uma confirmação da tendência.
“Eu mesmo, até virar terapeuta, fui paciente. Sou alcoólatra e estou limpo há 5 anos e 11 meses”, conta Marfim, 29 anos.
“Trabalhava em uma multinacional e depois que terminei o tratamento fui demitido. Atuar com os dependentes, após o treinamento específico, foi uma forma de voltar ao mercado e também ajudar os profissionais de saúde a traçar estratégias mais efetivas de recuperação. Por isso, o treinamento é tão importante.”
Segundo os médicos, os ex-dependentes fazem da vivência um “medicamento” importante para ampliar os índices de recuperação de viciados. As taxas que mensuram este renascimento ainda são modestas e não superam a casa dos 30%, de acordo com os levantamentos catalogados pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psciotrópicas (Cebrid).
Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou em seu último boletim que o consumo de drogas, especialmente a cocaína, é crescente no mundo todo. No Brasil, a Previdência Social também mapeou que as licenças trabalhistas para tratar a dependência, de profissionais de todas as áreas, está em ascensão.
O trabalho deles

A psiquiatra Ana Cecília Marques, conselheira da Associação Brasileira de Estudos sobre Drogas e Álcool (Abead), explica que a relevância da atuação dos ex-dependentes é expressada já no início do tratamento dos novatos.
“A motivação dos dependentes é instável nos primeiros meses. Tal recurso pode ser aplicado para ajudar a manejar uma doença tão complexa.”
A complexidade do tratamento, explica o coordenador Juliano Marfim, é que não existe um “tratamento universal” para o problema das drogas.
“Este é o grande desafio da capacitação dos ex-dependentes. O que mostramos nas aulas e nos estágios monitorados é que o que funcionou para eles pode não ter o mesmo efeito em outros. Por isso, eles precisam ter um conhecimento integral das técnicas. Para apresentar este leque de possibilidades às pessoas que chegam à reabilitação”, afirma.

Fundo do poço

Mauro confirma que uma das grandes dificuldades é constatar que a fórmula que o tirou da “vida miserável”, muitas vezes não se aplica aos jovens, tão parecidos com ele, que chegam à clínica.
“Às vezes dá raiva, sensação de impotência. Porque um cara cheio de potencial não segura, com todas as forças, a corda que você oferece a ele. Mas talvez ele precise de outra forma de resgate. É um trabalho longo e nos ajudamos os psiquiatras e os psicólogos nisso”.
Nestes sete meses em que virou terapeuta, ele diz que ainda se surpreende sobre como “o fundo do poço pode ser terreno fértil para nascer exemplos bons”.
“Eu estudei nos melhores colégios, tinha casa na praia, roupa de marca. Ganhei meu primeiro carro zero aos 18 anos e troquei por dois quilos de cocaína duas semanas depois. Deixei o conforto da minha casa para morar em um barraco na favela só para ficar mais próximo das drogas. Quem apostaria fichas em mim?”, questiona.
“Até eu duvidava. Mas estou aí. Mostrando que a vida não precisa acabar na dependência.”
A favela da zona sul paulistana onde Mauro morou e presenciou a morte de seus dois heróis ainda é frequentada por ele.
“Volto sempre lá com meu filho, que está com 8 anos, para conversar com as crianças e com os adolescentes. Gosto do que sou agora. E quero mostrar que não é preciso se espelhar no homem que eu já fui.”


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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool



Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.
Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.
Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.
A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.
“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.
O QUE O QUE JÁ SE SÁBIA SOBRE O ASSUNTO
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.

Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”

terça-feira, 5 de junho de 2012

Atendimento a dependentes aumentou 50% após operação


No entanto, rede pública não integra serviços necessários para manter viciado longe das drogas; 106 pacientes foram encaminhados para internação

Desde que começou a operação Centro Legal na Cracolândia, o número de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da região central de São Paulo aumentou em 50%, informa a Secretaria Municipal de Saúde. Os CAPS são unidades de portas abertas onde os dependentes se tratam sem ficarem internados. No caso dos pacientes encaminhados para internação, foram 106 nos primeiros quinze dias da operação, iniciada em 3 de janeiro.
A coordenadora de Saúde Mental do município, Rosangela Elias, explica que a internação geralmente é indicada para os pacientes que apresentam algum problema de saúde mental juntamente com a dependência, ou para aqueles em situação de risco, que não conseguem se afastar das drogas para iniciar um tratamento. “Os que não apresentam nenhum quadro clínico associado ao vício podem ser encaminhados para as comunidades terapêuticas conveniadas”, disse.
Segundo a secretaria, o município oferece atualmente 371 leitos somente para o tratamento de dependentes químicos, sendo 80 no Serviço de Atenção Integral ao Dependente (SAID) e 291 em comunidades terapêuticas.
Rosangela Elias reconhece que a rede de atendimento ainda não é perfeita, mas enfatiza que a prefeitura tem garantido vagas de internação para todos que procuram tratamento. Para reforçá-la, a secretaria está credenciando dez residências terapêuticas próximas aos CAPS, onde os pacientes que não tem emprego nem casa ficariam por um tempo determinado até conseguir estabilidade para seguir o tratamento fora das clínicas de internação.
Deficiências – A psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cecilia Marques aponta que em São Paulo ainda há deficiência de vagas em leitos especializados para atendimento de viciados em crack, especialmente adolescentes e grávidas. Na sua avaliação, também falta uma integração entre os serviços de saúde e assistência social, além de haver poucas ações preventivas.

"Algumas pessoas não têm casa nem trabalho. Não adianta encaminhar para tratamento no CAPS sem oferecer recursos sociais mínimos para esses indivíduos", afirma. A psiquiatra explica que um viciado em crack precisa estar em tratamento contínuo por, no mínimo, doze meses. Entre os usuários de crack, a necessidade de internação para deixar o vício é três vezes maior que no caso dos alcóolatras, por exemplo.
Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/atendimento-a-dependentes-aumentou-50-apos-operacao